Alerta vermelho para o boto vermelho

Ao longo de 26 anos, completados em janeiro, 703 botos vermelhos (Inia geoffrensis) foram marcados pelos pesquisadores do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) na RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) Mamirauá, e seu entorno, no município de Alvarães. Mas para que servem estas marcações e qual a sua importância na manutenção da espécie?

“Quando capturamos um animal, ele recebe uma marca feita com nitrogênio líquido, tipo uma tatuagem. O boto é pesado, medido, sexado. É coletado material biológico (leite materno, sêmen, sangue e amostra de pele) e o devolvemos à natureza. A partir disso passamos a monitorar a vida desse indivíduo, verificando aonde vai, com quem vai e o que faz. Com isso montamos o quebra-cabeça da vida desse animal que mais tarde nos ajudará a interpretar certos comportamentos e os parâmetros biológicos da espécie”, explicou a pesquisadora Vera da Silva, coordenadora do Projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia, em parceria com o Projeto Boto, patrocinados pelo Programa Petrobras Ambiental.

A cada retorno ao local, os botos voltam a ser observados pelos pesquisadores (veterinários, biólogos e pescadores) que tentam identificar cada indivíduo anteriormente marcado, ou ainda sem marcação.

Neste mais recente retorno da equipe a Mamirauá, 27 botos foram capturados em nove dias de trabalhos intensos e em condições bastante adversas. Do total apenas três fêmeas, duas delas com filhotes, e 22 machos, um número elevado que chamou a atenção dos pesquisadores. Só onze estavam marcados.

“Como resultado desse monitoramento, foi possível ver o declínio da espécie em virtude de sua captura pelos pescadores da região para transformar a carne do boto em isca para a pesca da piracatinga. Com isso o boto vermelho passou da classificação de ‘dados insuficientes’ para ‘espécie ameaçada’. Isso fez com que, em 2015, o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério da Pesca estabelecessem uma moratória proibindo a pesca da piracatinga no Brasil, a fim de conhecer mais sobre a espécie e analisar o estado real da população de botos na região”, disse.

Perigo de extinção

Mas a moratória encerrou em janeiro de 2000 e o perigo de extinção voltou a rondar os botos vermelhos.

“Nesses quase 30 anos de observações, tanto em Mamirauá quanto nas proximidades de Manaus, só temos visto a população de botos sofrer declínio, não só pela retirada de sua carne para isca, mas pela captura acidental, poluição dos rios, construção de hidrelétricas, e trânsito de embarcações, sempre pela ação do homem, pois a espécie está no topo da cadeia alimentar e não possui predadores naturais”, lamentou.

Os pesquisadores calcularam que, somente entre os animais marcados, houve uma redução de 50% no número de indivíduos. Essa redução é muito perigosa porque a fêmea do boto só tem um filhote por vez, e de três a quatro anos.

“Infelizmente, nesses quatro anos, não foram feitos estudos conclusivos para que se produzisse ou distribuísse iscas alternativas à carne do boto, nem conseguimos resultados robustos sobre o estado de suas populações nos rios da região. Isso faz com que a espécie fique novamente à mercê das capturas direcionadas para servirem de isca se não houver medidas de fiscalização e de controle pelos órgãos ambientais”, alertou.

Vera afirmou que, mesmo durante a moratória, frigoríficos continuaram a vender, de maneira enganosa, a carne de piracatinga.

“Eles apresentam o produto como filé de surubim ou mapará, mas tanto um quanto outro são vendidos em postas redondas, e não como filés”, falou.

Nada para trás

Vera ensinou um pouco mais sobre o boto vermelho e o boto tucuxi. O boto vermelho é o maior golfinho de água doce do mundo, chegando a medir 2m55 e pesar 200 kg, enquanto o tucuxi é um dos menores golfinhos do mundo, não ultrapassando o 1m50 e pesando entre 45 e 55 kg. Ambos só comem peixes.

O vermelho era marinho, vivendo no Pacífico. Quando a cordilheira dos Andes começou a se levantar, entre cinco e dez milhões de anos atrás, alguns indivíduos da espécie ficaram presos nas águas que formariam o Amazonas. Os pesquisadores descobriram que existem três espécies de botos vermelhos.

O tucuxi também era marinho, sendo que do Atlântico. Um dia, quando o rio Amazonas já estava formado, ele adentrou por aquelas águas doces, se aclimatou e aqui ficou.

O vermelho é adaptado para nadar dentro da floresta alagada, desviando de galhos e raízes. O animal, inclusive, consegue nadar para trás.

O tucuxi não entra na floresta alagada, pois sua nadadeira dorsal atrapalharia seu percurso. Vive em canais de rios, lagos, áreas abertas e de maior profundidade.

“Não dá para saber qual dos dois é mais abundante, já que o tucuxi aparece mais, inclusive saltando fora d’água, diferente do vermelho”, detalhou.

O boto vermelho é um animal protegido por Lei Federal. É proibido ameaçar, caçar, capturar ou molestar qualquer espécie de mamíferos aquáticos em águas brasileiras, sejam marinhos ou fluviais.            

“A nós cabe não desistir nunca e perseverar sempre na luta pela preservação dessa espécie”, finalizou Vera.

Fonte: Evaldo Ferreira

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