Robério Santos fala sobre as histórias do sertão

No dia 2 de agosto começam as comemorações da Semana da Cultura Nordestina. Nesta data, em 1989, morreu Luiz Gonzaga, cantor e compositor pernambucano que através da beleza de suas músicas mostrou a situação de seca, miséria e pobreza do povo do sertão dos estados do Nordeste.

Manaus, o Amazonas e a Amazônia também devem muito a esse povo. O Norte recebeu duas grandes levas de nordestinos fugidos da fome, nos dois ciclos da borracha (1890/1910 e 1942).

Arthur Reis escreveu que, em 1879, chegaram a Manaus mais de seis mil retirantes cearenses, já Samuel Benchimol lembrou que, em 1942, vieram para o Acre e o Amazonas mais de 60 mil nordestinos, como Soldados da Borracha. Depois que estes dois ciclos acabaram, muitas destas pessoas resolveram voltar para sua terra natal, porém, outras aqui ficaram enriquecendo nossa cultura na culinária, na música, na literatura e no artesanato.

O vatapá, o baião de dois, a carne de sol, o queijo coalho, o cuscuz, foram trazidos por eles, bem como as cirandas, as quadrilhas, os bumbás, o forró, os cangaços. Falando em cangaço, o Jornal do Commercio foi ouvir o fotógrafo, professor, jornalista, cineasta, escritor e membro da Academia Itabaianense de Letras, o sergipano Robério Santos, um dos maiores conhecedores da história do cangaço, que mantém o canal ‘O Cangaço na Literatura’, no YouTube, no qual visita lugares e conta histórias e fatos sobre os cangaceiros que passaram pelo Nordeste, além de mostrar como vive atualmente o povo do sertão.

“Eu, realmente, vou em busca das histórias nos lugares de seus acontecimentos e lendo os autores que mais se aproximaram do fato. O canal é meu refúgio, nele compartilho o que consigo encontrar”, disse Robério.

A fome

É certo que os cangaceiros, com suas roupas de gente do sertão, acrescidas de indumentárias, bornais, chapéus com abas quebradas, e armas, forjaram a imagem do nordestino típico. Mas eles eram bandidos, e muito maus. Por que, então, são mais admirados que os próprios policiais, as volantes, que os perseguiam?

“Geralmente quem encara cangaceiro como herói ou bandido pouco conhece sobre o assunto. Nossa sociedade está cada vez mais anacrônica quando se analisa um tema tão rico quanto este. O maior vilão do Nordeste não foi o cangaceiro, foi a fome. O povo não abomina o cangaceiro, mas seus crimes e para cometer crimes não precisava ser bandido, mas apenas ter coragem, necessidade e oportunidade. Nada mudou”, falou.

as armas dos cangaceiros, utilizadas em inúmeras mortes

José Gomes, o Cabeleira, é considerado o primeiro cangaceiro. À frente de um bando com uns 30 membros, cometia todo tipo de atrocidades. Foi enforcado em 1849. O último foi Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco, morto quase cem anos depois, em 1940. 80 anos depois da morte deste, as histórias do cangaço continuam ainda muito vivas, aparecendo em filmes, e principalmente em livros, como os mostrados por Robério em cada vídeo publicado no ‘O Cangaço na Literatura’.

“Sempre penso no cangaço como um evento, algo que aconteceu porque tinha que acontecer. Agregado a ele temos uma vasta literatura, artesanato, filmes, músicas, eventos, debates, muitas vozes sendo ouvidas. Não só um lado deve ser ouvido, mas todos. Por isso o caleidoscópio do cangaço cada vez mais fica atraente”, completou.

O canal de Robério, no YouTube, já passa dos 150 mil seguidores. Lá ele aproveita para mostrar seu lado cineasta em vídeos semanais com 15 minutos a até mais de uma hora de duração, visitando cidades e locais por onde os cangaceiros passaram, nasceram ou morreram, entrevistando centenárias pessoas que os conheceram, parentes e indo a cemitérios onde estão enterrados. O espaço, no qual Robério divulga livros de outros autores, é uma vitrine para os seus 15 livros publicados. Estão ‘rodando’ mais três títulos.

Mais de 500

“Especificamente sobre o cangaço tenho: Joãozinho Retratista (2011); Lampião e Volta Seca em Itabaiana (2013); O cangaço em Itabaiana Grande (2015); Volta Seca (2017); Zé Baiano (2019) e Marca (2020)”, adiantou.

Em 1937, com a instauração do Estado Novo, Getúlio Vargas ordenou que os governadores do Nordeste aniquilassem Lampião. Após a morte deste, no ano seguinte, o presidente prometeu anistia para os cangaceiros restantes, que se entregassem.

“Nenhum cangaceiro voltou ao crime, isso comprova que nem de todo mal eles eram. Valia muito o sistema e a forma empregada para se entrar no cangaço. Muitas vezes como forma de blindagem contra crimes anteriores que já haviam cometido, ou problemas políticos, ou de família. Era matar ou morrer”, explicou.

Entre 1917 e 1938, Lampião esteve em sete estados do Nordeste (menos Maranhão e Piauí). Nos últimos dez anos de vida atuou mais às margens do rio São Francisco.

“Calculo que mais de 500 cangaceiros dos bandos de Lampião morreram em combates com a polícia. Luiz Pedro foi o mais longevo junto com o Rei do Cangaço, acompanhando Lampião por 13 anos e morrendo junto com ele, em Angicos”, lembrou.

“A maior descoberta do canal, sem dúvidas, foi a do paradeiro do cangaceiro Bem-Te-Vi. Nunca esquecerei tudo aquilo. Vejam os vídeos. Já a história do cangaceiro Zé Baiano é ainda um mistério. Sou biógrafo dele atualmente”, concluiu.

Em Manaus a Arnam (Associação Recreativa dos Nordestinos no Amazonas) é o local de encontro dos nordestinos que moram na capital amazonense. Os associados trabalham para construir na cidade um memorial em homenagem ao Nordeste e organizam festas e eventos para relembrar de sua terra.

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