Ainda era jovem quando meu pai me mostrou um recorte de jornal. Recorte não é o termo exato porque se tratava de um pedaço rasgado com todo cuidado de um jornal. Pequeno, cabia na mão e se podia ler: “As Vacas e As Formas de Governos.” Papai sorriu com um ar de troça, que eu bem conhecia e me estendeu o papelucho. Curioso, comecei a ler:
“Se você tem duas vacas, num regime de livre iniciativa, você vende uma e compra um touro; Num regime de administração familiar, você também vende uma para suprir outras necessidades e mantém uma para o leite; Num regime socialista, o governo lhe toma uma das vacas e dá para quem não tem; Num regime comunista, o governo toma as duas vacas e o manda fuzilar e, por fim, num regime de economia controlada por burocratas, o governo contrata quatro funcionários para dar comida e tirar leite das vacas e depois deixa apodrecer o leite”.
Não sei porque este fato me veio à lembrança no recente episódio (ainda não findo) do boi-pirata. Aquela história dos 3.500 bois que foram aprendidos, pois estariam num pasto de terra devastada sem o consentimento do Ibama. Tentaram vendê-los, ainda no pasto, em leilão por um preço levemente mais alto do que custa a carne fracionada, congelada, tratada, acondicionada no açougue da esquina.
Sem conhecer com detalhes a biografia do Ministro Minc, mas, por seus atos podemos deduzir que ele se comporta como aqueles ecologistas criados em apartamento, empinando pipas em ventilador e, depois de assistirem alguns programas tendenciosos na TV, já se julgam especialistas. Com esse curriculum já se sentem aptos para ensinar o modus vivendi aos caboclos ribeirinhos das margens do Amazonas.
É como dizer a um aprendiz de motorista que ele está apto porque leu a apostila do Detran, mas que nunca dirigiu nenhum veículo. Quem se atreveria a ser o passageiro? O governo parece estar entregando o comando de um navio a quem apenas brincou de batalha naval em naviozinho de brinquedo na banheira do apartamento.
Para um presidente que exibe um dedo a menos, perdido em acidente quando dava duro numa fábrica não pode ser vergonhoso escolher auxiliares que já tiveram sujeira em baixo das unhas proveniente do trabalho braçal. Aliás, seria apenas coerência. Talvez um auxiliar desses não fizesse a besteira de apreender animais vivos como se fossem caixotes.
Pelo último levantamento quase 10% da boiada já tinha desaparecido. Os bois sobreviventes estavam sendo desacostumados a comer o que estavam habituados. A alimentação por atas, despachos, interpelações, blocos de multas não é recomendada para bovinos. Nem soldados são os melhores vaqueiros. Enquanto esperam o resultado da licitação para compra de pasto, ou a contratação por concurso de quem irá alimentá-los, os bois vão continuar morrendo.
Numa vistoria na fazenda, feita por repórteres, descobriu-se uma grande quantidade de urubus sobrevoando a manada. Uns à espreita, outros se refestelando com os cadáveres. Não sei onde se esconderam os ecologistas que não se manifestam em ver animais morrendo de inanição por incompetência e insensibilidade do Ministério do meio Ambiente. Por que então ainda vigiam este gado? Não seria melhor que relaxassem a vigilância permitindo que ele fosse roubado e aproveitado para alimentar pessoas e não urubus? Mais de um terço do valor da boiada já foi gasto com o cumprimento do mandado de apreensão e o consequente ônus que isto acarretou.
Recuso-me a crer que os ecologistas sejam tão fanáticos a ponto de pensarem: “É bom que isso aconteça, porque assim não falta alimentos à estas aves e elas ficam preservadas da extinção.” Recuso-me, mas não com muita veemência porque, conhecendo a mentalidade de alguns que colocam os animais num nível de importância superior a das pessoas, tudo é possível.
Meu pai há muito tempo já viajou para o outro lado da vida. Na época em que era vivo não havia essa burocracia toda. A vida, animal ou humana, tinha muito valor. Também não se falava em hora extra quando alguém tinha que ajudar uma vaca a parir no meio da noite. A compensação de horas estava subentendida. As pessoas comiam e descansavam depois de ter dado comida aos animais. Se ele visse a barbaridade do boi-pirata, na certa não acharia nenhuma classificação para tal, no recorte de jornal. Provavelmente exclamaria: “A burrice não tem fim”.

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