Manaus tem menos endividados, diz CNC

O percentual de consumidores de Manaus endividados com cartões, carnês de loja e crédito pessoal, entre outros meios de pagamento, caiu pelo sétimo mês consecutivo, na passagem de setembro para outubro. A fatia das famílias inadimplentes e das que já admitem que não poderão pagar dívidas, entretanto, foi na direção contraria da média nacional e sofreu repique, especialmente entre as que ganham menos. A conclusão vem dos dados da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). 

Na sondagem, 72,5% das famílias manauenses ouvidas (457.694) se dizem endividadas, patamar inferior ao de setembro (74,2% e 467.903) e também mais baixo do que o de exatos 12 meses atrás (78,8% e 490.605). Foi o menor percentual do ano registrado em nível local e também o valor mais baixo em 13 meses. Em âmbito nacional, o indicador caiu de 67,2% para 66,5% na variação mensal, mas subiu 1,8 ponto percentual em relação ao mesmo mês de 2019.

O índice de inadimplência na capital (25,9% e 163.357 famílias) sofreu repique e cresceu ante setembro (24,5% e 154.437), embora tenha ficado aquém do patamar de outubro de 2019 (34,6% e 215.356). Só 18,4% disseram que devem poder quitar a dívida totalmente e 28%, parcialmente – contra os respectivos 17,3% e 31,4% do mês anterior. Em contraste, a taxa de encolheu em todo o país, pela segunda vez, na variação mensal – de 26,5% para 26,1%. Mas, aumentou 1,2 ponto percentual, em um ano.

A fatia correspondente às famílias que declararam não ter condições de quitar suas dívidas em atraso também voltou a embicar para cima, após encolher dois meses seguidos. Passou de 12,6% (79.264) para 13,8% (86.865), o pior resultado desde julho. A retração foi renovada, contudo, em relação à marca de um ano atrás (16,7% e 103.887). No país, o índice foi na direção contrária e teve ligeira retração na comparação com setembro, passando de 12% para 11,9%, mas ficou acima do patamar de outubro de 2019 (10,1%).

Tempo e dependência

A maioria dos manauenses entrevistados (46,6%) se assume “muito endividada” – contra os 50% de setembro. São seguidos bem de longe pelos que se dizem “pouco endividados” (13,3%) e “mais ou menos endividados” (12,6%), com níveis pouco piores do que os capturados na sondagem anterior (12,6% e 11,6%, respectivamente). Novamente, os consumidores com renda total de até dez salários mínimos predominam apenas no primeiro grupo. 

O tempo de inadimplência mostrou, novamente, achatamento, em Manaus. Entre os manauenses inadimplentes, 33,2% devem há mais de 90 dias – com destaque para os que têm ganham até dez mínimos (34,8%). A fatia de consumidores com dívidas atrasadas entre 30 e 90 dias (50,2%) foi maior outra vez. Em último lugar está o grupo pendente há menos de um mês (15,9%), que também expandiu. Em setembro, os números foram 36%, 48,6% e 14,5%, respectivamente.

Uma redistribuição em menor grau se deu na estimativa de tempo para quitar as dívidas. Caiu o percentual que estima permanecer comprometido com dívidas por mais de um ano (38,4%). Em contrapartida o mesmo não se deu entre aqueles que dizem que levarão entre seis meses e um ano (35,6%) e os que estão pendurados entre três e seis meses (12%). Em contrapartida, o grupo que tem compromissos por até três meses (7,2%) aumentou. Os números da sondagem anterior foram 41,9%, 32,4%, 11,8% e 6,3%, na ordem.

Cartão e comprometimento

Em Manaus, o maior vilão do endividamento e da inadimplência ainda é o cartão de crédito, embora este tenha diminuído sua participação no bolo, de 94,9% para 90%, entre um mês e outro. Assim como no mês anterior, o percentual foi maior para os que ganham mais de dez mínimos (97,5%). Carnês (76,7%) estão na segunda posição, praticamente empatados com setembro (76,6%), mas elevaram sua predominância entre os mais pobres, de 80% para 81,1%. Crédito pessoal (52,8%), crédito consignado (11,9%), financiamento de carro (1,2%), cheque especial (1%), financiamento de casa (0,4%) e cheque especial (0,3%) vieram em seguida.

Em média, as famílias da capital amazonense consomem 43,1% de sua renda para pagar dívidas – o mesmo percentual do mês anterior. A despeito da redução do indicador global de endividamento, houve uma nova piora qualitativa na distribuição por níveis de comprometimento. A maioria (61,7%) já consome mais da metade dos ganhos mensais com dívidas. São seguidos de longe pelos que gastam de 11% a 50% (27,9%) e pelos que limitam os dispêndios a 10% (2,1%). Em setembro, essas fatias foram de 59,8%, 28,4% e 1,6%, respectivamente.

“Fora da realidade”

O presidente em exercício da Fecomércio AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, lamentou a predominância do cartão de crédito entre os meios de endividamento do consumidor de Manaus, em razão de seu “custo proibitivo” e defendeu que o BC tome alguma ação para tornar as taxas mais palatáveis.

Indagado sobre uma eventual discrepância entre o otimismo da pesquisa de confiança dos empresários do setor e os resultados não tão animadores da presente sondagem – e também do levantamento mais recente de intenção de consumo das famílias –, o dirigente assinalou que a economia está em recuperação e só não está funcionando em todo seu potencial, em virtude do desabastecimento, entre outros problemas.

“Hoje, as carteiras das indústrias estão abarrotadas de pedidos, mas não estão podendo atender em função da falta de embalagens. E os varejistas que têm mercadorias em estoque estão vendendo relativamente bem. É claro que, se o auxílio emergencial sumir no ano que vem, o governo vai ter que repensar o modelo. Por outro lado, já há sinais de melhora, com o PIX que devem arrefecer o ânimo dos bancos cobrarem taxas exorbitantes e fora da realidade de mercado”, amenizou.     

Confiança e incertezas

Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC, a economista da entidade responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, destaca que o endividamento dos consumidores que ganham menos percorreu trajetória inversa na comparação com os que ganham comparativamente mais, e o grau de confiança foi o diferencial. 

“A redução do endividamento das famílias de menor renda nos dois últimos meses é um reflexo da diminuição dos valores dos benefícios emergenciais, o que exige mais rigor na organização dos orçamentos domésticos. Já o aumento das dívidas entre as famílias com mais de dez salários indica que elas estão, aos poucos, retomando o consumo”, explicou. 

No texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC, o presidente da entidade, José Roberto Tadros, avalia que os sinais de melhora do índice em âmbito nacional – após alcançar a maior proporção da série histórica em agosto (67,5%) – são reflexo da melhor perspectiva econômica. “No entanto, ainda predominam incertezas sobre a sustentabilidade da retomada no médio prazo, principalmente quanto à capacidade de recuperação do mercado de trabalho e ao cumprimento das metas fiscais”, concluiu.

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