Qual o papel da Amazônia?

Augusto Cesar Barreto Rocha (*)

Cada país e região tem uma trajetória e uma narrativa para refletir sobre a sua história, conforme Yuval Noah Harari escreveu. Podemos afirmar para nós mesmos que a Amazônia é uma potência da natureza ou uma área abandonada. Podemos percebê-la como um paraíso para ser ocupado, destruído, removendo sua vegetação e conquistado ou podemos percebê-la como um manancial de oportunidades que dependem de muito esforço e ciência, cuidando de cada centímetro com respeito para colher riquezas no longo prazo. Até aqui há um rastro de sangue e destruição de conhecimentos tradicionais ou uma história de sucesso? 

A história percebida e contada para nós mesmos definirá nosso futuro. A história pela qual estamos dispostos a lutar em conjunto constrói um futuro de trevas ou um futuro próspero. No meio destes extremos, há uma infinidade de possibilidades. Acontece que há uma grande oportunidade sendo construída a cada instante nas histórias dos povos e, tipicamente, há um olhar de autodeterminação ou um olhar de auto subordinação – necessária ou não. Onde nos percebermos no presente, definirá nosso futuro. O que queremos para o papel futuro da Amazônia?

A oportunidade da Amazônia para o futuro envolve a globalização, com os múltiplos parceiros da história do Brasil, fazendo uso sustentável dos recursos da floresta, interrompendo sua destruição em todas as dimensões, aproveitando seu potencial com ciência, desenvolvimento próprio e cooperado de tecnologias e, como consequência, influenciar e lucrar com as cadeias globais de logística e economia. Temos capacidade de fazer isso. Esta é a história que percebo. Temos um rastro de destruição e de construções. Precisamos aprender com os acertos e erros.

A direção onde a Amazônia não será dos brasileiros, mas uma colônia do século XXI, disfarçada de potência do alimento ou dos minérios, onde as possibilidades são vagarosamente frustradas, por meio dos disfarces de sempre, onde lideranças nacionais se vendem para estrangeiros, fazendo o que não nos interessa, levará a uma repetição dos fracassos. Como perceber isso no desenrolar da história é o desafio que está posto para todos nós – a cada minuto.

A superação dos ganhos fáceis talvez seja a grande questão, pois neles está o comércio pelo comércio, sem ciência, sem indústria, sem esforço para ganhos no prazo mais longo. A ausência de empreendimentos focados no longo prazo leva a um grande conjunto de ilusões, que podem até fazer sentido em uma condição controlada e restrita, mas certamente não levam a uma prosperidade real. Diferenciar e construir é o desafio posto.

Como sair das armadilhas dos ganhos fáceis, dos alinhamentos automáticos e das subordinações desnecessárias? Uma fuga do pop do agro ou do gado, não pelo seu importante papel de alimentação, mas a fuga de sua capacidade destruidora. A diferença entre o remédio e o veneno é a dose. A solução do futuro da Amazônia surgirá de uma inquietação e incerteza, com uma posição pelo interesse nos curto e longo prazos.

Não há saída próspera sem um balanceamento, sem a preservação e sem a inserção nas cadeias globais de tecnologia por nosso próprio controle e interesse. Precisamos desistir de seguir como colônia, em pleno século XXI. Fazer do agro ao tech, do plantio recuperador às plataformas globais, do crédito do minério ao crédito de carbono. Como empreender este “todo” é o que precisamos entender, abandonando os conhecidos caminhos destruidores.

(*) Professor da UFAM. 

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