Os 120 anos do Museu de Numismática

No próximo dia 30, uma das instituições mais antigas do Amazonas, porém, conhecida por poucos e prestigiada por menos ainda, completará 120 anos: o Museu de Numismática, um dos mais importantes do país e do mundo devido ao raro e precioso acervo de moedas, cédulas, medalhas, condecorações, apólices e documentos históricos que possui. Coincidentemente, dia 1º de dezembro é o Dia do Numismata e dia de Santo Elígio, padroeiro dos numismatas e ourives.

Atualmente localizado no Palacete Provincial, o Museu de Numismática se originou em fins do século 19, a partir da coleção de moedas do manauense Bernardo d’Azevedo da Silva Ramos, filho de Manuel da Silva Ramos, o pioneiro da imprensa amazonense. Outra curiosidade sobre Bernardo Ramos é que ele foi o primeiro carteiro dos Correios, em Manaus, ainda no século 19.

Estudioso da arqueologia, Bernardo Ramos pesquisava antigas civilizações e acabou por se tornar profundo conhecedor de línguas mortas, o que lhe facilitou traduzir moedas dadas como indecifráveis. Chegou a publicar quatro catálogos de sua coleção, editados em Roma, em 1900.

Bernardo Ramos iniciou a coleção de moedas em 1898, quando adquiriu o acervo e a biblioteca do falecido Cícero Perigrino da Silva e, a partir de então, só a ampliou adquirindo mais peças raras. No ano seguinte, o Governo do Estado comprou a coleção de Bernardo Ramos por 300 contos de réis. Interessante é que, em 1900, as peças foram levadas para serem expostas no atual Museu Nacional, no Rio de Janeiro, durante as festividades do 4º Centenário do Descobrimento do Brasil, quando o então presidente da república, Manuel Ferraz de Campos Sales (1898/1902), ofereceu 400 contos de réis pelas moedas, recusados por Bernardo, que já as havia negociado com o Governo do Amazonas. Se o colecionador soubesse dos caminhos que a coleção tomaria décadas depois, teria lamentado ter se desfeito de suas peças em Manaus. De 1970 a 1980, com peças raras e valiosas, todo o acervo ficou abandonado num prédio na rua Henrique Martins.

Peças que se perderam

Em 30 de novembro de 1900, através do Decreto nº 460, foi criada uma Seção Numismática dentro da Imprensa Oficial, passando a ser essa a data oficial de criação do Museu. Começavam ali as suas andanças quando, é possível, que muitas peças tenham ido parar em coleções particulares.       

Quando ainda Seção de Numismática da Imprensa Oficial, esta funcionava num prédio na av. Sete de Setembro. Depois a coleção foi levada para o Palácio Rio Branco, então prédio da Secretaria do Interior e Justiça ficando lá até 1965, quando novamente mudou de espaço passando a ocupar as dependências do BEA (Banco do Estado do Amazonas), na rua Silva Ramos.

Numa visita a Manaus, em 1964, o presidente Humberto de Alencar Castelo Branco (1964/67), estudioso de numismática, foi levado a conhecer a coleção.

Em 1970, uma decisão desastrosa do Governo do Estado retirou a coleção do BEA, levando-a para o prédio na rua Henrique Martins, onde ficou esquecida por longos dez anos.

“Muito se perdeu pelo caminho”, escreveu o governador Vivaldo Barros Frota (1990/91), quando da reinauguração do Museu, em 1990.

Em 20 de novembro de 1980 o acervo foi levado para o cofre-forte do BEA, agora na agência do Boulevard Amazonas de onde saiu, naquele mesmo ano, para o Museu Tiradentes, que funcionava no Comando Geral da Polícia Militar, o hoje Palacete Provincial. Em 04 de setembro de 1990 o Museu de Numismática finalmente ganhou um espaço só seu, no Palacete, onde continua até agora.

Voltando a falar de Bernardo Ramos, ele morreu em 1931, aos 73 anos, no Rio de Janeiro. Em 1917 foi um dos fundadores, e primeiro presidente, do Igha (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), chamada depois de Casa de Bernardo Ramos. A rua que passa em frente ao prédio também tem seu nome.  

Algumas das raridades

O Museu de Numismática possui mais de 10.500 peças, entre elas as obsidionais holandesas de XII, VI e III florins, as primeiras moedas cunhadas no Brasil, em 1646, em Pernambuco; cédulas do primeiro Banco do Brasil, fundado por D. João VI, em 1808. Dois anos depois foram emitidos os primeiros bilhetes do banco, precursores das cédulas; moedas de 750 anos antes de Cristo; moedas de porcelana do século 19, do Sião, atual Tailândia; moedas espanholas com inscrições orientais; zimbos, espécie de conchas utilizadas em Angola e Congo, nas trocas entre negros, e encontrados nas costas da Bahia; coleções de moedas e medalhas da França e Vaticano; e as menores moedas do mundo, em ouro, do Japão.

Obsidional holandesa

Entre os livros, raridades, escritos em latim, grego, alemão inglês e português, inclusive os quatro catálogos de autoria de Bernardo Ramos.

Também consta entre os itens do Museu uma carta original escrita pelo português Joaquim Silvério dos Reis, delator dos inconfidentes mineiros junto com Tiradentes.

Duas coleções chamam a atenção principalmente pelos seus colecionadores, já falecidos: as moedas de ouro de Ulisses Oyarzabal, grande numismata espanhol, que viveu em Manaus e participou da Comissão de Reativação do Museu, em 1990; e as moedas de prata, de Junot Carlos Frederico, também numismata e que foi diretor do Museu por vários anos.

Moedas de ouro de Ulisses Oyarzabal

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