Pilares da Educação para o século 21

Nos meados da década de 90 a Unesco-Orgão das Nações Unidas responsável pela educação e cultura, criou uma Comissão Internacional para pensar e elaborar diretrizes para a educação do século 21. Os resultados dos estudos dessa comissão que contou com a participação dos pensadores contemporâneos Edgar Morin e Paulo Freire, estão consubstanciados no relatório intitulado Educação: um tesouro e descobrir, mais conhecidos como Relatório Jacques Delors. Este documento enuncia quatro pilares da educação para o século 21, quais sejam: 1) aprender a conhecer; 2) aprender a fazer; 3) aprender a viver juntos; 4) aprender a ser. O primeiro pilar é condição primeira para que seja instaurada a reforma da educação. Aprender a conhecer é uma postura do sujeito livre, flexível nos seus conceitos e visão de mundo, capaz de colocar-se numa perspectiva de abertura para o outro e para novos conceitos. O mundo ocidental vive um momento de profundas incertezas no campo da ciência. As cegueiras e hermetismo do racionalismo cartesiano moderno levaram-no à cegueira do conhecimento, ao erro e à ilusão, conforme exorta Edgar Morin no livro “Os setes saberes necessários à educação do futuro” (2000). É função da própria ciência, hoje, enfrentar as incertezas colocando-se na condição de aprender a conhecer. Paulo Freire no seu livro póstumo “Pedagogia da Autonomia”(1997) também alerta para a necessidade da incorporação da incerteza no universo das verdades cientificas. Embora indissociável do conhecer o fazer contido no Relatório da Unesco apresenta uma conotação empobrecedora, porque se refere à preparação das pessoas para o processo produtivo. Para Morin o saber fazer não está circunscrito à razão instrumental, está contido na razão dialético-dialógica que tem como princípio fundante o constante ir e vir da realidade para a elaboração teórica e vice-versa. Em Paulo Freire, o fazer é inerente à educação porque ela é uma forma de intervenção crítica no mundo concreto, real, histórico. Daí a dimensão política de sua pedagogia traduzida no ato educacional transformador/libertador. O pilar aprender a conviver está associado àquilo que Morin denomina de ensinar a condição humana e a ética do gênero humano. O propósito aqui consiste em encarar o ser humano como uma unidade complexa a um só tempo física, biológica, psíquica, cultural, social e histórica que carrega em si também uma condição ternária de individuo/sociedade/espécie. Aqui Morin vai mais longe do que Paulo Freire porque desenvolve sua reflexão sobre a identidade terrena e, no limite, conclui sobre a dimensão cósmica dos seres humanos. Há, porém, um correspondente entre os dois pensadores quanto a identidade terrena, posto que sublinearmente na mesma obra Freire critica o neoliberalismo e provoca os membros do Instituto Paulo Freire, instigando-os a buscarem a construção de uma categoria que pudesse superar o ultrapassado internacionalismo socialista, reconhecendo o fenômeno da globalização. O conviver é a própria essência da pedagogia de Paulo Freire já que ela tem como centralidade o diálogo. Aprender a ser para Morin significa o desenvolvimento pleno do homem em toda sua riqueza e complexidade: espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade, espiritualidade. Aqui também Paulo Freire introduz o importante conceito de inacabamento ou inconclusão que nos identifica com os demais seres do cosmo, mas, ao mesmo tempo, deles nos distingue, por nossa consciência dessa limitação.
O inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da existência humana. Por isso, o ser humano é um ser utópico e educável porque está sempre à procura de seu acabamento. Também, por isso, o ato pedagógico é um ato utópico e esperançoso.

Iraildes Caldas Torres é professora da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e doutora em CiênciasSociais/Antropologia.
E-mail: [email protected]

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