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Processo de prototipagem

Daniel Nascimento-e-Silva, PhD

Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

A análise de centenas de experiências de prototipagens relatadas pelas literaturas científicas, técnicas e tecnológicas mostra que elas configuram, de modo geral, um esquema processual. Isso quer dizer que a prática da prototipagem pode ser considerada um processo. Um processo, por sua vez, pode ser entendido como todo sequenciamento lógico de etapas, com início, meio e fim especificados e identificados, utilizado para a geração de um determinado produto quando a última de suas etapas for concluída. Isso inclui desde as chamadas prototipagens rápidas quanto as mais longas. A visão da prototipagem como processo permite que etapas aparentemente desconexas entre essas inúmeras experiências possam ser organizadas de forma genérica para que possa compreender uma grande lógica que parece orientar e sustentar a materialização dos protótipos. Como já mostramos inúmeras vezes, um protótipo é todo produto materializado que ainda não foi considerado aprovado nos testes a que deve se submeter para que os benefícios que deve entregar possam ser utilizados para suprir a necessidade para a qual foi planejado. Assim, as grandes etapas do processo de prototipagem seriam 1) a construção do conceito do protótipo, 2) a estrutura analítica do protótipo, 3) a primeira versão panorâmica do protótipo, 4) adição dos componentes do protótipo, 5) testes localizados dos componentes e 6) finalização do protótipo.

A primeira etapa é a construção do conceito do protótipo. Um conceito de protótipo, com o uso da engenharia de produto, é tudo aquilo que um artefato precisa fazer para suprir uma necessidade. Nesta etapa, o conceito é uma imagem mental consubstanciada em dados, informações e conhecimentos. Não é apenas o que a literatura científica diz. Também precisa dar conta de aspectos como embalagem, canais de distribuição e garantia, dentre vários outros. Um protótipo de produto tecnológico educacional, por exemplo, precisa considerar a idade dos usuários, níveis de habilidades comunicacionais, cognitivas, lógicas, matemáticas etc.

A segunda etapa é a primeira tentativa de transformar essa imagem mental em imagem física, constituída naquilo que chamamos de estrutura analítica do protótipo. Isso significa que ainda se trata de uma representação do conceito, mas também não se pode negar que já é um caminho bastante adiantado em direção à sua operacionalização. Essa estrutura analítica é um desenho, um esquema, como as matrizes de entidades-relacionamentos do desenvolvimento de softwares. É aqui que todos os dados, informações e conhecimentos começam a fazer sentido e também podem, muitas vezes, começar a serem feitos os primeiros testes, ainda que sejam meramente lógicos.

A terceira etapa é a construção da versão panorâmica do protótipo. É o que o método científico-tecnológico chama de materialização da ideia ou simplesmente primeira tentativa de encapsulamento de conhecimentos. A sensação panorâmica é decorrente do fato de que são construídas apenas as suas partes maiores, mais salientes, que darão identidade ao protótipo. Se é um produto eletrônico, são montadas apenas as partes mecânicas, sendo deixados de lados os componentes eletrônicos, fiações e interconexões. Se é uma sequência didática, são apresentados os contornos apenas das etapas e seus requisitos, deixando-se de lado as especificidades como objetivos específicos, programação operacional, avaliação da aprendizagem e assim por diante. O que os cientistas pretendem nessa terceira etapa é ter mais uma visão funcional do que a funcionalidade propriamente dita do protótipo.

A quarta etapa é dita no método científico-tecnológico de sintonia fina porque se caracteriza pela adição de todos os demais componentes, subcomponentes e respectivas peças. Essa etapa é executada a partir do grau de aceitação do desempenho panorâmico da etapa anterior. Por exemplo, se os cientistas considerarem satisfatórios os aspectos conceituais incorporados, podem adicionar, aqui, os aspectos funcionais, relacionais e até mesmo os ambientais. Se é um software, por exemplo, podem ser adicionadas as bases de dados, cálculos e apresentações de resultados. Vale destacar, aqui, que protótipos complexos, como robôs industriais, são subdivididos em inúmeros subprodutos, cada qual sofrendo também os mesmos procedimentos aqui descritos, em todas as suas etapas.

A quinta etapa é constituída pelos testes localizados dos componentes do protótipo. A finalidade é saber, por exemplo, se os cálculos de pressão arterial estão sendo feitos de forma satisfatória, no caso de protótipo de aplicativo de saúde, ou se os cálculos de um sistema de avaliação do aprendizado de uma sequência didática realmente estão funcionando de acordo com o esperado. Como os exemplos mostram, os testes são restritos ao âmbito de sua posição na estrutura analítica do protótipo. São apenas uma garantia de que a estrutura mental que começou o processo foi completamente materializada. 

A sexta e última etapa é a finalização do protótipo. O que caracteriza essa etapa é a documentação que garante que a imagem mental foi materializada e que está apta a receber os testes nos quais deve ser aprovada para se converter em produto. É tanto um estágio de formalização legal e processual quanto de entrega de uma etapa para o início de outra. Podem se revestir de adições extras, como cores, aromas, acessórios etc.

A prototipagem como processo ajuda os cientistas a transformarem os conhecimentos que normalmente produzem em produtos capazes de serem utilizados para fins que nem imaginam. Um exemplo foi uma tese de doutorado em que a banca não tinha ideia de que utilidade prática teria a descoberta do escopo das principais etapas da elaboração do conceito de um produto. Ficaram surpresos ao saberem que tinham em mãos uma importante ferramenta para auxiliar milhares de pessoas e organizações a transformar imagem mental em imagem visual. Isso vamos mostrar depois.

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