Encontro de notáveis — Parte III

Àquela noite prometia ser longa. O professor Caraíba caminhou até o banheiro. Abriu a torneira da pia e com as duas mãos jogou um pouco de água fria no rosto. Quando abriu os olhos, tudo a sua volta se mexia. Quis voltar para a cama, procurando apoio com as mãos, e não conseguiu. As pernas estavam bambas e com o corpo inteiro caiu no chão, num tremor de morte. Os notáveis, indiferentes à dor e ao sofrimento humano, continuavam a discursar.

— “Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro” — disse Confúcio. — “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais” — falou Epicuro. — “Os homens temem a morte, como as crianças temem a escuridão” — completou Francis Bacon. 

Sêneca, concordando com o filósofo empirista, disse: — “Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte”. E completou: — “A ignorância, ou melhor, a demência humana é tão grande que alguns são levados à morte justamente pelo medo da morte”.

São Marcos, que também estava presente na reunião, pediu a palavra e disse: — “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado.” (16:16) E completou: — “E estes sinais acompanharão aos que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e estes serão curados.” (16:17-18)

Santa Teresinha do Menino Jesus concordando com as palavras do Evangelista, disse: — “A santidade não está nesta ou naquela prática, ela consiste numa disposição do coração que nos torna humildes e pequenos nas mãos de Deus, conscientes de nossa fraqueza, e confiantes até a audácia na sua bondade de Pai”. E completou: — “A vida é apenas um sonho, em breve acordaremos”.

São Paulo não deixou por menos e também disse: — “Cristo morreu pelos nossos pecados, como está escrito nas Escrituras Sagradas; ele foi sepultado e, no terceiro dia, foi ressuscitado, como está escrito nas Escrituras.” (1Co 15.3-4)

Como cristão fervoroso e praticante Thiago de Melo declamou: — “Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança”.

Concordando com o “Poeta da Amazônia”, Pablo Neruda disse: — “Só um louco pode desejar guerras. A guerra destrói a própria lógica da existência humana”. E completou: — “E a minha voz nascerá de novo, talvez noutro tempo sem dores, e nas alturas arderá de novo o meu coração ardente e estrelado”.

Numa espécie de transe, Santo Agostinho começou a discursar: — “A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do caminho. Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo. Me deem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram. Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador”. E concluiu: — “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”.

Fo quando Sócrates pediu a palavra e disse: — “Se a morte fosse mesmo o fim de tudo, seria isso um ótimo negócio para os perversos, pois ao morrer teriam canceladas todas as maldades, não apenas do seu corpo mas também de sua alma”. E finalizou: — “Bem, é chegada a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem segue melhor caminho, se eu, se vós, é segredo para todos, menos para a divindade”. 

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