Amazônia e Economia: é possível conciliar?

Márcio Holland (*)

Falar de meio ambiente para um economista como eu é tema difícil, requer conhecimentos que não são adquiridos na nossa formação profissional e que demandam muita interdisciplinaridade. Meus erros aqui serão inevitáveis, mesmo que não intencionais. Falar da Amazônia como um bioma requer ainda mais cuidados. Trata-se de um dos maiores e mais diversificados biomas do planeta. Coração e pulmão do mundo. Integrar o tema com economia causa interesse para uns e preocupação para outros. Mas não tem como escapar do assunto quando se é um economista localizado no Brasil. Afinal, o bioma Amazônia compreende 50% do território nacional e entrou na pauta e cotidiano dos grandes investidores nacionais e internacionais.

Em um evento virtual na Fundação Getulio Vargas, promovido pela Escola de Economia de São Paulo, tive a honra de mediar um debate entre Carlos Nobre, climatologista respeitado aqui e lá fora, e membro do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática, das Nações Unidas) em 2007, que arrebatou o Nobel da Paz daquele ano, e de outro lado, Denis Minev, grande investidor na Região Norte brasileira e pensador privilegiado do tema. Pude depreender das falas de meus convidados que é possível sim conciliar o meio ambiente com a agenda de desenvolvimento socioeconômico. Mais que isso, que o Brasil tem posição altamente privilegiada neste front teria muito a ganhar.

Mas, como tudo por aqui, há sempre aquela sensação de derrota. Como um país tão biodiverso, com extraordinários biomas como o da Amazônia, além do Cerrado, da Caatinga e da Mata Atlântica, não consegue pensar sobre seu uso estratégico? Como não conseguimos ter uma identidade econômica nacional claramente definida a partir desta vasta e particular riqueza natural mantendo a floresta em pé?

Aumenta a indignação quando se vê que não é falta de recursos financeiros. Basta escolher a Amazônia como tema – melhor, pilar – de desenvolvimento econômico. Há um universo de bioeconomia a se aproveitar de modo altamente sustentável. Mas optamos por negligenciar o tema; optamos pela escolha ideológica errada, de direita ou de esquerda. Optamos por não valorizar a nossa diversidade socioeconômica e cultural.

O bioma Amazônia é multicontinental, multiestadual e incrivelmente pluricultural. No meio da Floresta Amazônica, no extremo leste do estado do Amazonas, distante 372 quilômetros em linha reta da capital Manaus, acontece uma das mais extraordinárias manifestações culturais do país, o Festival de Parintins. Pelas características geográficas do Estado, pode-se levar até 24 horas de barco para chegar em Parintins, partindo de Manaus.

Lá da Floresta Amazônica se extrai mais de US$1 bilhão de dólares anuais em açaí, e a essência do pau rosa que perfuma a elite global através do Coco Chanel, assim como plantações sustentáveis de guaraná e castanhas. Uma psicultura rica e deliciosa poderia abastecer o Brasil, e com qualidade para exportação para os mercados mais exigentes do planeta, poderia emergir entre os rios Negros, Amazonas, Orinoco e seus afluentes. Peixes de qualidade do tambaqui e do pirarucu servem de alimentos e de insumos para indústria da moda, de modo sustentável.

Imagine uma produção diversificada de produtos cosméticos e fármacos, a partir de pesquisa e desenvolvimento focada no uso de óleos essenciais e similares; ou a possibilidade de reduzirmos à metade nossa dependência de fertilizantes.

E não estamos falando de terra arrasada. No Norte Brasileiro, mais especificamente no Estado do Amazonas, tem o Polo Industrial de Manaus, com mais de 400 grandes empresas com elevado nível de governança corporativa, que gera receita tributária para a União, Estado e Municípios na casa de R$ 20 bilhões por ano, além de quase 100 mil empregos diretos. Pouco daqueles recursos se revertem em promoção de microempreendedores amazônicos, em infraestrutura e em pesquisa e desenvolvimento voltado para a bioeconomia e para a diversificação da própria indústria existente. 

O Polo Industrial de Manaus poderia alimentar a diversificação produtiva de todo o estado e a sua própria diversificação rumo a indústria 4.0. Recursos existem. É uma questão de governança; mas, governança é uma questão de escolha de governo. E aí paramos no tempo. 

Como destacou muito bem Carlos Nobre, em nossa “live”, se tivéssemos usados adequadamente os recursos de diversos fundos, como FNDCT ou o FTI (Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Amazonas), e FMPES (Fundo de Fomento às Micro e Pequenas Empresas) em prol da formação de pesquisadores altamente qualificados já seríamos outro país. Ou como lembrou muito bem Denis Minev, mais importante do que recursos financeiros são os recursos humanos, os talentos. Como formar talentos neste Brasil do Norte, por vezes esquecido, por vezes falado com preconceito de quem imagina um país Sul-centrado?

Recursos não faltam. Falta decisão de estado. Além de melhorar a governança dos fundos acima, bioeconomia e Amazônia poderia muito bem ser parte do Plano Safra anunciado anualmente pelo Governo Federal. Uma empresa de pesquisa do calibre da Embrapa, ou a própria Embrapa, deve se empoderar e ganhar dimensões de um grande centro de pesquisa avançada em sociobiodiversidade. Uma MIT da bioeconomia poderia alimentar a alma do Brasil e dar identidade nacional, carimbo próprio, a toda a nossa produção econômica. Se foi possível com a agropecuária no Cerrado, por que não na Amazônia?

Tudo isso aumenta os custos de oportunidade de desmatar e queimar a revelia. Torna os negócios sustentáveis rentáveis, e o emprego formal nestes negócios bem mais vantajoso do que entrar mata adentro e desmatar e queimar. O aproveitamento desta biodiversidade tem tudo para ser nosso motor de desenvolvimento econômico e a Amazônia pode ser nosso norte, sem trocadilho, rumo a um futuro melhor e de respeito aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. O Brasil é bem mais do que ajuste fiscal, regras de teto de gasto e reformas econômicas; mesmo que esses sejam temas importantes. Vamos falar mais sobre isso?

(*)Márcio Holland é professor na Escola de Economia de São Paulo da FGV, onde Coordena o Programa de Pós-Graduação em Finanças e Economia e escreve artigos para o Broadcast quinzenalmente às quartas feiras.

Fonte: Estadão/Broadcast Publicado sob autorização do autor.

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