De Ângela Diniz a Mariana Ferrer

Ao desabrochar mais um mês de primavera no hemisfério Sul, novembro irrompeu com o Brasil a testemunhar o plangente espetáculo de uma jovem influencer — suposta vítima de estupro — moralmente linchada pelo advogado do réu que, sob a premissa sub-reptícia de superioridade moral, teceu as mais abjetas considerações sobre a sua índole. Não houvesse áudio na transmissão, o semblante plácido e indulgente de alguns dos demais participantes da sessão sugeriria que assistiam a uma palestra sobre “mecanismos de hedge cambial” ou a um documentário acerca da “vida dos macacos bonobos da República Democrática do Congo”. Empatia, enternecimento e compaixão pareciam sentimentos tão distantes daquela aura masculina quanto a constelação Ursa Maior. Mariana, da tela, num canto, chorou seu pranto, e bradou por respeito às faces taciturnas e fleumáticas que contemplaram, impassíveis, a sua imolação pelo boquirroto causídico.

Não foi um episódio isolado de “brasilidade judiciária” ao lidar com crimes sexuais. O acontecimento teve contornos de revival do assassinato post mortem da reputação de Ângela Diniz. Depois de ser brutalmente executada com quatro disparos — três no rosto e um na nuca — efetuados por Doca Street, o julgamento do facínora, nos idos de 1976, foi convertido em escrutínio inclemente de sua honra, que agonizou até fenecer, com requintes de crueldade, para ovação pública. Diferentemente do “caso Mariana”, porém, este despertou insólita piedade. 

Pululam país afora os mais esdrúxulos exemplos de recriminações às vítimas de crimes sexuais, pelo fato de o fenômeno ser fruto espúrio do machismo estrutural que corrompe os alicerces de uma sociedade que se pretende justa e igualitária. 

Devassar a vida e a experiência sexual da vítima é algo epistemologicamente injustificável. Assim, pouco importa se aos olhos do observador a vítima é pudica ou despudorada, casta ou promíscua, imaculada ou depravada: não é não! Ademais, o enigmático conceito da vida pregressa a ser esquadrinhado a torna refém de seu passado, como se ela pudesse ser escravizada por qualquer predador sexual em função de uma conduta pretérita que o julgador — baluarte da moralidade virtuosa — considera reprovável.

O acolhimento afetuoso pode representar o bálsamo sobre a ferida aberta por uma ofensa bestial cuja cura é lenta e não sem perenes cicatrizes, porque sonhos desvanecem e dão lugar a uma realidade crepuscular até que a estima por si mesma retorne à vítima.

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