16 de janeiro de 2022
É cientista político e professor de política internacional do Diplô Manaus (curso preparatório para o CACD). E-mail: [email protected]
É cientista político e professor de política internacional do Diplô Manaus (curso preparatório para o CACD). E-mail: [email protected]

Breno Rodrigo

Esquerda e Direita, II

Os sentidos presentes dos termos “esquerda” e “direita”, em um amplo conjunto de práticas políticas e movimentos históricos, na compreensão concreta da fenomenologia do poder, mais ofuscam do que revelam. Vale dizer que estes dois termos são generalizações grosseiras, nada substantivas – mutáveis de acordo com a realidade histórica e institucional – e que pouco ou nada revelam objetivamente o que são para os interlocutores mais exigentes. Entre a denominação “esquerda” e “direita”, e a verdadeira tradição da política no Ocidente há um verdadeiro abismo. O que se desenvolveram no Ocidente, em outros termos, foram em essência quatro tradições políticas:

Esquerda e direita

Foram raros os momentos da história política do Brasil em que se presenciou um acirramento tão forte no debate entre esquerda e direita. Estas duas classificações políticas nasceram do dia seguinte a queda da Bastilha, na França, nos idos de 1789. Na grande Assembleia Nacional, jacobinos e girondinos rivalizavam projetos para o futuro da Revolução Francesa. À esquerda, os jacobinos defendiam o aprofundamento e a radicalização do processo revolucionário recém inaugurado. Já à esquerda, os girondinos e outros grupos minoritários defendiam a cautela e os princípios de ordem. A luta entre jacobinos (liberais radicais) e girondinos (conservadores), décadas depois, converteu-se

Dona Marietta e o Itamaraty

A segunda década do começo do século XX trouxe à tona transformações na ordem internacional e no Brasil. A Primeira Grande Guerra (1914-1918), nas palavras do historiador Eric Hobsbawn, foi o fenômeno que deu início ao século – o “curto século XX” –, pois apresentou ao mundo todo poder militar da guerra de segunda geração, o desmoronamento dos antigos regimes europeu e otomano (monarquias absolutas e pré-constitucionais) e o surgimento de nossas potências, como o Japão, os EUA e a Rússia (URSS). O fim da grande guerra entre as nações (a maior guerra até então) e o começo da nova

O povo contra maquiavel

A experiência democrática sempre foi um complicado paradoxo. Tal paradoxo está manifesto na turbulência entre a participação popular e a representação política, entre o demos (povo) e a polis (cidade, governo, administração da coletividade). Esse paradoxo, uma turbulência criativa, ajudou a produzir um mundo totalmente novo e institucionalmente virtuoso, aberto à contestação pública e ao dissenso entre as lideranças em competição. Tanto na Ágora ateniense quanto nas assembleias das nações democráticas modernas (a Índia é hoje a maior democracia eleitoral do mundo e conta com 815 milhões de eleitores), a vitalidade democrática significou exatamente o encontro entre os representados e

Chatô

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (1892-1968), paraibano, foi um importante jornalista, empreendedor e arquiteto dos meios de comunicação social modernos, fato que o tornou mundialmente conhecido como o “Império da Comunicação” no Brasil. Os Diários e Emissoras Associados aglutinaram mais de cem jornais, estações de rádio e de televisão, revistas semanais e diárias.  Filiado à União Democrática Nacional (UDN), que representava a oposição ao governo de Getulio Vargas, JK e João Goulart, Assis Chateaubriand pode participar mais ativamente na política parlamentar brasileira, tendo em vista a liberalização política a partir de 1945. Assis Chateaubriand envolveu-se na vida política

Paradoxos da dependência

Entre as décadas de 1960 e 1990, a teoria da dependência desenvolvida por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto desencadeou uma importante crítica à interpretação convencional dos choques adversos de Raúl Prebisch e Celso Furtado. Por muitos anos, as duas teorias estabeleceram um profundo debate acadêmico e político sobre o passado e o presente da América Latina na tentativa de se construir um projeto alternativo ao status quo da estagnação e do subdesenvolvimento na Região. A teoria da dependência é uma contribuição intelectual originalmente latino-americana. Foi forjada teórica e metodologicamente para identificar os problemas endógenos e as externalidades estruturais inseridas

Uma ideia de República

Em O Espírito das Leis, Barão de Montesquieu constrói um modelo político-institucional que revolucionou o modo de se pensar e de se fazer as instituições políticas no Ocidente: inaugurou o princípio – já em curso na Inglaterra – da separação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Para Montesquieu, os poderes seriam interdependentes e teriam como desígnio o exercício do controle mútuo. E mais ainda, a separação dos poderes seria a única forma de se evitar o absolutismo e a autocracia. Inspirados diretamente em O Espírito das Leis, James Madison e os Federalistas, os pais fundadores do modelo político-constitucional dos Estados

Política internacional nas urnas

A redemocratização brasileira, iniciada no começo da década de 1980 e concluída com a eleição do primeiro presidente pós-ditadura, Fernando Collor, envolto num jovial personalismo, resetou a legitimidade constitucional no dinamismo do processo eleitoral brasileiro. No espírito do que acontecia nos EUA, sobretudo nas eleições majoritárias para os governos estaduais e presidência da República, a técnica publicitária e o marketing eleitoral passam a dar as cartas na definição dos termos que deveriam ser debatidos na corrida eleitoral como um todo. Os marqueteiros – os novos intelectuais orgânicos da democracia brasileira – tornaram-se figuras únicas, os novos sacerdotes da comunicação de

Instituições políticas, ordem e prosperidade

São extensos e numerosos os casos de países, nações e potências que lenta ou abruptamente entram em colapso, em declínio institucional sistêmico e degenerativo. Esta falêcia generalizada pode ser perfeitamente observada nos estudos dos ciclos históricos. Egito, Grécia, Roma, Europa Medieval, China, Japão e tutti quanti, são exemplos perfeitos de mudança dos níveis civilizatórios. Na idade contemporânea, a começar pela Paz de Vestfália (1648), que inaugura a presença dos Estados nacionais como verdadeiros atores internacionais, os declínios se tornam mais raros graças ao mecanismo de equilíbrio de poderes que compensa as perdas domésticas por ganhos internacionais, e vice-versa. Todavia, esta

Estados Unidos, China e a armadilha de Tucídides

A escalada das tensões entre China e Taiwan na Ásia Oriental revela, outra vez mais, a natureza conflitiva da política internacional num cenário de reposicionamento das forças militares das potências regionais dentro da sua zona de controle estratégico. O longo conflito regional, cuja origem está na conclusão da Guerra Civil travada por nacionalista e comunista, conta com a ingerência de potências estrangeiras, sobretudo às ocidentais que, à época, espoliavam o território chinês no assim chamado Século da Humilhação. As hostilidades regionais e o grau de interferência ocidental na região deram alguns contornos especiais ao conflito entre o continente e a

Uma estratégia à francesa

O saber convencional da análise política, por muitas décadas, negligenciou intencionalmente ou não o papel dos militares na definição dos rumos da política nacional. Os otimistas viam a consolidação da democracia como uma evidência em si, que submetida ao teste do tempo e referendada pela qualidade das instituições, seguiria o seu curso normal de institucionalização. Os pessimistas, por sua vez, nunca viram tal euforia com bons olhos e sempre disseram, com certa razão, que as nossas instituições democráticas, para além das suas fragilidades endógenas, não funcionam satisfatoriamente. Não é tarefa fácil definirmos categórica e definitivamente a atmosfera política brasileira. Mesmo

Orbi et Urbi

O julgamento do discurso de Bolsonaro na Abertura da Assembleia Geral da ONU já estava sacramentado antes mesmo de o presidente abrir a boca para verbalizá-lo. Para os bolsonaristas, o discurso do presidente foi fantástico, digno de um estadista, pois apresentou ao mundo as suas realizações governamentais. Para os antibolsonaristas, o presidente repetiu os seus impropérios, todo seu negacionismo e rebaixou o Brasil no cenário internacional. O presidente poderia fazer o maior discurso da história ou apenas falar sandices – tanto faz. Independente de tudo, os seus aliados e seus adversários iriam julgá-lo de acordo com as suas conveniências políticas,