Comércio sofre com falências

Deteriorização do cenário econômico acelera ritmo de fechamento de lojas

O comércio começa a despontar como um dos setores com o maior índice de falência e fechamento de unidades. Dados apontam que no primeiro semestre houve incremento de três pontos percentuais nos pedidos de falência -índice de 26% no período.
Segundo o economista chefe do Boa Vista SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), Flávio Calife, o cenário se deteriorou de forma muito rápida. E além de afetar de forma mais nítida o comércio, também avançou em outros segmentos. “Em maio, esse índice estava na média dos outros anos o que sinalizava uma estabilidade. Quando observado o número de janeiro a junho, ele mostrou estar 13,6% (soma de todos os setores) superior ao de 2014”, disse ele.
Calife apontou ainda que enquanto os setores de serviços e indústria apresentaram um leve recuo em falências -na ordem de um ponto percentual na média -, o comércio cresceu. “Em 2014, ele era de 23% e agora está em 26%. Pode parecer pouco perto dos 40% em serviços e os 36% na indústria. Mas na comparação entre eles só o comércio teve crescimento nas falências no primeiro semestre”, explicou.
O economista-chefe não soube precisar quais segmentos dentro de varejo foram afetados de forma mais rígida. Ele disse apenas que não há perspectivas de melhoras nesse cenário. “Na série histórica do estudo, um valor tão alto nos pedidos de falência foi visto só em 2012, quando o indicador ficou em 13,8%”, explicou.
Ainda segundo dados da SCPC Boa Vista, no acumulado de 2015 as falências decretadas subiram 37,1% em relação ao ano anterior. Na comparação interanual – julho/15 contra julho/14 -aumentaram 71,2%.
Uma região já contabilizou o impacto da crise no setor. O Rio de Janeiro apurou o fechamento de 1.280 estabelecimentos comerciais, sinalizando que o aumento do desemprego, a menor concessão de crédito e a alta dos custos operacionais pesaram. Pesquisa do Centro de Estudos do CDLRio (Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro), baseada em dados da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro, indicou que o número equivale a 33% mais do que no mesmo período de 2014. Em todo o Estado foram extintas mais de 3.290 empresas, aumento de 31% em relação ao igual período do ano anterior.
Segundo as entidades que fizeram o estudo, o caso que mais chamou atenção foi o do Centro, na Rua da Carioca, uma das mais tradicionais do comércio da cidade. No local, 33 dos 60 estabelecimentos comerciais fecharam suas portas em menos de um ano.
Em São Paulo ainda não há um número concreto sobre o número de lojas fechadas, mas já é possível sinalizar movimentos similares nas principais ruas de comércio da capital. “Estão fechadas 108 lojas no Brás e esse movimento de vacância foi sentido intensamente este ano. Agora estamos no período de vencimento dos contratos de aluguel e esse número deve aumentar”, afirmou o diretor da Alobrás (Associação de Lojistas do Brás), Jean Makdssi Junior.
Para o porta-voz da Alobrás, além do arrefecimento do consumo, outro fator que levou ao fechamento das lojas foi a valorização imobiliária pela qual a região passou nos últimos cinco anos. “Com a conjuntura atual acreditamos que as negociações devem ser melhores. Se não for, esse movimento de fechamento e de migração para outros locais permanecerá”, lamentou Makdssi Junior.
Na região dos Jardins, zona nobre da cidade de São Paulo, o movimento de encerramentos de lojas também aconteceu, mas segundo a presidente da Aloj (Associação dos Lojistas do Jardins), Rosângela Lyra, não foi tão agressivo.
“Tivemos o encerramento de atividades que foram condicionadas ao desempenho ruim da operação”, disse Rosângela. Para ela, o que impactou a região foi a desaceleração das vendas e não o valor dos custos operacionais. “Não foi percebido uma queda no fluxo de consumidores na região e sim no número de sacolas”, disse.

Alto custo no segmento

A opinião de que os custos operacionais também são os responsáveis pela falência de muitos varejistas foi compartilhada pela porta-voz do Sindilojas-SP (Sindicato dos Lojistas do Comércio de São Paulo), Valquíria Furlani.
Segundo ela, o sindicato viu a demanda de consultas aos empresários aumentar, em busca de melhorar a eficiência de suas operações. “O colapso econômico foi muito rápido e os varejistas não souberam como agir. Cresceu de forma significativa o nosso auxílio em relação a desligamento de funcionários, medidas de redução de custos e para o encerramento das atividades”.
Valquíria apontou que os segmentos de vestuário e de bens duráveis foram as atividades que o sindicato sentiu uma maior demanda. “O terror dessa crise afeta do consumo à cadeia fornecedora, passando pelo comércio. Ninguém está livre disso”, argumentou.
Outro fator deverá deixar a situação ainda mais tensa ao varejista. O setor começa as negociações coletivas para o reajuste salarial. “A categoria pede aumento real de 2,5% e isso pode trazer mais impasses. A conta seria 10% do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) mais 2,5% real, isso pode agravar a situação”, explicou.

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