6 de dezembro de 2021

Livro cataloga espécies de abelhas da Terra Yanomami

As abelhas estão sumindo no mundo devido ao uso exponencial de pesticidas, mudanças climáticas e um parasita que mata abelhas jovens e adultas. O fenômeno começou a ser notado a partir de 2006, nos Estados Unidos, e se alastrou para o mundo. Por isso é maior ainda a importância do livro ‘Puu naki thëã oni: o conhecimento yanomami sobre as abelhas’, lançado pelo ISA (Instituto SocioAmbiental).

Abelhas correm sério risco de extinção no planeta – Foto: Divulgação

No livro estão registradas e catalogadas 32 espécies de abelhas nativas da Terra Yanomami. O trabalho foi produzido por jovens pesquisadores indígenas orientados pelos mais velhos da aldeia, conhecedores da natureza. ‘Puu naki thëã oni’ foi organizado pelo antropólogo Bruce Albert e pelo geógrafo Estevão Senra.

“A pesquisa começou a partir de uma lista de nomes de abelhas organizada pelo Bruce, depois de uma conversa com um velho conhecedor desses insetos. Não se trata de um catálogo de todas as abelhas da Terra Yanomami, pois o território é muito grande. O livro se refere apenas às abelhas da região do Toototobi, localizada no Amazonas”, explicou Estevão.

Estevão Senra, “não é um catálogo com todas as abelhas da Terra Yanomami, pois o território é muito grande” – Foto: Divulgação

O trabalho realizado por Bruce conseguiu reunir 32 nomenclaturas de abelhas sociais, que reúnem espécies dos gêneros Melipona, Partamona, Trigona, Scaptotrigona, Tetragona, incluindo também a espécie exótica Apis mellifera. Para cada uma das nomenclaturas estão descritas a sua aparência, comportamento, característica do mel, local de nidificação, aspectos do ninho e flores preferenciais.

“O conhecimento tradicional dos yanomami sobre as abelhas transcende sua importância local e contribui também para a valorização desses animais, ameaçados de extinção globalmente”, escreve na contracapa do livro o ecólogo Jerônimo Kahn Villas-Bôas.

O aviso de Einstein

Todas as abelhas apresentadas no livro produzem mel, um alimento tradicional entre os yanomami. Eles consideram como ‘puu naki’ (abelhas) apenas os insetos que produzem mel.

“Algumas espécies, chamadas de abelhas pelos cientistas ‘brancos’, e que não produzem mel, são chamadas pelos yanomami de ‘kopena’, algo que traduzimos como vespa ou marimbondo”, disse Estevão.

“Responsáveis pela polinização de mais de 80% das espécies silvestres e cultivadas, as abelhas viabilizam ao menos um terço da alimentação humana. Mas estão desaparecendo pelas mãos da própria agricultura, baseada em monoculturas extensivas e no uso indiscriminado de agrotóxicos”, alertou Villas-Bôas.

Villas-Bôas, “as abelhas viabilizam ao menos um terço da alimentação humana”

“Ouvir o que as sociedades indígenas já observaram e processaram, é avançar no entendimento de um sistema diverso e resiliente, possivelmente o único capaz de evitar um colapso”, completou.

O próprio Einstein sabia da importância das abelhas e falou sobre sua existência: “se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais não haverá raça humana”, previu o gênio da física.

As pesquisas para a produção de ‘Puu naki thëã oni’ foram lideradas pela HAY (Hutukara Associação Yanomami), com assessoria técnica do ISA, e se concentraram na aldeia Piau. Aconteceram entre abril de 2016 e março de 2018, divididas em quatro etapas. Os anciãos listaram os nomes das abelhas e os jovens pesquisadores percorreram a floresta com celulares para registrar as espécies.

Dos anciãos para os jovens

75% da população yanomami que habita nas terras brasileiras tem menos de 30 anos e a antiga transmissão do conhecimento de forma oral que era feita pelos mais velhos para os jovens está ameaçada devido a mudanças socioculturais que vêm ocorrendo de forma acelerada nas últimas décadas como resultado do contato cada vez maior com os ‘brancos’. Retomar essa tradição, através de trabalhos como esse da HAY, é uma forma de valorizar esse saber ameaçado.

“A transmissão de conhecimento entre as gerações ainda é bastante vigorosa em diversos grupos yanomami mas, como a maior parte da população é bastante jovem, o risco de perda desse conhecimento é cada vez maior. Por isso a HAY tem estimulado trabalhos que valorizem esses saberes, fomentando também outras formas de transferência”, informou Estevão.

De acordo com o geógrafo, o livro é indicado para o público em geral, pessoas que têm vontade de aprender mais sobre a biodiversidade brasileira e os saberes indígenas. É interessante, ainda, para quem busca inspiração para desenvolver pesquisas que promovam o diálogo entre diferentes saberes.

O conhecimento empírico yanomami foi complementado com o científico através de uma parceria da HAY com o (Biosis), Laboratório de Bionomia, Biogeografia e Sistemática de Insetos, da Universidade Federal da Bahia, que teve a pesquisadora e professora Favízia Freitas de Oliveira ajudando na identificação das espécies de abelhas.

‘Puu naki thëã oni: o conhecimento yanomami sobre as abelhas’ está à venda no site do ISA (www.socioambiental.org/pt-br) e todo o recurso das vendas será destinado à HAY. O livro também pode ser baixado gratuitamente.

Foto/Destaque: Divulgação

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