O lamento e o alento do ensaísta

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Alfredo Lopes  – Coluna Follow-up 28.10.22

Há três anos, precisamente fazem 159 semanas, somos brindados com preciosas reflexões nos ensaios do professor Augusto César Barreto Rocha, UFAM, um pensador atento, lúcido e visionário da questão Amazônica. Neste momento emblemático, ele pondera sobre a celebração da Democracia que se avizinha. Uma eleição conturbada e transformada, propositalmente, pela fabricação facciosa de conflitos, num ambiente de ódio dos que buscam cooptar parcelas dos mais desavisados ou bem intencionados neste estraçalhado Brasil e sem direção.   Um pesadelo de confusões sem propósitos relevantes que faz da ação política a tagarelice da demagogia de alguns e do oportunismo de plantão. 

O lamento do professor Augusto procede e nos concede identificar um alento para seguir adiante: 

Há algo errado no ar. Como votar no próximo domingo? Eu tenho a convicção de meu voto e entendo que ainda temos liberdade para defender nossos votos. Mas estou com a estranha sensação de que já não temos mais a tranquilidade para externar isso da maneira absoluta”.

Pois bem… Seja lá quem se sair melhor dessa refrega, apesar ou por causa de tudo, “é preciso estar atento e forte”, como diz o brado tropicalista, pois nos resta uma certeza: a luta continua em várias frentes por tempo indeterminado e indeterminável, na defesa da Amazônia e de nossa gente, dos descalços, dos famintos e dos excluídos. Contra o desmatamento e a destruição do bioma, das águas, das populações tradicionais e dos direitos constitucionais. Lutar para resguardar a economia bem sucedida que busca aliviar a imoralidade da desigualdade entre o Norte e o Sul do país. Lutar pela manutenção, diversificação, adensamento e regionalização do desenvolvimento, propiciado pelo Polo Industrial de Manaus, da bioeconomia sustentável e aproveitamento racional, legal e participativo dos recursos minerais, pela partilha, nesse contexto, dos créditos de carbono e justo pagamento dos guardiões da floresta.  “A lição sabemos de cór”. Só nos resta viver e aplicar a justiça que ela contém. 

Em seu ensaio, Augusto foi buscar no compositor Lulu Santos a senha do recomeço, a inspiração de retomada da segunda-feira, de nova caminhada rumo à paz da brasilidade e ao acolhimento da fraternidade.  “não haveria luz / se não fosse a escuridão”.  Confira a reflexão. 

As incertezas que nos perseguem

Por Augusto Cesar Rocha UFAM
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Quantas vezes votamos e ficamos com a nítida sensação de que foi um voto equivocado? Minimamente, em alguns casos. Afinal, errar é humano. No jogo democrático ou aparentemente democrático, uma das convenções não escritas é o respeito ao adversário. Quando isso se perde, temos algo errado no ar. Quando um adversário ou frente de adversários desrespeita por completo o “outro” lado, nem em política internacional isso é adequado. 

Uma escalada sem respeito leva a uma guerra. Para quem interessa uma guerra? Certamente não interessa aos “pequenos” – ela interessa aos que possuem poder, dinheiro ou armas em grande quantidade, querendo impor seus desejos pela força bruta. No ambiente democrático há um conjunto de regras escritas e outras não escritas, que prevalecem com um ambiente cultural e de convenções que levam a paz e, desejavelmente, prosperidade a uma sociedade. Não que já tenhamos tido isso no país, mas já estivemos mais próximos desta utopia.

Quando as convenções começam a ser seguidamente desrespeitadas, devemos ter atenção. Muita atenção. Há algo de podre no ar. O jogo político é um jogo de poder e paira sempre a pergunta: quem ganha e quem perde? Se estamos nos censurando ou estimulando a censura: quem ganha, quem perde? É impossível numa sociedade minimamente democrática que um poder como um todo seja desqualificado – quando isso acontece, há algo errado no ar.

A imprensa com pauta única e que define a pauta, colocando em debate o que não interessa e não debatendo o que interessa. Quando isso prevalece em todos os canais, há algo errado. Quando há canais privados que só são “a favor” do governo, há algo errado. Como disseram os Titãs, “há governo, sou contra”. É impossível um governo só acertar, tal qual será impossível só errar. Assim como é impossível uma legenda partidária ser sempre certa ou errada. Só bandidos ou só santos – qualquer dos rótulos são perigosos e inapropriados.

Como votar no próximo domingo? Eu tenho a convicção de meu voto e entendo que ainda temos liberdade para defender nossos votos. Mas estou com a estranha sensação de que já não temos mais a tranquilidade para externar isso da maneira absoluta. Há algo errado no ar. 

Sigamos confiantes de que a democracia vai prevalecer, que respeitaremos mais nossos adversários, que encontraremos um caminho de diálogo, com a preservação da floresta, com o desenvolvimento associado à sustentabilidadena Amazônia, eliminando o risco do fascismo, respeitando a diversidade e a biodiversidade,liderando nosso país com zelo, ciência &tecnologia, que levarão à inovação tecnológica e a produção industrial por aqui. Fora disso, é o caminho das trevas. 

O bom é que mesmo com pouca luz poderemos minimizar as trevas. Estimo que a sua escolha seja do iluminismo contra as trevas e, se não for, tudo bem, continuaremos juntos, trabalhando para um mundo melhor, afinal, como asseverou Lulu Santos, “não haveria luz / se não fosse a escuridão”. Que prevaleça a Luz, o iluminismo e a democracia.

Augusto César Barreto Rocha 

(*) Esta Coluna Follow-up é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras no Jornal do Comercio do Amazonas, sob a responsabilidade do do CIEAM, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, consultor da entidade e editor geral do portal BrasilAmazoniaAgora.

Alfredo Lopes

Alfredo Lopes

Escritor, consultor do CIEAM e editor-geral do portal BrasilAmazoniaAgora

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