Tombini sinaliza com nova alta

Do discurso do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, na reunião anual do BID, ficou a percepção de que ele reiterou o conteúdo um pouco mais duro do RTI (Relatório Trimestral de Inflação) de março, que trouxe um aumento relevante para as projeções do BC para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) para 2014 e 2015. Para vários economistas, o dirigente não fez nenhum reparo à interpretação da maioria dos analistas de mercado que viram no documento um tom preocupado e passaram a prever que o BC elevará os juros também em maio para conter a inflação.
Num trabalho detalhado do AE-Projeções, que ouviu 70 economistas, 44 deles esperam alta de juros em maio, enquanto 26 acreditam que o ciclo de aperto monetário iniciado em abril de 2013 será encerrado nesta quarta-feira. Boa parte das novas apostas de um movimento mais prolongado de elevação da Selic surgiu a partir do relatório de inflação de março. No documento, o BC elevou sua projeção para o IPCA no cenário de referência, de 5,6% para 6,1% em 2014 e de 5,4% para 5,5% no ano que vem.
Segundo especialistas, contudo, o pronunciamento de Tombini teve o cuidado de dar poucas pistas sobre os próximos movimentos do Copom. “A autoridade monetária ficará dependente de dados. Como faltam quase dois meses para a última reunião do semestre, o BC prefere manifestar uma posição ambígua, pois não é possível prever como vai ser o comportamento da inflação até aquela data”, comentou Alberto Ramos, diretor de pesquisas para a América Latina da Goldman Sachs.
O discurso de Tombini não destacou temas como inflação e nível de atividade, muito possivelmente porque foi feito em pleno período de silêncio do BC, dado que a reunião de abril do Copom começará hoje, destacou Carlos Kawall, economista-chefe do banco J.Safra e ex-Secretário do Tesouro. Para ele, prevalece o conteúdo do relatório de inflação divulgado na última quinta-feira, a partir do qual muitos especialistas fizeram suas avaliações sobre como ficará a trajetória da política monetária nos próximos meses. Ele especialmente acredita que o Banco Central estenderá o movimento de elevação da Selic até julho, quando atingirá 11,50%, e depois adotará mais duas altas de 0,25 ponto porcentual em outubro e dezembro, o que levaria a taxa nominal para 12% ao final deste ano.
Além disso, o Banco Central prevê que o IPCA só ficará abaixo de 6% no segundo trimestre de 2015, quando deve atingir 5,8%. E isso mesmo dentro de uma conjuntura de modesta expansão da economia, pois a instituição oficial reduziu sua previsão de avanço do PIB para este ano de 2,3% para 2%.

Inflação resistente
A piora dos índices de inflação, que já incorporam choque de alimentos motivado pela seca de verão, vem colocando dificuldades constantes para o BC encerrar o ciclo de alta dos juros, intenção que o BC já teria desde janeiro, afirmou José Márcio Camargo, professor da PUC-RJ e economista-chefe da Opus Gestão de Recursos. “O Copom reduziu o ritmo de elevações da Selic em fevereiro, com a expectativa de que poderia terminar esse movimento de aperto monetário em abril, tanto que a comunicação do BC passou a destacar que os efeitos da política monetária sobre o nível de atividade e preços ocorre com defasagens e são cumulativos”, disse. “Mas a inflação está resistente acima do esperado e há sinais fortes de que o Copom precisará elevar a taxa em mais 0,25 ponto porcentual em maio”, completou Camargo.
No RTI divulgado na última quinta-feira dois fatores adicionais chamaram a atenção do mercado. Um deles é que o Banco Central alertou que os preços administrados “encontram-se desalinhados, em patamares baixos”, o que inclusive o motivou a alterar sua previsão de alta deste indicador de 4,5% para 5%, tanto para 2014 como para 2015. A instituição federal elevou inclusive sua projeção de alta de eletricidade para este ano, de 7,5% para 9,5%.
Um outro elemento relevante foi o pequeno destaque que o BC deu para a recente apreciação do câmbio, inclusive sem enfatizar o forte ingresso de capitais externos que ocorrem no país desde fevereiro, boa parte deles motivada por investidores que realizam arbitragem com as atrativas taxas de juros reais, que alcançaram hoje 4,93% ao ano, pelo critério ex-ante. “

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