6 de maio de 2021

Economia, academia e cidadania na Amazônia: considerações emergenciais Parte II

Cláudio Ruy Vasconcelos Fonseca (*) 

Estevao Vicente Cavalcanti Monteiro de Paula (**)  

Dois grandes parceiros do Setor Produtivo –  na busca da diversificação das matrizes econômicas para o Amazonas e região – sempre atentos e colaborativos, levantam neste oportuno artigo algumas das questões que envolvem o desenvolvimento sustentável, nosso modo de trabalhar há mais de um século. Ao polemizar alguns conceitos, os autores jogam luzes para um debate construtivo e inadiável.

Por Alfredo Lopes 

O direcionamento dessas atividades para o desenvolvimento econômico ambiental do Estado passaria para um novo patamar, com comprovações em escala internacional das ações que contribuam para uma economia justa e ambientalmente saudável. Para isto, devemos recorrer ao quarto Paradigma da Pesquisa Científica (uso intensivo de dados) e, de certa forma, adaptá-la para gestão econômica ambiental.

No ano de 1962 Thomas Kuhn no seu livro, “A estrutura da revolução cientifica” apresentou à academia a ideia de que a evolução da ciência a procura da verdade não é gradativa. Ela (a ciência) se desenvolve pela construção e abandono de paradigmas; portanto, existe momento em que a procura de uma verdade sofre mudanças quase que abruptas, envolvendo abandono de paradigmas e adesão a um novo paradigma depois de um período buscando corroborações ao  paradigma anterior, realizando o que se chama de “Ciência Normal”, até que chega a um acúmulo de descobertas, ou testes que podem refutar uma teoria (paradigma) em uso, provocando crises no conhecimento.

Adaptar essa nova ciência da pesquisa cientifica na gestão de desenvolvimento sustentável com pressupostos de lideranças econômicas, sociais e cautelas ambientais, tornará possível desenvolver um processo interativo, dinâmico e com resposta, em tempo real, sobre as demandas das atividades que estão sendo desenvolvidas.

O livro “The Fourth Paradigm: Data-Intensive Scientific Discovery”, editado por cientistas da Microsoft, discute e apresenta as oportunidades da ciência com base na visão do cientista pioneiro de computação Jim Gray.  O laureado cientista Jim Gray, que desapareceu no pacífico em 2007, entusiasmou o mundo científico quando destacou que a nova ciência consiste em capturar dados por instrumentos ou gerados por simulações antes de serem processados por software, cujas informações ou conhecimentos são armazenados em computadores. Os cientistas têm acesso “on line” a estes dados posteriormente. Trata-se da ciência intensiva em dados que deverá mudar a relação entre tecnologia e cidadania.

Os avanços técnicos científicos permitem hoje que dados sejam obtidos, em tempo real, “in loco” a longa distância, e sejam disponibilizados para um pesquisador em qualquer lugar do mundo.  Isto produz uma quantidade significativa de dados e passou a ser chamado de “Big Data”. Imaginemos então se este sistema fosse utilizado para acompanhar “in loco” grandes projetos de investimentos econômicos e sociais na Amazônia. Os órgãos econômicos, sociais e ambientais, poderiam acompanhar o desenvolvimento das atividades nas suas estações de trabalho, com a possibilidade de espelhar a informação para qualquer lugar.

Não é uma tarefa fácil, mas é factível. Existem experiencias positivas como o Programa de Grande escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia – LBA e outros projetos desenvolvidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia-INPA, que utilizam volumes significativos de dados que são manipulados por computadores de última geração. Evidentemente, é preciso adquirir equipamentos de ponta e abrigá-los em um ambiente apropriado, com capacidade de armazenar todas as informações, além do treinamento acadêmico para manipulá-las adequadamente. Sugere-se neste caso, abrir um espaço de diálogo com o Sensipam -Serviço de Proteção da Amazonia, para abrigar as informações, e fazer a gestão no órgão de governo federal, o qual tem uma sede instalada em Manaus com infraestrutura apropriada para gestão e uso de grande número de dados.

O velho, cansado e inoperante Zoneamento Ecológico Econômico, pode ser aprimorado para ser utilizado de forma dinâmica e interativa, no novo processo de gestão econômica ambiental, com modelos que possam auxiliar o investidor no uso eficiente dos recursos naturais. 

A descoberta cientifica com uso intensivo de dados possibilita a integração de inteligências, independentemente do local em que se encontram, para responder perguntas importantes advindas da cadeia de conhecimento de um determinado sistema produtivo.   

O aparato tecnológico, a manipulação de dados, a informação e finalmente a produção de conhecimento depende, fundamentalmente, do uso de inteligências que possam, dentro de uma lógica sistemática, produzir modelos com parâmetros de sensibilidade que possam acusar anomalias com riscos de provocar danos ambientais e sociais não previstos no projeto. 

Diante deste contexto, é possível que se intensifiquem ou se consolidem ações de pesquisas e desenvolvimentos tecnológicos sem a necessidade de grandes infraestruturas  locais, mas, acessando as informações em um grande banco de dados e gerando conhecimento com parceiros distantes, produzindo respostas transdisciplinares.  Não é difícil imaginar que, no futuro, os grandes institutos de pesquisas devam assumir o papel de grandes bancos genéticos e acervos de dados científicos/biológicos. Com este cenário, biólogos, economistas, matemáticos, cientistas sociais, engenheiros, médicos e outros saberes, deverão, cada vez mais, trabalhar em equipes.

O protagonismo do segmento econômico

Quem entende de mercado, serviços e negocio são os setores econômicos, e deles devem sair as demandas para C,T&I, para que sejam  discutidas as formas adequadas para o manejo e uso dos recursos naturais.  Ao mesmo tempo, não cabe aqui culpar a carência de produção de pesquisas aplicadas da academia, pois não é culpa de um profissional de ensino e pesquisa se não há esse diálogo de saberes entre os diversos segmentos econômicos e sociais.

É preciso energia para romper com a inercia de um círculo vicioso, onde se pesquisa sem nenhum planejamento político, chegando-se a conhecimentos básicos que, com ajuda do acaso poderão ser base para alguma aplicação. A formação de jovens professores e pesquisadores orientados por doutores, cujos pressupostos têm base na premissa acima,, ou seja, da pesquisa experimental e teórica, pouca vantagem trará.  O rompimento desse ciclo se faz com a inserção de segmentos econômicos e ampliação de ações acadêmicas em outras esferas produtivas.

Assim, a forma mais apropriada para propor um projeto de desenvolvimento é através de setores econômicos e sociais com identificações de demandas de conhecimentos e tendências mundiais, verificando as exigências de mercado e produzindo um conjunto de perguntas para que a ciência responda.       

É sensível a falta de diálogo entre professores, pesquisadores e especialistas com as empresas e agentes públicos. Essa carência de diálogo transforma a produção cientifica em meros exercícios acadêmicos que fomentam o ceticismo do setor empresarial, agentes públicos e a sociedade em geral. A inversão destes comportamentos implica na necessidade de mudanças do setor empresarial, em provocar segmentos técnicos e científicos focados nos desafios que enfrentam.

É preciso romper com estes diálogos de mudos e analfabetos em Libra, entre os segmentos econômicos e a academia para robustecer as pesquisas com foco em realidade econômica e social, utilizando-se da transdisciplinaridade e interdisciplinaridade com racionalidade ambiental, baseada no empoderamento do ser humano e focada no desenvolvimento social da população da Amazônia. Finalmente, sair do ostracismo para evitar que o domínio do conhecimento sobre a Amazônia, para produzir alternativas de oportunidades de negócios, seja exógeno, e evitar que tenhamos que passar mais cem anos preocupados com o humor de lideranças externas. A economia no Amazonas deve ter identidade própria e competitividade na livre iniciativa do mercado. 

É indiscutível a importância da ciência, sem a qual não se evoluirá e não se terá informação para produzir qualquer modelo de desenvolvimento. Não se descarta o que as Universidades e centros de pesquisas estão realizando atualmente no seus Núcleos de Inovação Tecnológica, identificando projetos e talentos internos que possam iniciar seu próprio negócio e outras iniciativas que contribuam para o desenvolvimento humano. 

Não se propõe colocar amarras naquilo que se produz ou no que deverá ser produzido pela Ciência do Amazonas. As universidades devem ter liberdade de escolhas no desenvolvimento das atividades cientificas, pois, seus objetivos maiores visam consolidar massa crítica capaz de resolver problemas técnicos e científicos. Têm que dar alicerce às inteligências talentosas para que elas sejam capazes de dar concretude às suas ideias e soluções  aos problemas que deverão enfrentar nos exercícios de seus ofícios. Porém, será necessária atualização das grades cognitivas dos cursos para que os alunos tenham contato com os avanços em coletas de dados e manipulação destes, treinando-os para um mundo onde a inteligência artificial será parte do dia a dia.

A presença do Estado – proatividade e transparência

O Estado sofre forte pressão mundial quanto as questões ambientais e precisa adotar medidas urgentes para evitar que essa preocupação mundial se avolume, cada vez mais, transformando-se em crise e, consequentemente, criando-se um ambiente que venha justificar medidas ameaçadoras à nossa soberania. 

Independente das causas, sejam políticas ou não, que estejam alardeando essa crescente preocupação mundial, é preciso que o Estado se apresente com transparência como o agente provedor de políticas e de condições para o seu próprio desenvolvimento. Não se trata de pedir recursos em outros países, trata-se em propor e estimular políticas públicas voltadas para o desenvolvimento do ser humano. Trata-se de apoiar iniciativas promissoras para atrair investimentos no estado.

Os estudos de impactos ambientais devem deixar de ser só diagnósticos para serem um instrumento que mostre com clareza os benefícios sócios econômicos em relação as consequências ambientais, estabelecendo cenários. As informações devem ser valoradas economicamente e ambientalmente.  Os estudos precisam ter uma forte componente econômica incluindo custo, benefício para o estado e para a população do entorno. Ou seja, diante dessa possibilidade de melhorias econômicas e social o que deve ser feito para assegurar o menor impacto ambiental?  Como se pontua a relação custo-benefício do investimento (incluindo o custo ambiental)?

É importante que em audiências públicas sejam explicitadas as informações completas sobre o investimento e consequentes benefícios econômicos, e os impactos diretos e indiretos no meio ambiente e que possam comprometer o ecossistema.  Além disso, Projetos econômicos, planos de negócios devem ter as dimensões ambientais de maneira que se estabeleça custo-benefício de atividade. Era o que gostaríamos de ponderar e submeter ao debate com os segmentos envolvidos.

(**) Cláudio possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pará (1976), mestrado em Ciências Biológicas (Entomologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (1982) e doutorado em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade de São Paulo (1988). Atualmente é pesquisador titular III do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Tem experiência na área de Zoologia, com ênfase em Taxonomia dos Grupos Recentes, atuando principalmente nos seguintes temas: Coleoptera, Biodiversidade, Amazônia, Taxonomia e Passalidae. 

(**) Estevão possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas (1979), mestrado em Engenharia de Estruturas na Escola de Engenharia de São Carlos pela Universidade de São Paulo (1981) e Ph.D. – University of Tennessee (1989) dos EUA. Membro da comissão de revisão da ABNT NBR 7190:1997 – Norma de Calculo e Estrutura de Madeira da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Exerceu atividades de Presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (órgão estadual de meio ambiente), Gerente do Centro Técnico Operacional de Manaus do Sistema de Proteção da Amazônia – SIPAM, Diretor Substituto do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e Coordenador Geral de Pesquisas do INPA. Representou o Estado do Amazonas em comissões técnicas no Peru e Alemanha. Coordenou projetos de pesquisas na área de uso e tecnologia de Madeira, entre outras funções como gestor público de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia. 

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