O Brasil precisa enxergar o Brasil

por Wilson Périco(*)

Saindo dos palpites para a ação, estivemos fazendo uma varredura na web sobre os maiores fabricantes mundiais de alguns produtos relacionados, ou complementares, às cadeias produtivas do Polo Industrial de Manaus. Diante dos resultados, fomos investigar que empresas fabricam esses produtos no Brasil e o resultado mostrou que as empresas eram as mesmas, aqui e lá. Ou seja, nossa diversificação e adensamento industrial não precisa ir tão longe. A rigor, precisamos criar ambientes de negócios mais atraentes, enxugar a burocracia e agregar o aditivo ambiental: “produzir na Amazônia significa manter a floresta em pé e ajudar o planeta a respirar melhor”.

Riscos da desindustrialização

Estes são alguns de nossos atrativos, além de nossa capacidade e talento para produzir o que for demandado pelo mercado. Temos provado isso, em clima de Pandemia, com a quebra global das cadeias de suprimentos e de produtos. Só não fizemos em tempo recorde os produtos que exigiam insumos indisponíveis. Por isso, o Brasil carece de conhecer este Brasil ao Norte, também talentoso, porém, costumeiramente deixado para depois. Tomara que a lição da Covid econômica tenha sido assimilada. Depender em mais de 90% dessa cadeia aparentemente atraente é colocar em risco a estrutura econômica/industrial e geradora de oportunidades que nos custou suor e sangue para construir. Em nome de acordos bilaterais supostamente atrativos, pensar em reduzir impostos na importação de produtos significa liquidar mais ainda as chances de sobrevida da indústria nacional e local.

Explosão do desemprego

Em outras palavras, corremos o risco de importar de quem hoje já produz aqui no Brasil e aumentar o desemprego. Como concorrer com empresas instaladas aqui e na Coreia se eles não precisam trabalhar seis meses para pagar impostos ao seu país? E o que é irônico: sobram recursos para a sonhada infraestrutura competitiva. Ah, mas o produto importado, depois desses acordos, chegará mais barato ao mercado. Não tenhamos dúvida em muitos casos, mas quem vai comprar se o cidadão estiver desempregado, sem renda? Importar e descuidar da indústria nacional causa danos em cadeia ao Brasil. Reforça o comodismo e atrofia o espírito empreendedor. Adia a materialização dos projetos e respectiva inovação tecnológica de que precisamos. De quebra atrofia a inteligência nacional e subutiliza talentos. Como vamos investir na inovação tecnológica – que nada mais do que uma resposta nova para antigos problemas – se não há necessidade de criar saídas ou respostas, pois elas já vem prontas?

Confisco sem fronteiras

Existem meia dúzia de países que ditam tendências e o Brasil não é um deles. Aqui, replicamos/industrializamos produtos (tendências) desenvolvidos nesses países. E porque estamos fora deste clube? Podemos arriscar alguns palpites locais e regionais, todos causados pelo confisco da riqueza aqui gerada. Não temos laboratórios de nanobiotecnologia para gerar riqueza de que o Brasil precisa para sair do atraso. Não temos porque ZFM virou o baile do confisco nos últimos 20 anos. Um baile no qual fomos injustamente barrados. Nossa representação no CAPDA – Comitê responsável pelas verbas de P&D – foi voz vencida na decisão da ZFM sustentar por dois anos, num repasse de R$ 2 bilhões, do programa Ciência Sem Fronteira do MEC. Temos as atas. Não estamos reivindicando a devolução desses recursos. É uma utopia diante da argumentação burocrática federal.

Redução das desigualdades regionais

De uma certeza, porém, estamos convencidos: mais do que nunca devemos exigir que se cumpra o mandamento constitucional de redução das desigualdades regionais, retendo na região a riqueza aqui gerada. E transformar recurso em riqueza é a especialidade de quem só faz isso há 53 anos. Não se trata de definir aqui quem vai gerenciar a verba de P&D que, aliás, não pertence ao governo. Defendemos, porém, a produção de um omelete de transformação. O consumo público dos ovos, costumeiramente usado para custeio da máquina pública, deu no que deu. Em praticamente nada. Esse omelete – diz o bom-senso – deve ser desdobrado em qualificação de recursos humanos e infraestrutura competitiva, os pilares de uma Amazônia desenvolvida, sustentável e acesso do país ao Clube das Tendências, conquistado por um Brasil que aprendeu a enxergar o Brasil.

*Wilson é economista, empresário e presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas.

*Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Fonte: Cieam

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