23 de maio de 2022

Moradores apontam o que precisa melhorar na zona Leste de Manaus

A zona Leste tem um capítulo especial no histórico de ocupação desordenada de Manaus, principalmente a partir da Zona Franca. Mas, de lá para cá, é inegável o avanço da urbanização e a chegada dos serviços públicos, ainda que de forma gradual e lenta. Isso fez com que o asfalto e a melhor distribuição dos modais de transporte perdessem espaço no topo das demandas, mesmo com pendências persistentes. O direito mais reivindicado pelos moradores da região é a segurança, dado o medo de assaltos e os testemunhos de criminosos armados em determinadas regiões.

De acordo com o levantamento mais recente do IBGE, em 2019, a população da ZL foi estimada em 542.593 habitantes, a segunda zona mais povoada da cidade. E para atender essa demanda são oito DIPs (Distritos Integrados de Polícia); 36 unidades de saúde, de UBSs a hospitais; 178 escolas públicas, de creches a EJA (Educação de Jovens e Adultos); e duas empresas do transporte coletivo, com frotas operantes de 439 ônibus. As informações constam nos sites das secretarias das respectivas pastas. Ainda tem os 258 amarelinhos, como são conhecidos os tradicionais micro-ônibus alternativos, além de uma parcela considerável dos 3.300 mototáxis regulares na cidade.

Se por um lado o transporte ganhou dinamismo com os serviços de aplicativo, por outro a sensação de insegurança se mantém como alvo histórico de críticas da população. Geralmente, esse temor envolve pontos e terminais de ônibus. Em áreas tidas como mais críticas, motoristas rejeitam chamados pelos apps. Atividades e deslocamentos são cancelados diante de burburinhos nas redes sociais com ameaças em ruas específicas e a rua é evitada na ausência de companhia. Andar sozinho, em determinadas circunstâncias, requer coragem.

Alternativa de mudança de cenário em longo prazo, a educação se faz presente de um modo geral, mas a carência por mais escolas de tempo integral segue desafiando mães solteiras, que interrompem o desenvolvimento profissional e pessoal para cuidar dos filhos em casa. Quando as vagas das unidades de ensino mais próximas são encerradas, o custo do transporte é um empecilho a mais para a frequência regular de alunos que moram distantes.

Entre as ações do poder público e os trabalhos complementares do terceiro setor, há uma margem considerável de cidadãos desassistidos. Talvez menos que em tempos anteriores, porém com as pessoas cada vez mais cientes e atentas aos seus direitos.

SEGURANÇA

Avenida Cosme Ferreira. Comércio intenso entre dois bairros – Foto: Divulgação

A avenida Cosme Ferreira divide os bairros São José Operário e Zumbi dos Palmares, onde mora o barbeiro Lucas Castro, 23. Todos os dias ele se desloca de um local ao outro para trabalhar numa barbearia a pouquíssimos metros do 9º DIP. Ali, ele se sente mais seguro. O problema fica na hora de se locomover pelo Zumbi. “Lá, os aplicativos encerram as chamadas quando a gente pede”, informou. “É muito perigoso”.

Quem percorre uma distância maior para chegar ao trabalho é Washington Cardenis, 60. Funcionário de produção de cerveja, ele sai do mesmo Zumbi rumo à empresa, na avenida Constantino Nery, zona Centro-Sul. Para ele, o problema está no trajeto. “Tem assalto dentro dos ônibus e nos terminais. Principalmente aqui no T4, porque nesse horário (por volta de 19h) é perigoso”, alertou Cardenis, que há dois meses teve o celular furtado no Terminal 5, no São José.

Washington Cardenis: “Se ficar só duas pessoas, os ladrões vêm e assaltam” – Foto: Divulgação

A SSP (Secretaria de Segurança Pública do Estado) não disponibiliza dados por zona, mas os 27.704 roubos registrados em Manaus entre janeiro e setembro deste ano, de acordo com dados do Departamento de Inteligência da pasta, refletem um aumento de 6% em relação ao mesmo período em 2020. Já os 23.506 furtos contabilizados nos nove primeiros meses deste ano apontam queda de 4% na mesma comparação.

Em junho, um episódio de ataques a patrimônios públicos atribuídos à facção criminosa Comando Vermelho assustou moradores de pelo menos 11 bairros, três deles da zona Leste (São José, Jorge Teixeira, Armando Mendes), com queima de veículos e anúncio de toque de recolher. Na época, a Polícia Militar deflagrou a operação “Pacificador” em seis bairros da região, com o objetivo de inibir os ataques criminosos.

TRANSPORTE

Um episódio marcante ocorrido no São José, em meados de 1988, definiu o sentimento dos moradores da zona Leste em relação ao transporte público na época. Revoltados com a precariedade dos veículos e a baixa qualidade do serviço, uma multidão se reuniu para tomar sete ônibus, atirá-los numa ribanceira e incendiá-los. Com certeza dá para dizer que as coisas melhoraram. No bairro Coroado, tem até quem esteja totalmente satisfeito. 

“O transporte aqui é 100%, para mim”. A avaliação é do autônomo Cristóvão Duarte, 60, morador do Conjunto Ouro Verde. “Todo tempo tem ônibus. Em outros bairros não é assim, que o cara fica uma hora, meia hora esperando. Aí o cara passa e leva teu celular”, explicou. Onde mora Cristóvão é atendido pelas linhas 517, 540, 541 e 542. Ele diz que a oferta dá condições de se locomover sem stress por quase toda a cidade.

Já o auxiliar de estoque João Garcia, 31, tem até uma frase para definir o modal mais popular da região, os amarelinhos. “Ruim com eles, pior sem eles”, observou. A frase de João se explica pelo fato desses ônibus alternativos ganharem fama de imprudência no trânsito. Por outro lado, é uma opção muito procurada pelos moradores e complementar às linhas convencionais.

João Garcia: “Sobre os alternativos: ruim com eles, pior sem eles” – Foto: Divulgação

Até mesmo o vendedor de trufas Antoniel Cavalcante, 35, que é deficiente físico e se locomove de cadeira de rodas, vê uma rede mais inclusiva, ainda que a estrutura não esteja em todos os lugares. “Na cidade as plataformas são uma bênção, mas na periferia tem que subir e não funcionam os elevadores”, contou Antoniel, que se desloca da Cidade de Deus para a área de influência do Terminal 5, onde trabalha.

Antoniel Cavalcante: “A zona Leste é uma área bastante deficiente para receber a gente que é deficiente” – Foto: Divulgação

EDUCAÇÃO

Aulas online, modelo híbrido… Termos novos, adotados em consequência das medidas preventivas à Covid-19. O retorno do ensino 100% presencial foi anunciado em agosto, mas são os velhos problemas que afetam diretamente a educação na zona Leste. A dificuldade em conseguir matrícula em escolas próximas de casa é o que mais afeta a população mais pobre. Desestimulados e sem dinheiro para locomoção, alguns alunos evadem. E só 40% dos contatados na região pelo programa Busca Ativa retornam à sala de aula, de acordo com a Coordenadoria Distrital de Educação 5.

Um exemplo emblemático está no Colônia Antônio Aleixo, observado pela assistente social Sheila Dantas, 43. “Como a gente está num bairro muito distante dos outros, acaba que os jovens em situação de vulnerabilidade, quando não conseguem vaga, precisam ir para fora, e muitos deles não vão. Desistem de estudar porque não têm como pagar o transporte”, disse.

Além dos estudos, o alimento. A ativista Florismar Ferreira, 58, moradora do Gilberto Mestrinho, ressaltou o papel da escola enquanto oportunidade para driblar a fome. “É uma forma das crianças se alimentarem. Isso levando em conta que muitas vezes o lanche é um biscoito com suco”, criticou.

Na região, seis creches, 24 escolas de educação infantil, 111 de ensino fundamental e uma EJA estão distribuídas pela rede municipal. Pelo Estado, são 34 escolas, entre elas três de tempo integral.

SAÚDE

Quando uma campanha de vacinação envolve toda a população acima de 12 anos, fica mais fácil reconhecer a importância do SUS (Sistema Único de Saúde). A imunização contra a Covid-19 aproximou a rede pública de toda a população, que aos poucos retoma antigas demandas por um atendimento mais abrangente e universal. 

Esse feito fez com que a autônoma Tatiane Freitas, 31, moradora do São José 3, só tivesse elogios a um dos direitos mais elementares da população. “Em termos de saúde, está sendo bom. As vacinas estão sendo distribuídas, muitas pessoas já tomaram, muitas pessoas estão tomando. Estamos bem protegidos e bem atendidos”, considerou.

Tatiane Freitas: “ As vacinas estão sendo distribuídas, muitas pessoas já tomaram” – Foto: Divulgação

Em ano de perdas e esperança em meio a pandemia, a zona Leste contou com quatro hospitais, 17 Unidades de Saúde da Família, três UBSs, três Centros de Atenção Integrada à Criança (CAICs), duas policlínicas, um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Capsi), um Pronto-Socorro, uma Maternidade e um Serviço de Pronto Atendimento (SPA).

Com estrutura e políticas públicas, o maior passo se torna a cobrança pelo pleno funcionamento do sistema de saúde. Coordenadora do Movimento de Reintegração de Pessoas Afligidas pela Hanseníase, no bairro Colônia Antônio Aleixo, Kátia Regina usa o exemplo da hanseníase no que vale para todas as comorbidades. “Não basta ter um profissional, mas a prática. Uma rede. Falta um programa que vise as escolas. Os programas acabam e a doença permanece”, defendeu.

Foto/Destaque: Divulgação
Reportagem de Bruno Tadeu

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