Um dia eles fizeram parte da decoração das paredes do Colégio Amazonense Dom Pedro II, mas com o tempo foi ficando complicado encontrar mais espaços para pendurá-los. Hoje restaram apenas quatro quadros com fotos antigas de alunos e professores do Colégio: um de 1909, outros de 1912, 1915 e um sem data, e mesmo estes correm o risco de virarem pó tal o descaso de antigas direções do D. Pedro II com estas relíquias.

Dom Pedro II, um ícone da educação no Amazonas

“Antigamente os colégios de Manaus costumavam fazer esses quadros anualmente onde apareciam as fotos do diretor, dos professores e de alguns alunos, acredito, os que se destacavam, pois nesses quadros estão apenas poucos alunos”, contou o professor de História, Maurício Grillo que, junto com cinco alunos, está tentando salvar os últimos que ainda restam na instituição.

Maurício descobriu os quadros numa sala, sem o destaque de anos atrás, em 2018. Sua idéia era restaurá-los para apresentá-los durante as comemorações dos 150 anos do Colégio, comemorados em 5 de setembro do ano passado, mas desde então o professor só teve aborrecimentos.

“Naquela época os quadros estavam com moldura e vidro, bem conservados. Mantive contato com o Ateliê de Restauro, da Secretaria de Cultura e, algum tempo depois a sala onde os quadros estavam foi restaurada, recebendo pintura nova. Em 2019 os professores entraram em greve e ficamos meses sem ir ao Colégio. Quando a greve acabou e voltamos, não vi mais os quadros. Achei que a direção os havia mandado para o Ateliê de Restauro”, lembrou.

Cinco alunos se ofereceram

Qual não foi a surpresa de Maurício Grillo ao encontrar, em julho do ano passado, os quadros desprezados no ex-Laboratório de Ciências do Colégio, em desuso. Estavam sem a moldura, sem o vidro, em estado de decomposição e tomados por cupins. Chateado, Maurício pediu que fossem levados para a sala da diretoria. Mas não foi atendido. Ainda no mesmo dia voltou a encontrá-los, agora literalmente jogados no porão do Colégio, e os guardou.

“Este ano eu mesmo os peguei e os levei para o Ateliê de Restauro, aqui no Palacete Provincial. Em fevereiro havia entrado em contato com a Secretaria de Cultura, para ver se custeavam o restauro daquelas peças históricas. Veio a pandemia e parou tudo novamente”, disse.

“Quando voltamos às atividades, em agosto, o Ateliê de Restauro disse que podia ajudar, mas eu teria que arcar com as despesas da compra do material: luvas, acetona, papel especial, e seria interessante se envolvesse os alunos naquela ação”, falou.

Para iniciar os trabalhos, o valor do material dava pouco mais de R$ 300, conseguidos por Maurício com o então diretor do Colégio, David Wanderson, que tirou o dinheiro do próprio bolso.

Análise, para começar os trabalhos

“Perguntei aos alunos quem poderia ajudar no restauro. A restauradora Judeth Costa, gerente do Ateliê, se comprometeu a dar um treinamento básico para eles. Cinco se ofereceram: Thacyo Ybson, Naomi Corrêa, Monnyse Beatriz, Ryan Ferreira e Marcela Mesquita”, informou.

Judeth, à esquerda; Maurício, à direita

No dia 11 de novembro, depois de mais de dois anos de idas e vindas, finalmente os quadros começaram a receber uma atenção mais especial, passando inicialmente por um processo de limpeza.

“A acetona utilizada na limpeza é tão especial, que precisa de autorização da Polícia Federal para ser comercializada e o papel de restauro não custa barato, mas o trabalho está em andamento”, revelou.

Todos têm salvação

Vasculhando papéis antigos, Maurício Grillo descobriu um documento onde constava que, em 1901, a Photographia Allemã teria entregue oito quadros para o então Gymnasio Amazonense.

A Photographia Allemã, primeiro estúdio de fotografia do Amazonas, foi fundada em 1899, pelo alemão George Huebner, inicialmente no Hotel Cassina, depois na av. Eduardo Ribeiro. Em 1944 o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial e os alemães passaram a ser perseguidos no país. Rapidamente a Photographia Allemã mudou de nome para Fotografia Artística, ainda assim foi depredada naquele ano e parte do acervo de Huebner, que havia morrido em 1935, foi destruído.

Judeth explicou que não há data de previsão para conclusão do restauro dos quadros.

“Parece um trabalho fácil, mas à medida que mexemos, aparecem outros problemas que precisam ser reparados, mas todos têm salvação e voltarão a ficar novos”, afirmou.

“Ter estes alunos ajudando é muito importante, pois os quadros, de certa forma, passarão a pertencê-los. Como eles os viram renascer, então serão mais pessoas a ter zelo por essas peças”, argumentou.

“Depois que o restauro for completado, todos os quadros serão digitalizados e nunca mais se perderão. Ainda que no futuro voltem a ser desprezados, as imagens já estarão nos arquivos de outros museus e de pessoas que amam preservar a história. Eles voltarão para o D. Pedro II numa grande exposição, que mostrará, através de fotos, como foi feito todo o trabalho de restauro”, concluiu Maurício Grillo.

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