18 de maio de 2021

Saúde mental transformada em prioridade na pandemia

A segunda onda da pandemia do coronavírus chegou arrasadora a Manaus e encontrou uma população há quase um ano amedrontada e combalida. Em virtude disso muita gente está desenvolvendo transtornos psiquiátricos e entrando em desespero. A situação é difícil, mas há soluções, conforme falou ao Jornal do Commercio o Dr. Wagner Caldeira Moreira, formado pela UFRJ, com título de psiquiatra pelo Programa de Residência Médica do Instituto Philippe Pinel, no Rio de Janeiro. Com mais de 20 anos de prática de psiquiatria clínica, Wagner Moreira é Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria/Associação Médica Brasileira, e diretor técnico da Clínica MentalCor, em Manaus.

Jornal do Commercio: Essa segunda onda da pandemia fragilizou ainda mais as pessoas porque veio arrasadora. Como se controlar nessa situação?

Wagner Moreira: Eu diria que a segunda onda da pandemia está atuando sobre uma população já fragilizada por quase um ano de medidas restritivas sociais. O isolamento imposto pela pandemia do coronavírus, por si só, é um agravante para o sofrimento psíquico. Quando os sintomas são suficientemente intensos para o diagnóstico de um transtorno psiquiátrico, apenas tentar se controlar não é o suficiente, então é necessário recorrer ao consultório do psiquiatra ou do psicólogo.

JC: Quais os sintomas mais comuns quando as pessoas chegam a esse grau de estresse?

WM: Medo intenso de morrer, tristeza além do normal, retração social, irritação, insônia com pensamentos trágicos e de ruína, no entanto o que chama bastante atenção são algumas queixas físicas provocadas pela ansiedade, que acabam por se confundir com os sintomas da infecção pela covid-19, como falta de ar, dores no corpo, calafrios, diarreia, entre outros. Tais manifestações fazem com que as pessoas procurem as emergências por acreditarem estar infectadas pelo coronavírus, quando na verdade estão apresentando sintomas típicos de ansiedade.

JC: E essa situação pode evoluir para situações mais graves?

WM: É claro que a similaridade dos sintomas da ansiedade, por exemplo, com os da infecção pela covid-19, faz com que seja imprescindível que a síndrome respiratória aguda grave seja descartada. Afastada a hipótese de uma doença física e confirmada uma crise psicossomática, o paciente precisa ser avaliado por um psiquiatra para que se estabeleça um tratamento adequado e a crise não evolua para transtornos psiquiátricos graves como depressão maior, transtorno de ansiedade generalizada ou psicose que podem, sim, surgir.

JC: Existe algum tipo de atividade, ou passatempo, que ajude nesses casos?

WM: As novas mídias, como grupos de aplicativos de mensagens e plataformas de reuniões por vídeo, a adaptação do ambiente do lar para atividades físicas, criar contextos lúdicos para as crianças se adaptarem à rotina do isolamento e tentar seguir horários semelhantes aos horários prévios à pandemia, são ações imprescindíveis para a manutenção da saúde mental dos indivíduos.

JC: É bom se isolar do mundo? Não ver mais TV nem ouvir notícias ruins, ou isso apenas é ‘colocar o lixo para debaixo do tapete’?

WM: A alienação total jamais será uma solução. Com a velocidade atual da informação, torna-se muito difícil ‘filtrar’ o que deve ser acessado, ou não. Hoje em dia a TV e o rádio deixaram de ser as únicas fontes de notícia, desta forma o mundo invade os nossos lares de diversas e diferentes formas. Acredito que a melhor política seja a de verificar as referências do que vemos e ouvimos, para que possamos optar pelos veículos de comunicação mais confiáveis e evitar passar o dia ‘ligado’ nas notícias, acessando-as uma ou duas vezes ao dia.

JC: Deve-se evitar tomar calmantes, ou a famosa Maracugina ajuda?

WM: As pessoas jamais devem se medicar por conta própria. Todas as medicações, alopáticas ou homeopáticas devem ser utilizadas sob orientação e supervisão médica para que não venham a ter um efeito contrário ao que se propõe.

JC: Esse estresse ao extremo pode deixar sequelas psíquicas quando a pandemia passar? Como procurar ajuda?

WM: Sem dúvidas que sim. O estresse pelo qual a população mundial tem passado precisa ser enfrentado pelo acolhimento adequado por profissionais de saúde mental, familiares e amigos em uma ação conjunta, caso contrário, o sofrimento psíquico decorrente do contexto atual pode tornar-se contínuo, com o indivíduo sendo condicionado a apresentar sintomas psiquiátricos compatíveis sempre que se deparar com elementos traumáticos referentes ao período da atual pandemia. A maior barreira entre o paciente e a ajuda, é o preconceito. O tratamento psiquiátrico é um tratamento médico como qualquer outro, e não significa que a pessoa esteja ficando ‘louca’, além disso, é extremamente seguro e efetivo.

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