27 de maio de 2022

Rede de apoio reergue moradores da zona Leste de Manaus

Quanto custa acreditar? Na teoria, nenhum centavo. Na prática, ter o destino nas próprias mãos depende, principalmente, de dignidade, autoestima e caráter. Numa região ainda tão marcada pela carência de oportunidades e mazelas sociais, pequenas, porém rígidas pontes levam esse tripé construtor de sonhos onde eles valem mais que qualquer fortuna. São projetos sociais na zona Leste de Manaus que nasceram do olhar às demandas locais, das crianças que deixam a Colônia Antônio Aleixo para pedir esmola nos semáforos de toda Manaus, passando pelas meninas do São José Operário desamparadas e ameaçadas em casa pela ausência dos pais, até os comunitários do Mauzinho que sofrem com a fome e a falta de aparelhos públicos do Estado.

Outro obstáculo comum entre a realidade e a esperança de jovens naquela região são os crimes relacionados ao abuso sexual, percalços nas vidas dos estudantes Jhoseph Duarte, 19, e Marciele Sena, 18. Com ele, aconteceu mais especificamente aos 15 anos. Com ela, aos 12. Ambos em situação de crise familiar, alvos de disputa judicial entre os pais pela guarda, no caso de Jhoseph, e trabalho infantil para ajudar o pai desempregado e a mãe com depressão, necessidade da Marciele. Unidos pela dor, eles se (re)encontraram no PGG (Projeto Gente Grande), que oferece cursos voltados à empregabilidade e desenvolvimento pessoal de adolescentes, no bairro Colônia Antônio Aleixo.

Jhoseph mora lá, e chegou ao projeto por interesse próprio, depois de notar a circulação de jovens com o uniforme e a pasta característicos da iniciativa. Começou os ciclos de desenvolvimento do projeto como um estudante de Ensino Médio traumatizado e extremamente tímido. Oito meses depois, encerrou o curso como aprendiz de produção em uma empresa do Distrito Industrial e passou a ser reconhecido em concursos de debate entre universidades e escolas, sob avaliação de juízes e advogados. Hoje, ele está focado em passar no vestibular para o curso de direito da Ufam, onde sonha em estudar para se tornar juiz do Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região. 

“Eu vi que podia mais. Eu tinha mais do que as pessoas do bairro tinham falado que eu ia fazer. Aqui, dizem que as meninas crescem para ser donas de casa e os meninos para ser mototaxista. Eu não sonhava nem em fazer faculdade. Hoje, é o que eu quero”, revelou Jhoseph.

Nessas atuações o Gente Grande exerce o complexo propósito de combater o trabalho infantil. E não é por acaso que ele tem sede na Colônia Antônia Aleixo. Uma pesquisa feita em 2016 pela Associação O Pequeno Nazareno, origem do PGG, constatou que aproximadamente 60% das crianças que pedem esmolas, vendem e fazem malabarismos nos semáforos da cidade moram no bairro do extremo leste. Com o objetivo de acolher esses adolescentes entre 14 e 18 anos, o Gente Grande deu início às atividades em 2017. Até hoje, quase 700 jovens foram atendidos pelo curso.

Um deles foi Marciele, que entre 12 e 15 anos ia às ruas vender pipoca e banana com leite condensado em comércios e praças da zona Leste para ajudar na renda da família. Aos 15, passou a ser chamada de “mãe” pelas duas filhas da irmã mais velha, de quem passou a cuidar em casa. “Com 13 anos eu já estava com uma responsabilidade que não era pra mim”. Numa última venda na rua, em frente ao Shopping Grande Circular, foi convidada por uma agente de abordagem social a conhecer o PGG. 

Com os pais nas ruas em busca de renda e os filhos meninos como suporte, resta às meninas a reclusão em casa com as tarefas do lar, condição propícia às mais diversas formas de violência. Há décadas esse cenário não é incomum no bairro São José Operário, onde a ONG da Rede Salesiana Casa Mamãe Margarida foi fundada em 2 de abril de 1986 justamente com o objetivo de acolher crianças e adolescentes vítimas da violência sexual, maus tratos ou vulnerabilidade social. 

Foi assim que Marcela Moraes, hoje com 35 anos, chegou à casa aos 7. Após a mãe sair de casa e o pai passar muito tempo fora, uma vizinha indicou o local, onde ela foi acolhida, manteve-se na escola, praticou esportes e ganhou uma bolsa, aos 15, para estudar no Ensino Médio pelo Centro Educacional Santa Teresinha. Em seguida, cursou dança na UEA e depois se formou como fisioterapeuta. A transformação proporcionada pelo projeto fez das colegas e funcionárias uma família, e Marcela passou de aluna para colaboradora.

Nessa família, a diretora Irmã Liliana Maria Lindoso é chamada de mãe. E não só por Marcela. O trabalho de Liliana no bairro transcende o propósito de acolhimento de crianças e adolescentes. “Nós sempre fomos uma fonte de grande ajuda pro bairro. No início, não tinha água e só nós perfuramos o poço. Toda a comunidade vinha pegar água aqui, por muitos anos. Quando teve os alagamentos, que as pontes estouraram, abri a casa para ficarem aqui a noite toda. Eles sempre sabem que podem contar com a gente”, disse.

Marcela também sabe. Tanto que, hoje, casada e com três filhas, escolheu a Casa Mamãe Margarida como local de resguardo após o nascimento das últimas duas, gêmeas. “Aqui é mais a minha casa do que a minha casa”, explica. “Quem me criou foram as educadoras, que sempre se fizeram presentes. A gente sempre teve a sensação de que o pátio da casa é transformador. É lá que a gente brinca, conversa, tem a nossa experiência com as meninas”.

Foto/Destaque: Divulgação
Reportagem de Bruno Tadeu

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