Ainda é cedo para sustentar que 2020 poderá vir a ser o “novo 1968” da humanidade. Mas que temos eventos disruptivos e razões suficientes para acreditar que o mundo está em via de sofrer transformações profundas e reemergir com novíssimas configurações e gramáticas sócio-político-econômico-culturais, parece ser uma constatação bastante plausível e verossímil.

O “novo mundo” que se prenuncia não tem na pandemia da Covid-19 seu epicentro. Tudo leva a crer que a pandemia acelerou e desvelou um plexo de necessárias e justas atualizações que o processo civilizatório do mundo contemporâneo precisava urgentemente reconhecer e executar em escalas local, regional e globalizada.

Com raras exceções de países diversos que conseguiram manter seus níveis evolutivos de sociedades livres, justas e solidárias, a Covid-19 nada mais fez senão descortinar os altíssimos índices de pobreza, intolerância, desigualdade, autoritarismo, hipocrisia e iniquidades que lideranças políticas de países tão diferentes quanto Estados Unidos, Brasil, Inglaterra e Venezuela acabaram por estimular e impingir em suas populações, obviamente em proporções quantitativas e qualitativas tão distintas quanto são suas realidades nacionais subjacentes.

Embora o “maio de 1968” — iniciado por manifestações estudantis em Paris que contestavam de modo difuso a ordem e os modelos social, moral, econômica e político que vigoravam à época, que depois ampliou-se para o mundo — possa representar atualmente um embate mais geracional do que de fundo ideológico, não há dúvidas de que expressou também um clamor generalizado por mais liberdade de ser, pensar, viver e existir a partir de convenções outras que não aquelas impostas por visões de mundo anacrônicas e restritivas mantidas pelo status quo político, econômico e social então dominante.

E por que a aproximação de 2020 com 1968? Porque o modo como o poder político nacional e a ordem mundial vêm sendo mantidos e exercidos não mais dão conta da diversidade cultural, social e étnica que compõe a humanidade, e que exigem dos governos e líderes mundiais um nível de atenção, democracia, escuta, respeito e resolutividade que nem de longe conseguem atingir.

E por isso podemos antever, sim, que 2020 pode vir a ser o “novo 19681” no mundo, com a diferença de que o lema original “seja realista, exija o impossível” pode ser substituído por “seja realista, exija o que é justo”.

Uma gramática política afastada desses fins, no mundo de hoje, é anacrônica e superada, e merece, sim, ser combatida e enfrentada com um “novo 1968”, a depender dos níveis de mobilização e engajamento da sociedade em nível global.  

Qual sua opinião? Deixe seu comentário

Gostou do Conteúdo? Assine nossa Newsletter

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp
Email

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email