DVD e Blu-rays voltam a aquecer

Um dos prazeres que o compositor e músico paulistano Keko Gerônimo tem tido nos últimos dias é entrar no site dos Correios para acompanhar a chegada de uma encomenda vinda do exterior. Ele não vê a hora de receber algo que tem tirado seu sono: uma fita em VHS –sim, o precursor do DVD e do Blu-ray –, que adquiriu diretamente do site da banda Mr. Bangle, nos Estados Unidos.

Para quem não conhece, trata-se do primeiro grupo do vocalista Mike Patton, do Faith no More. O detalhe é que, há mais de duas décadas, Keko não tem aparelho para reproduzir essas fitas, o pré-histórico videocassete. Mas fã que é fã nem liga para isso.

O VHS que o músico espera é de uma tiragem “limitadíssima”, como faz questão de ressaltar, que a banda fez de uma live durante a pandemia, a partir de uma fita cassete de 1986, cujas músicas continuavam inéditas. Todas foram regravadas ao vivo com convidados ilustres e lançadas em CD, DVD, Blu-ray e… VHS!

O exemplo de Keko é extremo para mostrar até onde um apaixonado por esses produtos pode ir. Ele coleciona mídias com filmes, shows e séries de TV desde a infância, na década de 1980. E não pretende mudar o hábito nem se desfazer de sua coleção por conta de serviços de Netflix, Globoplay, Amazon Prime, Disney Plus, HBO Max e outros.

O crescimento dos serviços de streaming prometia sepultar para sempre as mídias físicas em DVD e em Blu-ray. Tanto que as distribuidoras multinacionais, como Warner, Paramount e Disney, praticamente deixaram o mercado entre 2018 e 2019, por causa da novidade tecnológica e do pedido de recuperação judicial da Livraria Cultura e da Saraiva, responsáveis por 40% das vendas no setor.

A pandemia, no entanto, provocou um fenômeno curioso: a criação de nichos para cinéfilos que não encontram nesses serviços de streaming filmes clássicos e premiados (ou de arte, como preferem alguns), além dos extras que encantam a todos, com bastidores, comentários e documentários. É um mercado que tem empresas como Versátil, Obras-primas, Classicline, FAMDVD, CPC-Umes Filmes, Line Store e London, entre outras.

Empresários do setor estimam que existem entre três mil e cinco mil de brasileiros que chegam a desembolsar até R$ 2 mil por mês para comprar edições em caixas luxuosas de filmes clássicos e de arte, acompanhadas de miniaturas dos cartazes, pôsteres, trilhas sonoras, canecas e até chaveiros que podem custar de R$ 49 até R$ 295 –muito acima do valor de uma assinatura de um serviço de streaming, na casa dos R$ 20, e com um catálogo de milhares de filmes.

Na Versátil Home Vídeo, uma referência em qualidade e respeito aos cinéfilos, a aposta é em cópias restauradas e extras como documentários sobre diretores e os próprios filmes. A distribuidora é conhecida por coleções de grandes diretores, movimentos ou escolas e gêneros. “Se o mercado virou nicho do nicho, nós somos o nicho do nicho do nicho”, afirma Fernando Brito, que é o curador da Versátil e professor de cinema.

Nos acervos da Versátil, há filmes celebrados e premiados como Jules e Jim (Truffaut), Os amantes (Louis Malle), Os esquecidos (Luis Buñuel), Amarcord (Fellini) e as três primeiras películas de Stanley Kubrick, reunidos em uma só caixa com dois Blu-ray (O grande golpe, A morte passou perto e Glória feita de sangue).

O caminho da Versátil para conquistar esses consumidores foi usar as redes sociais a partir de sua própria loja e e-commerce. Deu tão certo que a sua base de compradores montada nos últimos três anos passa de três mil pessoas, que escolhem entre os seus gêneros preferidos e quase sempre esgotam as mil unidades prensadas dos DVDs e Blu-rays.

Outro exemplo é a FAMDVD, uma loja virtual fundada pelo paulistano Fábio Augusto Martins, que negocia com os grandes estúdios americanos, produz e vende DVDs e Blu-rays de filmes de grande sucesso, porém cultuados. “Hoje, o ‘pulo do gato’ é conseguir atrair os colecionadores que compravam nas lojas físicas. Estamos conseguindo isso”, diz Martins.

O catálogo inclui principalmente Blu-rays, vendidos a R$ 49,90 e R$ 59,90, como King-Kong em três edições diferentes, Sangue negro, O show de Truman, Watchmen e o premiadíssimo brasileiro Cidade de Deus. Nos últimos dois anos, principalmente depois do relançamento do elogiado filme de terror A Bruxa, do diretor de terror Robert Eggers, com exclusividade pela FAMDVD, o cenário melhorou bastante.

No momento, os negócios da FAMDVD estão concentrados em 70% na própria loja virtual e 30% nos marketplaces nacionais. Cada filme tem tiragem de 1 mil unidades. “Nosso comprador é apaixonado e leal, faz de tudo para nos apoiar”, diz Martins. Segundo ele, terror e drama são os que mais saem, mas todo filme dos anos de 1980 ou 1990 vende bastante.

Além de apostarem em edições luxuosas, com muitos extras e com títulos difíceis de encontrar fora do circuito comercial e dos serviços de streaming, cada uma dessas empresas tem um público específico.

A Obra-primas, por exemplo, tem em seu catálogo caixas de encher os olhos, como as da filmografia completa de Jacques Tati e Buster Keaton, com oito discos cada. Para os amantes do cinema trash, a série do cinema trash O Massacre da Serra Elétrica vem em uma caixa com os quatro filmes da série restaurados e inclui ainda cards, um livro, pôsteres e um chaveiro de metal.

A cearense Classicline, que já foi um dos principais fornecedores da Lojas Americanas, foca em clássicos do faroeste de John Wayne, Roy Rogers, Zorro e outros, ou comédias românticas de Doris Day e Brigitte Bardot. Já a CPC-Umes só lança clássicos soviéticos consagrados, principalmente dos tempos do regime comunista. E Line Store e London se dedicam mais ao terror.

Os serviços de streaming conquistaram milhões de consumidores por reunir um catálogo gigantesco com uma boa seleção de filmes e séries. Mas mesmo restrito a um público bem específico, os DVDs e Blu-rays estão resistindo ao avanço tecnológico.

Foto/Destaque: Divulgação

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