Resenha: Carros e Carroças de Bois: Subsídios para a história social do Amazonas

Carros e Carroças de Bois: Subsídios para a história social do Amazonas é um trabalho do historiador e folclorista Mário Ypiranga Monteiro (1909-2004) publicado em 1984, sendo uma de suas produções voltadas para a história social do Amazonas, assim como O Aguadeiro (1947) eO Regatão (1958). Diferente de seus trabalhos anteriores, Mário Ypiranga enfrentou a dificuldade da escassez de fontes, de fontes que levassem pelo menos a uma origem remota da introdução desses veículos no Amazonas e em outros territórios, a qual atribuiu à “[…] característica singular da própria geografia regional, de vez que as estradas batidas são irrisórias” (MONTEIRO, 1984, p. 17). No entanto, ele afirma que essa característica singular “[…] condicionou o veículo ao estreito âmbito das sedes municipais e a um regime rural pobre de referências” (MONTEIRO, 1984, p. 17).

É nos interiores, nos interiores mais ou menos povoados na época em que o autor escrevia (apesar de ter sido publicado em 1984, as pesquisas de Mário Ypiranga ocorreram em diferentes momentos entre as décadas de 1940 e 1950), que foram encontrados registros materiais vívidos, ainda que de forma modesta, e alguns na capital. O autor estuda esses transportes em Manaus, Janauari, Coari, Manicoré, Tefé, Itacoatiara, Rondônia e Rio Branco. São 11 pequenos capítulos no total. Seus informantes e colaboradores foram os

“[…] senhores prefeitos capitão Alexandre Montoril, de Quari; Lourival Santana, de Manicoré; Francisco Antônio de Lima, antigo morador em Tefé; dr. Otaviano Soriano de Melo, Juiz de Direito em Tefé; Lúcio de Araújo Lima, os três últimos já falecidos; sr. Sebastião Lima, padre dom Atanásio de Aguiar e outros que porventura haja esquecido e que serão lembrados no texto” (MONTEIRO, 1984, p. 15).

Aos poucos documentos escritos soma, ainda que não seja um completo apreciador, a história oral. Sobre os dados oferecidos por um informante, diz o seguinte: “Todavia não aceito a lição histórica e por motivos também de natureza histórica, embora não me seja possível, no momento, apresentar documentos” (MONTEIRO, 1984, p. 83). Em alguns momentos recorre às memórias de sua infância, sobre os carros e carroças que viu em Manaus, no Centro ou na Aparecida, seu bairro de nascimento, e aos relatos de seu pai.

A metodologia empregada na produção de Carros e Carroças de Bois pode ser caracterizada como uma história antropológica. Mário Ypiranga foi a campo, em todas as cidades e territórios em que soube da utilização desses veículos. Não fez simples descrições. Analisou os tipos de madeiras utilizados na confecção das carroças e carros, os bois empregados (de raça, importados ou naturais), seus nomes pitorescos, os preços do transporte, das carroças e dos bois, e os comandos utilizados pelos carroceiros para comandar as ações dos animais. Ainda mais detalhadas são as descrições das peças, os canzis, as cangas, os tampais, as brochas e as rodas. Da população das cidades e territórios por onde passou apreendeu um rico folclore sobre os carros e carroças de bois, com cantos e ditos populares. Em Rio Branco (Território Federal de Roraima, 1962) recolheu a seguinte letra de uma toada:

“Meu carro de madrugada

vai chegando perto de casa…

Esquenta o eixo para o patrão acordar

com o canto do boi estimado…

Desperta meu patrão,

que eu vou chegando em casa…” (MONTEIRO, 1984, p. 82)

Por que escrever sobre carros e carroças de bois? Mário Ypiranga enfrentou esse questionamento enquanto fazia suas pesquisas em Rondônia. Um funcionário da prefeitura, de forma irônica, surpreendeu-se ao saber da existência de um “doutor em carrologia bovina” (MONTEIRO, 1984, p. 53). Apesar de toda a fragmentação, das origens incertas, o autor conseguiu mostrar como os carros e carroças de bois formavam um universo cultural amplo e diversificado. Um carro de Itacoatiara não era igual ao de Coari, nem o de Manaus ao de Rio Branco. Em suas palavras, “o carro de bois conserva, portanto, um traço de união, que diríamos mágica, entre o homem e a terra” (MONTEIRO, 1984, p. 14).

Mário Ypiranga, à maneira do ensaísta, historiador e antropólogo Gilberto Freyre (1900-1987), deu importância à cultura, à cultura material, aos elementos dispersos no espaço mas com significados importantes para a compreensão do homem amazônico, do meio em que vive, do espaço que criou, que se sujeitou, ao longo dos séculos. É na cultura e pela cultura que se compreende o sentido de sua obra.

Fonte: Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa

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