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Estados Unidos, China e a armadilha de Tucídides

A escalada das tensões entre China e Taiwan na Ásia Oriental revela, outra vez mais, a natureza conflitiva da política internacional num cenário de reposicionamento das forças militares das potências regionais dentro da sua zona de controle estratégico. O longo conflito regional, cuja origem está na conclusão da Guerra Civil travada por nacionalista e comunista, conta com a ingerência de potências estrangeiras, sobretudo às ocidentais que, à época, espoliavam o território chinês no assim chamado Século da Humilhação. As hostilidades regionais e o grau de interferência ocidental na região deram alguns contornos especiais ao conflito entre o continente e a ilha e os acontecimentos recentes só reforçam esse fato.

A crescente autonomia chinesa e a sua transformação em superpotência são fenômenos históricos sem precedentes na política internacional. A velocidade da expansão chinesa e os desafios internacionais apresentados pela mais nova superpotência é o objeto de análise da obra do cientista político Graham Allison, em “A Caminho da Guerra: os Estados Unidos e a China conseguirão escapar da Armadilha de Tucídides?”. Publicado em 2017 e traduzida para língua portuguesa em 2020, o estudo tem como propósito examinar a Armadilha de Tucídides. Nas palavras de Graham Allison, a Armadilha de Tucídides, uma constante na história mundial, tem a seguinte definição: “quando uma potência em ascensão ameaça substituir a potência dominante, os sinos alertam o perigo iminente [da guerra]. China e Estados Unidos estão em rota de colisão – a menos que ambos tomem medidas difíceis e dolorosas para evitar uma guerra”.

O estudo de Allison, obviamente, não é sobre a China e as suas realizações geoestratégicas das últimas décadas. É, antes de tudo, sobre os efeitos da ascensão chinesa nas relações internacionais e nas relações com os Estados Unidos, a maior potência bélica do mundo. O foco da análise tampouco é traçar uma profecia sobre a inevitabilidade da guerra, mas, sim, reconhecer ”o estresse nas estruturas tectônicas que Pequim e Washington devem controlar para construir um relacionamento pacífico”. Em outras palavras, identificar as causas do conflito (atual e futuro) e calcular milimetricamente as soluções para a paz, afinal estamos diante duas superpotências nucleares capazes de aniquilar a espécie humana num estalar de dedos.

A Armadilha de Tucídides é uma clara referência “à confusão natural e inevitável” da crise e da substituição de hegemonias. E, neste caso, a expansão chinesa e o declínio relativo dos Estados Unidos são indicadores importantes da nova armadilha do sistema internacional. O exponencial crescimento econômico combinado com o poderio político-militar já são preocupações concretas para os norte-americanos. Na avaliação de Allison, “Estados Unidos e China podem igualmente evitar a guerra, mas só se conseguirem internalizar duas duras verdades”, a saber: “a guerra entre EUA e China nas próximas décadas é não somente possível, como também muito mais provável do que hoje se admite”. O reconhecimento da gravidade da situação e do seu potencial destrutivo pode, no seu devido tempo, criar pontes de diálogo entre os países e os organismos internacionais por meio dos instrumentos diplomáticos.

O aprendizado em relações internacionais é circular e errático. Não há necessariamente uma evolução, um salto qualitativo de um patamar civilizatório para outro. Sim, somos capazes de repetir velhos erros e velhos acertos. Na prática, somos governados pela incerteza, pelo aleatório e pela fortuna. É por isso que Allison é taxativo ao afirmar que “para escapar da Armadilha de Tucídides, precisamos estar abertos a pensar o impensável – e imaginar o inimaginável. Evitá-la, nesse caso, exigirá nada menos que curvar o arco da história”. Em momentos de crise e de transformações profundas no sistema internacional jamais podemos perder de vista a lição do monsenhor Josemaría Escrivá, um dos mais importantes santos da Igreja do século XX: “Todas las guerras comienzan mucho antes de que se dispare la primera bala y continúan mucho después de que la última haya cumplido su cometido”.

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