Elite em crise

Vilfredo Pareto, em um exame sobre a natureza do poder político no prelúdio do século XX, assim anunciou o seu determinismo sociológico: “a história é o cemitério das aristocracias”. A lógica paretiana é impecável na sua concretude, veracidade histórica e orientação ideológica para o novo mundo que se anunciava e que seria tomado pelas mais radicais experiências totalitárias. A contínua sucessão de elites na história humana respeita, portanto, a lei da competição entre grupos políticos e a luta encarniçada pelo poder. Conflitos armados, guerras civis, golpes de Estado, revoluções são episódio mais ou menos coerentes dessa máxima.

Todavia, a experiência humana não pode ser resumida, em sua totalidade, aos incontáveis modos de conflito. Os processos de guerra, em geral, são encerrados pela necessidade da paz, do princípio da ordem que floresce no coração dos homens. O adeus às armas e a entrada dos diplomatas nas negociações inicia o processo de paz duradoura entre as nações. A paz permite a cooperação, a consolidação dos negócios e das trocas culturais.

Assim, o significado básico das relações internacionais é entender, em certa medida, dois espectros tão opostos e ao mesmo tempo tão complementares. Na dualidade do poder, guerra e paz complementam-se e excluem-se em uma dialética infinita. É justamente por essa razão que concepções de ordem internacional são criadas e impostas pelas hegemonias de plantão ao longo das eras. Norte-americanos e europeus, por exemplo, assim concebem a dinâmica do conflito internacional: EUA veem a guerra como uma patologia, ao passo que os europeus a naturalizaram e a normalizaram nas suas estruturas de poder.

No âmbito dos Estados nacionais, os conflitos não deixam de ter importância. Aliás, é justamente no interior das nações – na esfera social propriamente dita – que podemos observar as contradições mais perceptíveis. É lá, no interior da sociedade, que nascem os atores, as ideologias, os interesses e os projetos de poder.

Tal noção é expressa pela relação entre elite e povo. Por definição, elite é a classe dirigente, a cabeça da política, a linha de comando; aquilo que os gregos chamavam de polis. Em sentido oposto, temos o povo, a massa, a multidão amorfa e dispersa; o demos é o povo em sentido estrito, ou seja, a agregação dos cidadãos, dos habitantes da cidade. Elite e povo não estão sempre em paz. Precisam de alguma maneira cooperar, tendo em vista a manutenção da ordem social, a legitimidade do poder e a consolidação das instituições.

O que testemunhamos nos últimos anos é a confusa legitimidade entre elite e povo. A desconfiança mútua baixa a legitimidade da representação e participação; partidos e outras organizações da sociedade deixam de ser a voz dos grupos de interesses especiais abrindo as portas para a emergência de lideranças carismáticas e populistas. E é em nome do povo que líderes carismáticos e populistas avançam em suas agendas e seus projetos de poder.

Equilíbrio das forças depender fundamentalmente da qualidade das regras do jogo e no grau cumulativo de confiança mútua – elite e povo – ao longo do tempo. Elites modernas precisam garantir estabilidade social, reformas econômicas e abertura política sob pena de sofrem as consequências da revolta popular. Saber direcionar a sociedade e conduzi-la com sabedoria torna a sociedade melhor e evita por um bom tempo a transformação das elites em cadáveres.

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