Em busca dos guerreiros do Amazonas

Eles eram 100, mas com o passar dos anos e das décadas, foram morrendo e sendo esquecidos como se sua luta pela liberdade do mundo tivesse sido em vão. Estes 100 homens eram amazonenses, pracinhas como ficaram carinhosamente conhecidos, integrantes da FEB (Força Expedicionária Brasileira) e rumaram para a Itália, para lutar na Segunda Guerra Mundial.

Passados 74 anos do fim da Segunda Guerra, alunos do Colégio Militar da Polícia Militar, apaixonados por história, resolveram começar uma busca para descobrir quem foram aqueles rapazes que partiram para a guerra, praticamente com a mesma idade deles agora, e o que ainda resta de suas histórias.

“Em 2016, durante nossas aulas de história, começamos a estudar as guerras, e foi aí que comecei a me interessar pela Segunda Guerra e a Guerra do Paraguai”, lembrou Adriel França, 17, quem começou a busca pelos ex-combatentes amazonenses.

“Um dia, vendo na internet um vídeo com músicas que os pracinhas fizeram enquanto estavam na Itália, uma me chamou a atenção. Um trecho dizia assim: ‘Major Sizeno também fez a sua guerra, na conquista de la serra, com todo seu batalhão’. Fui pesquisar quem teria sido este major Sizeno e qual não foi minha surpresa ao descobrir que ele era amazonense, nascido em Manaus”, contou.

Com a facilidade de hoje, em se encontrar de tudo na internet, Adriel descobriu que Sizeno Ramos Sarmento nascera em Manaus, em 1907. Em 1923 ele ingressou no 27º BC (Batalhão de Caçadores), que ficava onde hoje é o Colégio Militar, e no ano seguinte seguiu para o Rio de Janeiro.

“Um dia, vi um vídeo na internet com músicas que pracinhas fizeram. Um trecho dizia assim: ‘Major Sizeno também fez a sua guerra’. Fui pesquisar e descobri que ele era nascido em Manaus”, Adriel França – estudante

Sizeno Sarmento

“Acredito que ele tenha sido o único amazonense a lutar em Monte Castelo (batalha que durou de novembro de 1944 a fevereiro de 1945, ganha pelos brasileiros, o maior feito da FEB na Itália). Sizeno também foi o único dos amazonenses a lutar na guerra que depois chegou a general, comandando o 1º Exército, no Rio de Janeiro”, destacou.

E de pesquisa em pesquisa, Adriel foi descobrindo mais sobre Sizeno, inclusive um lado negro.

“Em visita ao Museu Tiradentes encontrei medalhas, condecorações e a espada de Sizeno doadas ao museu. No Palácio Rio Negro, olhando as fotos dos ex-governadores do Amazonas, lá estava ele, como interventor, em 1946. Durante o regime militar, iniciado em 1964, então comandante do 1º Exército, Sizeno teria sido um dos idealizadores do DOI-CODI, o mais temido órgão de repressão criado pelo Exército”, afirmou.

Se um único amazonense integrante da FEB tinha tanta história por trás de si, imagina o que os demais 100 não teriam? Foi por isso que Adriel chamou outros colegas que, como ele, são apaixonados por história e guerras, e criou o projeto ‘Guerreiros do Amazonas’, vasculhando o passado de amazonenses na Guerra do Paraguai, Canudos, Primeira Guerra e, claro, Segunda Guerra.

“Com 13 anos, dirigi uma peça sobre a Guerra do Paraguai, no colégio. Foi então que comecei a me interessar por guerras”, contou Luiz Rossetti, 17.

“Se interessar pela Segunda Guerra é uma consequência, pela quantidade de documentos e filmes que se tem sobre este conflito, ainda mais quando se sabe que alguns amazonenses estiveram lá e ninguém estuda isso na escola. Com o Adriel estamos descobrindo pessoas que foram importantes para a nossa história e estão esquecidas”, completou.

“De tanto que gosto, e sei, sobre história, sempre me destaquei na escola, ainda com 12 anos. E continuo assim até hoje. Já perdi noites pesquisando sobre a Segunda Guerra e quanto mais pesquiso, mais descubro, como agora, com os amazonenses que lá estiveram, cujas informações me foram passadas pelo Adriel”, revelou Juan Carlo, 17.

“Conhecendo o passado, podemos debater as coisas do futuro. Eu sei bem menos que o Adriel, o Rossetti e o Juan, mas como eles, gosto de história e estou no projeto para descobrir mais sobre os guerreiros do Amazonas”, concluiu Clayton Oliveira, 16, o mais novo integrante do grupo.

 

Futura exposição

Adriel teve a idéia de começar o projeto ‘Guerreiros do Amazonas’ no final de setembro, após adquirir um livro do general Mascarenhas de Moraes, comandante da FEB, na Itália, e saber que em São Paulo, Rio e Minas Gerais havia museus dos pracinhas.

“E perguntei: por que Manaus não tem um museu deles? Aí comecei a pesquisar”, explicou.

Com suas pesquisas Adriel descobriu que 120 amazonenses partiram para o Rio de Janeiro, em 1944. 20 foram reprovados em exames médicos e os 100 restantes seguiram para a Itália. Sizeno Sarmento, Manoel Chagas (morto em combate) e Waldyr Paulino Pequeno de Mello (morto em combate, integrando a incipiente Força Aérea), já estavam na Itália quando os demais chegaram. Estes três são os únicos a ter ruas em Manaus com seus nomes.

Até agora o jovem pesquisador localizou e contatou 13 famílias de ex-combatentes tendo conseguido fotos deles, cartões postais que mandavam da Itália para a família, medalhas, a farda de um deles e até um capacete nazista. A cada nova família, novas descobertas. E tudo está sendo arquivado para futura exposição pública.

“Recentemente o Exército inaugurou um mural, na praça Duque de Caxias, em frente ao BIS, no São Jorge, com os nomes dos 100 febianos que foram para a Itália. Através de seus sobrenomes estou localizando familiares. É a única homenagem a estes homens que foram capazes de dar a vida em defesa da liberdade no mundo”, finalizou.  

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