22 de abril de 2021

Um ‘Eldorado’ ainda informal

A despeito de contar com os bairros de ocupação mais recente, o perfil econômico das zonas Leste e Norte de Manaus é variado e confirma que se tratam das áreas da cidade que mais vêm crescendo nos últimos anos. Embora os bairros já contem com um número significativo de filiais de lojas de grande porte, o típico estabelecimento da região é de pequeno porte, sendo que muitos ainda não conseguiram o CNPJ. De acordo com o Sebrae-AM, contudo, a situação vem progredindo.

A avenida Grande Circular é o termômetro da zona Leste, concentrando os principais comércios da região, como shoppings, bancos, feiras, empreendimentos de todos os gêneros e gostos, com intenso público diário, inclusive nos feriados. Assim como estabelecimentos formais –com lojas físicas ou não –a área também registra muita informalidade. No entanto, já apresenta um dado considerável de empresas, MEIs, (Microempreendedores Individuais) e micros e pequenas empresas, como informa o Sebrae.

“Entre os números de formais fornecidos, a zona Leste conta com 13.323 microempreendedores individuais, 4.617 micro empresas, e 967 pequenas empresas”, informa a analista técnica da Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae, Amanda Dias. A unidade dá apoio aos empreendedores com cursos, suportes e eventos de capacitação. 

O presidente da CDL-Manaus, Ralph Assayag, lista os fatores por trás do crescimento comercial da região. “O comércio da zona Leste é bastante crescente porque é o único lugar que dá pra crescer, pelo número de pessoas que moram lá, o comércio acaba indo para onde tem um mercado muito grande para venda”, explicou. 

O dirigente ainda lembra que muitos dos atuais grandes estabelecimentos começaram com lojas pequenas e familiares, que acabaram expandindo, “Agora, as lojas automaticamente vão crescendo e comprando pontos de outras pessoas e, com um maior número de filiais, podem absorver estas áreas”, pontuou. 

Entretanto, Ralph Assayag afirma que o cuidado devido à pandemia do novo coronavírus acendeu um alerta para os negócios. “Muita coisa está mudando. As mudanças vão ser muito radicais e coisas que iriam mudar em seis anos estão mudando em meses”, alertou. E ressalta que a economia vem mudando a cada semana. “As três gerações que temos hoje vão ter este impacto. Cada uma vai pensar de uma maneira diferente e não sabemos ainda o que pode acontecer mais na frente ou no ano que vem”, garantiu.

Clientes e sócios

Na zona Norte, o panorama não é muito diferente. O médico Noel Nutels, ucraniano judeu que veio ao Brasil e foi um dos precursores da defesa dos povos indígenas, dá nome à sua maior avenida, situada no bairro Cidade Nova. Passagem para vários bairros, a via concentra muitos empreendimentos comerciais, oficinas, cursos, salões de beleza, grandes supermercados, restaurantes, empreendimentos imobiliários –e negócios informais.

Segundo Amanda Dias, a zona Norte de Manaus tem formalizados 21.224 empreendedores individuais, que já alcançaram crescimento de 31,13% em relação ao ano passado. Conta ainda com 6.191 microempresas (+7.09%) e 1.242 pequenas empresas (+8,47%), que também tiveram altas.

Zona norte já conta com 21.224 MEIs, 6.191 microempresas, 1.242 pequenas empresas, de acordo com o Sebrae-AM

São dados que demonstram o potencial da zona Norte para negócios, porém o consultor para negócios Flávio Guimarães alerta que tudo pode ser muito relativo. “Você já ouviu alguém dizer que quer ter o negócio para ser o seu próprio patrão? Na prática, não é bem assim. Quando se tem um empreendimento, se atende mais um chefe: os clientes. Já imaginou iniciar um negócio e ter dez clientes? São 10 chefes diferentes, cada um com uma característica, comportamento, exigência e formas de pensar. Se for indústria, muitas pessoas vão lhe cobrar. Se for comércio, também. Se for serviço, da mesma forma. Essa é a realidade do tão falado sonho de empreender”, argumentou.

Encurtando o caminho da faculdade

Casado e pai de três filhos, Tirson Benarrós cresceu na Cidade Nova e empreendeu no bairro, criando o Alpha, há 20 anos. A ideia surgiu quando ele viu a necessidade de um curso pré-vestibular, por experiência própria. “No terceiro ano, eu estudava de manhã, voltava em casa, almoçava e ia para o cursinho, no Centro. Era estressante e pensei que bem que poderia ter um cursinho na Cidade Nova”, explicou.

Com a ideia em mente, assim que se formou e casou, o empreendedor decidiu, juntamente com a esposa, que iria vender um carro para montar o Alpha. Um consultor chegou a orientar que o empreendimento fosse localizado no Centro e não no bairro. “Não levei a sério, porque conhecia muito a realidade de quem morava aqui”, reforçou. 

Benarrós lembra até o slogan do Alpha, em seus primeiros anos: “Por que ir ao Centro? A Cidade Nova tem pré-vestibular, reverta o tempo de congestionamento em horário de estudo”. Hoje, a empresa é referência em aprovação de alunos no vestibular, principalmente para os jovens do bairro.

‘Bolachões’ para todos os gostos

Os famosos vinis estão de volta –se é que saíram de moda. Exemplo de nicho vintage que vem retomando espaço junto a um tipo de consumidor que não se atrai tanto pela oferta online de música, os bolachões também encontram espaço na zona Leste. Mais exatamente no bairro São José 1, na rua engenheiro Vilar. O Museu do Disco é de propriedade de Valdir Braga, 66, e tem 20 anos de operação. 

Colecionador de vinis desde criança, ele começou o negócio ajudando um amigo, que tinha uma loja de discos e ofereceu 10% nas vendas que ele fizesse. “Trabalhei com ele um ano e, depois, decidi montar minha loja. Recebi dele R$ 1.000 para comprar CDs e vinis, e ainda metade do que tinha na loja. O Rui me ajudou muito”, lembrou.

Braga ressalta que os consumidores ainda procuram muito os velhos LPs, pelo fato de praticamente ter acabado a venda de CDs, que também vêm perdendo espaço em nome da nostalgia e da modernidade. “Vendo até 30 vinis por dia e não vendo um CD”. 

No acervo do Museu do Disco há LPs de rock, brega, pagode, música clássica, mas os clientes ainda conseguem surpreender ‘seu Valdir’. “Um dia, veio um rapaz de 13 anos que comprou três vinis de ópera. Em outro, veio comprar mais. Perguntei se era para o pai dele, mas ele disse que não, que era para ele mesmo”, destacou. 

Reportagem de Sandro Abecassis

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