Crise pode frear queda de juros

Os juros caíram em todas as linhas de operações de crédito pelo segundo mês consecutivo, em maio. O custo do dinheiro para pessoas físicas retrocedeu 0,70% e passou de 5,73% (abril) para 5,69% (maio) ao mês – o menor valor desde janeiro de 2014. Para as pessoas físicas, o corte foi de 1,29%, corrigindo o valor de 3,10% para 3,06% mensais – o patamar mais baixo desde maio de 2013. As respectivas taxas anuais ficaram em 94,27% e 43,58%.

Os dados estão na mais recente pesquisa mensal da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), divulgados neste mês. A entidade considera, no entanto, que o horizonte para os juros baixos está se fechando, em decorrência da deterioração do cenário econômico nacional pelos impactos da crise da covid-19. 

O diretor executivo de estudos e pesquisas da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira, atribuiu a rebaixa no custo do dinheiro, em boa parte, aos cortes da Selic em um cenário recessivo e deflacionário, além da redução dos depósitos compulsórios. Vale notar que o Banco Central promoveu novo corte nos juros básicos, na última quarta (17), levanto a taxa ao seu nível mais baixo até hoje: 2,25% ao ano. 

Considerando todas as elevações e reduções promovidas pelo Banco Central desde março de 2013, a Selic sofreu decréscimo de 5 pontos percentuais (ou 68,96% a menos), passando dos 7,25% de sete anos atrás para os 2,25% atuais. No mesmo período, a taxa média para pessoas físicas avançou 6,30 pontos percentuais (+7,16%), de 87,97% para 94,27% ao ano. No caso das pessoas jurídicas, os juros pontuaram estabilidade.

Outros fatores, como operações de crédito com juros baixos e aportes do governo para pagamento das folhas das empresas pequenas e médias, assim como a renegociação de dívidas com remunerações menores, ajudaram. Teria pesado também o cuidado dos bancos em não agravar ainda mais o quadro de inadimplência e solvência das empresas e pessoas físicas.

Risco de crédito

Na avaliação do diretor executivo de estudos e pesquisas da Anefac, a perspectiva é que haja um novo repique nas taxas das operações nos próximos meses. A avaliação é embasada na piora do cenário econômico brasileiro, com maior risco de crédito, além da elevação da inadimplência. Mas, prossegue Oliveira, as ações do Banco Central poderiam amenizar essas altas, com redução de impostos, compulsórios e Selic. 

Dados do Banco Central apontam que, no Amazonas, a taxa de inadimplência das pessoas físicas nas operações de crédito do SFN (Sistema Financeiro Nacional) subiu de 4,31% para 4,57%, na passagem de março para abril deste ano. Foi um valor igualmente mais elevado ao de 12 meses antes (3,68%). Para as pessoas jurídicas, o percentual ficou em 2,46% – contra os 2,18% de março de 2019 e os 2,28% de abril de 2020.  

O mesmo BC informa que o saldo de operações de crédito do SFN para as pessoas físicas do Amazonas declinou 1,24% entre março (R$ 18,202 bilhões) e abril (R$ 17,977 bilhões), embora tenha sido 13,45% mais alta a do que do mesmo mês de 2019 (R$ 15,754 bilhões). No caso do montante contabilizado pelas pessoas jurídicas (R$ 12,079 bilhões), houve incremento de 1,58% na variação mensal (R$ 11,891 bilhões) e de 18,69% na comparação anual (R$ 10,177 bilhões).  

Mais cortes

Mas ainda há um fator que pode adiar a tendência de reajuste dos juros bancários. A despeito das condições desfavoráveis resultantes da queda dos juros básicos nos investimentos de curto prazo – especulativos – e no câmbio, Miguel Oliveira considera também que ainda há uma pequena margem para o Banco Central reduzir o custo do dinheiro, por meio do Copom (Comitê de Política Monetária). 

“Há uma expectativa de que o BC faça um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião. E isso vai ser possível porque, de um lado a economia está desabando e vamos ter uma recessão forte este ano. Estamos terminando o segundo trimestre que deve apresentar uma queda de mais de 10%. Então, será necessário reativar a economia pelo corte nos juros. De outro lado, a inflação está baixa”, explicou.  

O dirigente avalia que o desemprego alto e a demanda reprimida, com o consumidor comprando “só o básico” justificam uma nova rebaixa, mas considera que o Banco Central deve ir apenas até esse patamar, que situaria a Selic em inéditos 2% anuais na próxima reunião do Copom, marcada para agosto. “Não será mais do que isso e para por aí. Naturalmente, se a inflação crescer nesse período, e o dólar subir muito, impactando preços, o BC não fará essa rebaixa. Mas a tendência ainda é que reduza”, encerrou. 

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