Desabastecimento de insumos e alta do dólar ainda travam indústria

O desabastecimento e encarecimento das matérias-primas foi o maior problema apontado pela indústria, no segundo trimestre de 2021, aponta a pesquisa “Sondagem Industrial”, da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Nada menos do que 63,8% das empresas apontaram os efeitos da pandemia na oferta de insumos industriais e o impacto da apreciação da taxa de câmbio (23,2%) na precificação, entre os principais entraves. Problemas estruturais, como o peso da carga tributária (34,9%) também foram mencionados.

Em contraste, o IBGE informa que a inflação da indústria desacelerou, entre abril (+2,19%) e maio (+1%), na menor variação registrada em 2021. Os dados são do IPP (Índice de Preços ao Produtor), que ainda apontam acréscimos de dois dígitos para os acumulados do ano (+17,58%) e de 12 meses (+35,86%). A taxa de maio foi a 22ª positiva consecutiva na comparação mensal do indicador, mas a Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas) estima que a tendência é de melhora no quadro de fornecimento e preços de insumos, já no segundo semestre.

A Sondagem Industrial também mostra aumento nos preços das matérias-primas, mesmo que em um ritmo mais lento. O índice caiu no trimestre (74,1 pontos), mas permanece acima da linha dos 50 pontos e está entre os maiores da série. Já o indicador de estoque efetivo em relação ao planejado pelas empresas registrou 48,7 pontos, em junho, ficando abaixo da linha de 50 pontos, indicando que os estoques ainda estão alinhados ao planejado. A distância para o planejado foi maior em junho se comparado aos meses de abril (49,6 pontos) e maio (49,2 pontos).

Impacto das commodities

A pesquisa mede a variação dos preços de produtos na “porta da fábrica”, sem impostos e frete, de 24 atividades das indústrias extrativas e da transformação. Dessas, 16 tiveram variações positivas em maio. A inflação industrial de maio foi puxada pelos segmentos alimentício (+1,48%), que representou 0,35 ponto percentual do total. Na sequência vieram os subsetores metalúrgico (+3,54% e 0,25 p.p.), de refino de petróleo e produtos de álcool (0,18 p.p.), e de produtos de metal (0,09 p.p.). 

Texto postado na Agência de Notícias IBGE aponta que um dos principais motivos para a desaceleração dos preços na indústria foi a desvalorização do dólar, ocorrida em maio. Segundo o gerente da pesquisa, Manuel Souza Neto, o real ganhou vantagem de 4,9% em relação ao dólar, no quinto mês do ano. Para o especialista é um percentual considerável para um único mês. “Com isso, uma série de produtos cotados em dólar caíram de preço”, completou.

De acordo com o pesquisador, os preços do segmento alimentício foram 30,54% maiores do que os de maio de 2020, dada a influência dos preços praticados no mercado externo e da estiagem ocorrida no Brasil, que afetou a produção do leite. Já o subsetor de metalurgia teve as maiores variações de preços, inclusive nos acumulados do ano e de 12 meses (+31,85% e +49,89%), em razão do impacto do preço do minério de ferro, entre outras commodities metálicas.

Mais otimismo

No texto de divulgação da “Sondagem Industrial”, o gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo Azevedo, explica que a combinação de estoques limitados e atividade aquecida são fatores para que a falta e alto custo de matérias-primas permaneçam como o principal problema enfrentado pela indústria no trimestre. “Os dados mostram que os estoques voltaram a cair, e novamente estão se afastando do nível planejado pelas empresas”, ressaltou.

Ainda assim, a pesquisa da CNI mostra que o otimismo dos empresários industriais em relação aos próximos meses manteve a curva ascendente, em julho. O índice de expectativa de demanda aumentou 1,1 ponto em relação a junho, alcançando 61 pontos. Esse é o maior valor para o mês de julho desde 2011, quando o índice era de 61,8 pontos. 

Em paralelo, o índice de expectativa de exportação teve um crescimento de 0,5 ponto, passando de 54,9 pontos para 55,4 pontos entre junho e julho. Em sintonia, a intenção de investimento aumentou 1,6 ponto em relação a junho, alcançando 58,6 pontos. O indicador apresenta recuperação após a queda que ocorreu em fevereiro e março deste ano, mas ainda não recuperou o patamar de janeiro, quando o índice foi de 59,9.

“Desalinho de necessidades”

O presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, expressa otimismo ao apontar que a tendência é que o setor industrial consiga alinhar a oferta e demanda, já no segundo semestre deste ano. Segundo o dirigente as dificuldades de abastecimento da indústria já eram aguardadas em face da desarticulação das cadeias produtivas e da mudança do perfil do consumo, a partir da difusão das quarentenas.

“A pandemia represou a produção de bens finais e o fornecimento de insumos. Era projetado que, uma vez retomada a produção em ritmo contínuo, a demanda seria maior que a oferta, o que causou esse desalinho entre as necessidades. Já a precificação é consequência e ajustada pelo próprio mercado, a partir do momento em que a curva de oferta se encontra com a da demanda. No PIM, por outro lado, os segmentos eletroeletrônico e metalúrgico concorrem com outros grandes clusters, o que finda por impactar na regularidade de suas cadeias de insumos”, finalizou.

Emprego estável, produção em alta

A mesma pesquisa da CNI mostra que o indicador de número de empregados na indústria subiu para 52 pontos, em junho, completando um ano sem mostrar cortes de empregos industriais. Pelo segundo mês consecutivo, o número de empregados está acima da linha de 50 pontos, ou seja, mostra alta nos postos de trabalho do setor. 

A produção industrial também cresceu pelo segundo mês consecutivo. O índice ficou em 52 pontos. Os índices variam de 0 a 100, com linha de corte em 50 pontos; os dados acima desse valor indicam crescimento na comparação com o mês anterior e abaixo, queda. Além disso, a UCI (Utilização da Capacidade Instalada) alcançou 71% em junho, crescimento de um ponto percentual em relação a maio. Foi o mais alto para o mês de junho desde 2013.

Foto/Destaque: Divulgação

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