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PIB mostra zona cinzenta para o crescimento

Marco Dassori

Twitter: @marco.dassori   Insta: @jcommercio

A economia avançou acima do esperado nos três primeiros meses de 2024, mas segue em uma zona cinzenta. Puxado pela agropecuária (+11,3%) e, em menor grau, por serviços (+1,4%) e indústria (+1,6%), o PIB brasileiro fechou o primeiro trimestre com 0,8% de alta e R$ 2,7 trilhões em valores correntes. Foi uma performance melhor do que a estabilidade anterior, mas a indústria mal se moveu (-0,1%). O resultado foi novamente influenciado pelo consumo das famílias (+1,5%), que mostrou tração em um ambiente favorecido por mercado de trabalho aquecido, inflação sem grandes oscilações e políticas de transferência de renda. O diferencial é que, desta vez, a taxa de investimento (+4,1%) também avançou. 

A comparação com igual intervalo de 2023 gerou elevação mais vigorosa, de 2,5%, induzida por serviços (+3%) e indústria (+2,8%), em detrimento da agropecuária (-3%). A soma dos últimos quatro trimestres acumulou incremento de 2,5%, disseminado nos três setores. Os números são do Sistema de Contas Nacionais Trimestrais, do IBGE. Há dúvidas sobre a continuidade do crescimento, diante dos impactos da tragédia climática no Rio Grande do Sul. A certeza é que, qualquer que seja o resultado, o Amazonas será muito sensível a ele, em face de seu modelo econômico lastreado pela indústria do consumo e demanda interna.

A performance trimestral do PIB superou as expectativas de mercado, mas ficou abaixo do IBC-Br, que tem metodologia diferente. O indicador do Banco Central registrou acréscimo de 1,08% ante o trimestre anterior e aumento de 1,04% sobre igual acumulado do ano passado. A mesma base de dados mostra números mais generosos para o Amazonas (+8,80% e 3,74%, respectivamente), em função da recuperação econômica pós-vazante.

Conforme o IBGE, a Formação Bruta de Capital Fixo (investimentos) avançou 4,1%, entre os trimestres, e 2,7%, sobre a marca dos três meses iniciais de 2023, embora se mantenha negativa no acumulado (-2,7%). O consumo das famílias (+1,5%, +4,4% e +3,2%, respectivamente) continuou sendo o motor do crescimento, a despeito das taxas de endividamento e inadimplência do consumidor. Os gastos do governo também se mantiveram no azul (0%, 2,6% e +2,1%).

Indústria e construção

A indústria, que puxou o crescimento da economia brasileira no levantamento anterior, desacelerou na virada trimestral. O dinamismo ficou restrito à indústria de transformação, que é predominante no PIM, e subiu 0,7%. O mês foi negativo para as atividades de eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos (-1,6%) e para as indústrias extrativas (-0,4%). Mas, embora o setor tenha expandido 1,9% no acumulado dos últimos 12 meses, deixou a indústria de transformação (-0,6%) para trás. 

“Considero que esse foi um período de estabilização, haja vista os resultados atípicos observados nos meses anteriores. No cômputo geral, entretanto, os números continuam positivos e sinalizam que a tendência esperada para os próximos meses é de leve crescimento para o PIM”, avaliou o presidente da Fieam, Antonio Silva, em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio.

A construção desaqueceu no trimestre (-0,5%), após a taxa positiva do levantamento anterior (+0,9%). O setor se manteve 2,1% acima do patamar do mesmo período do ano passado, na segunda alta consecutiva nesse tipo de comparação, mas insuficiente para salvar o acumulado anual (-0,3%). “Depois de uma estabilidade no primeiro bimestre, houve uma queda entre fevereiro e março. Há necessidade de mais investimentos para aumentar a produtividade, mas a taxa de juros está inibindo esse movimento. Em todo o caso, ainda se projeta crescimento para 2024”, ponderou o presidente do Sinduscon-AM, Frank Souza.

Serviços e agropecuária

Responsável pela parte majoritária do PIB brasileiro, os serviços cresceram 1,4% sobre o quarto trimestre de 2023. A alta foi liderada pelo comércio (+3%) e pelas atividades de comunicação e informação (+2,1%), entre outras. O confronto com igual intervalo do ano passado indicou acréscimo em todas as atividades, inclusive no varejo e atacado (+3%). Em um ano, o incremento foi de 2,3%, mas a atividade comercial subiu apenas 1%.

“As vendas têm crescido e o endividamento das famílias tem caído, o que é promissor e alvissareiro. Mas, precisamos de muito mais. Estamos recomendando aos empresários que não deixem chegar ao fosso da estiagem. Vamos ter de nos programar e planejar, e comprar com antecedência, evitando a descapitalização e a inadimplência [com tributos]”, destacou anteriormente o presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota.   

A agropecuária foi outro setor econômico que alavancou o PIB na virada trimestral (+11,3%), mas sofreu revés quando comparado aos três meses iniciais de 2023 (-3%). Apesar da contribuição positiva da pecuária, produtos agrícolas cujas safras são significativas no primeiro trimestre, apresentaram queda na estimativa de produção anual e perda de produtividade. A lista inclui soja (-2,4%), milho (-11,7%), fumo (-9,6%), e mandioca (-2,2%). O setor, entretanto, se mantém no azul nos quatro trimestres (+6,4%).

Nas mais recentes entrevistas à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Faea, Muni Lourenço, lembrou que a atividade sofreu impactos significativos da “fortíssima estiagem” de 2023 e de custos de produção. Ainda assim, o dirigente destaca que muitos segmentos da agropecuária amazonense seguem com potencial no mercado internacional, demanda doméstica aquecida e espaço para crescer – principalmente no Sul do Estado.

“Cenário de cautela”

A ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, diz que o crescimento do PIB não foi capaz de afastar as preocupações do cenário macroeconômico brasileiro. “O resultado foi puxado pelo consumo das famílias. Pela ótica da pessoa jurídica, o destaque foi a aquisição de equipamentos, desenvolvimento de sistemas e construção civil. Inflação e juros e descontrole dos gastos inspiram um cenário de muita cautela entre investidores e analistas de mercado”, avisou.

A economista avalia que, levando em conta que a economia amazonense está alicerçada no PIM, o resultado insatisfatório da indústria acende uma luz amarela ara o Amazonas. “Espera-se uma seca semelhante ou mais intensa do que a de 2023. Chamo a atenção também para as desconhecidas consequências das chuvas no Rio Grande do Sul para as contas públicas. O cenário é de desafios, inspirando acompanhamento e cautela”, frisou.

O atual vice-presidente do Corecon-AM, e economista com especialização em Gestão Empresarial, José Altamir Cordeiro, também ressalta que a tragédia ambiental gaúcha lança uma sombra sobre o segundo trimestre. “Ainda precisamos de ajustes na política fiscal e monetária, para tranquilizar o mercado. A preocupação se mantém no controle da inflação e seu reflexo nas taxas de juros”, explicou.

Cordeiro alerta que o desempenho do PIM e do PIB amazonense em geral são sensíveis ao cenário econômico doméstico e ao desempenho da renda das famílias. “O primeiro trimestre foi positivo em segmentos industriais como o de condicionadores de ar. Mas, produzimos muitos bens de consumo e que são sensíveis à inflação. Temos ainda a preocupação quanto aos efeitos da vazante, a partir de julho”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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