Há 40 anos, um papa em Manaus

“Com um atraso de 30 minutos (a previsão era 18 horas), o papa João Paulo II desembarcou ontem (10 de julho de 1980, quinta-feira) em Manaus, no aeroporto Eduardo Gomes, sendo recebido pelas mais altas autoridades locais, civis, militares e eclesiásticas e corpo consular”.

Este foi o lead da matéria publicada há 40 anos, no dia 11 de julho de 1980, no Jornal do Commercio, noticiando a chegada do primeiro, e até agora único, papa a vir até a capital do Amazonas, o polonês Karol Wojtyła. Nunca antes de João Paulo II um papa se misturara como ele aos fiéis e viajara a tantos lugares do planeta.

Da mesma forma que Manaus, o Brasil também nunca havia recebido um papa, por isso a chegada de João Paulo II ao país foi uma festa durante os onze dias em que ele circulou por doze capitais e a cidade de Aparecida.

O papa chegou ao Brasil no dia 30 de junho, a Brasília, onde foi recebido pelo último presidente do regime militar, João Baptista Figueiredo (1979/1985), e começou sua peregrinação por Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Aparecida do Norte (a única não capital, mas que o papa fez questão de conhecer), Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Belém, Teresina, Fortaleza (onde Luiz Gonzaga cantou Asa Branca durante a missa campal) e Manaus, a última cidade da escala, de onde o papa partiu novamente para o Vaticano, no dia 11 de julho, às 16h30 horas. Naquele ano, em Manaus, o boi bumbá era uma festa da qual apenas se ouvia falar na distante Parintins, por isso as toadas e o show indígena não fizeram parte da recepção ao sumo pontífice. O governador José Bernardino Lindoso (1979/1982) recebeu ‘João de Deus’ no aeroporto.

Manaus ficou marcada porque aqui o ‘Beijoqueiro’, o português José Alves de Moura, conhecido por furar bloqueios para beijar celebridades, conseguiu burlar a segurança e beijar os pés do papa, mas após contido, caiu chorando, no lago artificial que ornava o altar, na Bola da Suframa. O ‘Beijoqueiro’ já havia feito tentativas em outras capitais, porém, acabava sendo descoberto e preso. Para vir a Manaus, ele pediu colaboração das pessoas numa praça do Rio de Janeiro, para comprar a passagem de avião, e conseguiu.

O ponto alto

Do Eduardo Gomes, João Paulo II, no ‘Papa-Móvel’, seguiu para a catedral pelas avenidas Torquato Tapajós, Constantino Nery e Epaminondas, repletas de pessoas maravilhadas com o espetáculo de batedores, carros com seguranças e o ‘Papa-Móvel’ com a figura de João Paulo II, vestido totalmente de branco, sorrindo e acenando para todos. Segundo o JC, além de homens do Exército, 480 soldados da Polícia Militar estavam posicionados no entorno da catedral.

Ao final das solenidades na catedral, por volta das 20h, o papa rumou para a sede da Arquidiocese, na avenida Joaquim Nabuco, onde passaria a noite. O Museu da Catedral guarda o trono papal confeccionado especialmente para a ocasião.

Na manhã do dia 11, sexta-feira, aconteceu o ponto alto da visita de João Paulo II a Manaus. A missa campal na praça Pereira da Silva, a popular Bola da Suframa que, naquela época era apenas um imenso descampado. A missa foi realizada logo cedo, às 8h30. Até hoje Manaus nunca reuniu tantas pessoas, num mesmo local, num mesmo dia e horário. O JC calculou que 300 mil pessoas se fariam presentes ao acontecimento, ou 150 mil, como publicado em outra matéria. Na noite anterior, caravanas de toda a cidade se dirigiram para a praça onde, ao amanhecer, não cabia mais ninguém. Ainda no dia 10, dezenas de ônibus e embarcações chegaram a Manaus, do interior e até de estados vizinhos.

O ‘Papa-Móvel’ partiu da Arquidiocese, seguiu pela avenida Sete de Setembro onde, na frente da penitenciária Raimundo Vidal Pessoa o papa deveria dar uma benção aos presidiários mas, frustrando-os, a comitiva passou direto, devido os horários ferrenhamente controlados por monsenhor Paul Marcinkus, fiel escudeiro papal. Depois avenidas Castelo Branco e Costa e Silva.

Tucunaré e pirarucu

Às 10h o papa já estava se dirigindo para a Base Naval do Rio Negro de onde presidiu uma procissão fluvial, a bordo do navio Pedro Teixeira, da Marinha, que passou pelo encontro das águas.

Às 10h40 voltou, desembarcando no roadway e retornando à Arquidiocese para almoço e descanso.

Aldenor Ernesto de Lima, proprietário da tradicional peixaria Canto da Peixada, lembra que ficou responsável em preparar o jantar do dia 10 (tucunaré sem espinhas), o café da manhã e o almoço do dia 11 (filé de pirarucu), de João Paulo II. Até hoje Aldenor mantém em sua peixaria, em destaque, as louças utilizadas pelo papa, e uma fotografia autografada pelo santo padre.

Às 15h o papa partiu da Arquidiocese pelas ruas Joaquim Nabuco, Tarumã (em frente ao santuário de N. Sra. de Fátima, na Praça 14 de Janeiro, ele parou para abençoar o santuário e enfermos) e continuou pela rua Emílio Moreira, Boulevard Amazonas, Recife, Torquato Tapajós, e aeroporto onde um avião DC10 da Varig já o aguardava.

Na despedida do papa, o presidente Figueiredo não veio, representado pelo ministro das Relações Exteriores Saraiva Guerreiro.

Às 16h30 o avião levantou vôo e o papa partiu para nunca mais voltar. João Paulo II ainda retornaria ao Brasil em 1991 e 1997, mas Manaus não mais fez parte de seu roteiro.

Naquele 10 de julho de 1980, o JC lançou uma edição especial sobre a viagem do papa ao Brasil, inteiramente colorida, com tiragem de 45 mil exemplares, que se esgotou na mesma manhã.

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