27 de junho de 2022

Caderno: Comportamento

Assim, meio bamba

Já disse que quebrei o pé? Não foi a queda de queixo que contei há uns dias não. Ali foi a mão. Não foi a cabreirice da semana passada, os dias trancados em casa também não. Ali foi a Covid. Entre uma coisa e outra, derrubei o celular no chão. E entre o chão e o celular tinha um pé. O dedo do meio, bem no meinho, amorteceu a queda. O celular tá como novo, mas o dedinho quebrou. Faz mais de 15 dias já. Agora, consertar que é bom, nada. Eu voltei no hospital da mão. Peguei o mesmo

Circular a discussão

Eu tenho um vizinho que fuma. Não sei nem o andar nem o bloco. Mas sei que fuma. Todas as vezes que cruzei o portão, que passei pela mesinha de ferro verde no térreo do prédio, o vizinho estava lá sentado, fumando. Mentira. Eu tenho um vizinho que fuma. Mas também tenho uma vizinha que desce os cachorros para almoçar ao ar livre. Todas as vezes que cruzei o portão, que passei pela mesinha de ferro verde no térreo do prédio, ou o vizinho fumante ou a vizinha cachorreira, ocupavam a cadeira, todo mundo pra lá dos 90. Nunca sentei

Processo seletivo

Melissa saiu da loja pronunciando com estranhza as palavras que sobraram. Subiu cinco quadras no mantra: crédito, Tramontina, Preçolândia. Anos de fono e ainda sofria com os Rs duros. Combinou consigo que, para o banho, daria play em qualquer um do dr. Drauzio, só pra ouvir os horríveis, espirros, carregadas que ele solta com tanta naturalidade. Dr. Drauzio, o Rivotril de Melissa. Já no térreo do prédio, cruzou com o zelador e a notícia. Fala, Melissa. Tá sabendo da conversa do 82? Vão reformar. Quando? Parece que começa amanhã. Mas é o quê? De primeiro foi o mofo na parede

5 ou 4 dias

Eram assim as faxinas das quartas-feiras. Das de olhar cada frestinha. Isso desde o tempo em que Melissa morava com a mãe em Olinda. Além dos  macetes do varre, aspira, passa pano, ela obedece até hoje ao: “Não se gasta sábado em limpeza, Mel. Acorde às 4h30 se precisar, limpe até dar vontade de lamber o chão, mas no meio da semana. Sábado é pra cerveja, cabelo e unha”. Melissa de avental, rabo de cavalo  e cara inchada de sono, como a mãe, catucava tudo que é buraquinho nos armários, nas prateleiras, nos tacos de madeira de todo e qualquer

Deixa eu dançar

“Quando entro no mar, em um rio muito fundo que não dá pé, gosto de mergulhar pra tocar o chão. Pra ver se é areia, lama, se está quente ou frio. E, da mesma forma, se  vou no rasinho, os pés não me bastam. Quero encontar o chão com a mão, passar a água na cara. Ou estou inteira, ou não me interessa estar”. Me disse hoje a analisanda das 8h. Eu achei isso tão bonito, tão bonito, que precisei de umas duas respiradas fundas pra não chorar no meio da sessão.  Ontem foi dia das mães, Lalá e eu