Cindacta IV – Meu desafio

Um verdadeiro desafio. Recordar fatos merecedores de constar da linha histórica de uma Organização Militar seria relativamente fácil e prazeroso. Escrever um texto que representasse fidedignamente o contar das horas de um gigante de tecnologia e operacionalidade da estirpe do CINDACTA IV ultrapassa os limites do humano para transformar-se em missão impossível. É recordar minha fragilidade. Despertar insegurança. Reconhecer a impotência. Minha incompetência para cumprir a missão.

Como celebrar a figura mitológica de Ícaro e o sonho de voar? Como enaltecer Leonardo Da Vincci e tantos outros sonhadores, até chegar a Alberto Santos Dumont, que fez voar o mais pesado que o ar. Como viver os sonhos dos bandeirantes da aviação, desbravando os Céus amazônicos para, primeiramente conhecer e, numa sequência natural, ocupar a floresta até então impenetrável e virgem. Melhor declarar minha incompetência.

Naturalmente, esqueceria do General Francisco Orellana e da sua indescritível aventura, desde Guaiaquil até o Oceano Atlântico, atravessando os Andes para invadir as águas do rio oceano Solimões/Amazonas e despertar a cobiça Europeia, trazendo em sua esteira o ciclo da borracha e riquezas que se perpetuaram e encantam o nosso olhar, a exemplo do magnífico e incomparável Teatro Amazonas. 

Certamente deixaria de lado a criação do Correio Aéreo Nacional, o voo pioneiro dos Tenentes Lavénere Wanderlei e Augusto Montenegro Filho a bordo do avião “Curtiss Fledgling” K263, conhecido como “Frankenstein”, partindo do Rio de Janeiro para são Paulo.

Daria pouca atenção ao voo histórico do Rio de Janeiro para Goiás realizado pelo Tenente Aviador Faria Lima, construindo pontos de referência em cada cidade pela qual passava, criando os primeiros pontos fixos de orientação e consequentemente, uma rota de voo, considerando que voar naqueles tempos, se fazia pelo método VOR, isto é, Voar Olhando os Rios, o famoso “olhômetro”, em uma região inóspita e abandonada à própria sorte e, pior dos crimes, imperdoável seria olvidar a figura mítica e lendária do conhecido “Brigadeiro” Eduardo Gomes, cuja caminhada ultrapassou os limites da Força Aérea para inserir-se no contexto histórico cultural da Nação Brasileira   

O tempo passava. Os desafios aumentavam. A segurança do voo era mínima. O sonho, o espírito desbravador e a criatividade hibernavam ou cochilavam, mas não dormiram o sono profundo. Alertas ficaram. A procura de soluções instigava o profissional.

Vieram os equipamentos instalados em função da segunda guerra mundial. Logo depois, os primeiros voos de inspeção, até que, em 1973, durante a gestão do Tenente Brigadeiro do Ar Joelmir Campos de Araripe Macedo criou-se o conceito CINDACTA. O primeiro, em Brasília, o segundo em Curitiba e o terceiro em Recife.

Veio a reboque o ambicioso projeto SIVAM, nascido com a Exposição de motivos número 194, do Ministério da Aeronáutica, da Secretaria de Assuntos Estratégicos e do Ministério da Justiça, aprovado pelo Presidente da República em 21 de setembro de 1990. Recordar da dinâmica desse processo de uma só vez, em curto espaço temporal por pouco não me fez claudicar.

De que forma fazer entender a você, que me dedica parte do seu tempo nesta leitura, a coincidência histórica de ser o Tenente Brigadeiro do Ar Marcos Antônio de Oliveira, um mineiro como Alberto Santos Dumont, o encarregado de fazer vingar e levar a bom termo o que ficou conhecido como Projeto SIVAM, rebento pulsante de um sonho futurista que abriu as portas da Amazônia para um novo conceito de Controle do Espaço Aéreo?

Bastaria trazer à memória que o nosso Brasil, em toda a sua gloriosa existência, foi pátria de genialidades ilustres, reconhecidas mundialmente pelos seus feitos, tais como Machado de Assis, Rui Barbosa, Oswaldo Cruz e Santos Dumont, dentre tantos outros? 

Entendi que poderia reproduzir a caminhada do Sistema de Controle do Espaço Aéreo desde a sua fonte, nascente de glórias pessoais em situações das mais inusitadas, até as de concepção e implantação de projetos ambiciosos e da mais revolucionária tecnologia.

Nossa viagem poderia iniciar com Mário Nazareth de Souza, operador da Panair do Brasil que, por sua perspicácia e rápida atuação, impediu a queda do C47 17108, da Naval Air Transport Service, transportando 32 militares norte-americanos, o que lhe rendeu os louros de receber “Carta de Louvor” do Vice-Almirante Willian R. Munroe, Comandante da IV Frota da Marinha Americana.

Tempo houvesse, falaria do primeiro acidente aéreo fatal registrado na região, ocorrido em 17 de fevereiro de 1912, com o do piloto Italiano Ângelo Bigliani, pilotando o aeroplano AUDAZ; do famoso acidente com o 2968, avião da FORÇA AÉREA BRASILEIRA, que deixou a frase “EU SABIA QUE VOCÊS VIRIAM” como marca maior de atuação impecável do Serviço de Busca e Salvamento, o nosso SAR; do Marco Histórico existente em Belém do Pará, a primeira Estação de Radiocomunicação terra-ar da região, contendo equipamentos e documentação histórico-cultural da maior importância para o CINDACTA IV e para a FORÇA AÉREA BRASILEIRA. Esses fatos reforçavam a certeza de que algo de maior amplitude e magnitude precisava acontecer em termos de segurança de voo.  

Retornemos, porém, ao Projeto SIVAM. Tempo houvesse, ouso repetir, recordaria máquinas caminhando mata adentro para fazer surgir uma clareira, aos poucos ocupada por pilares de apoio que se sucederam para formar o alicerce da imponente arquitetura que hoje observamos. O passo a passo de tão importante jornada surgiria diante de nossos olhos para que visualizássemos, vocês e eu, equipamentos de alta tecnologia carregados em aeronaves militares para os recônditos dos mais impensáveis da floresta virgem ou, em não poucas vezes, sobre ombros caboclos da terra, em locais quase inacessíveis ao homem. Trabalho árduo, bem próximo do insano, que de nada ou pouco valeria se distante da qualificação adequada para sua utilização.

Prato feito, mesa posta. Projeto SIVAM… Uma realidade. Os equipamentos. A tecnologia. Qualificação profissional concluída. Mãos à obra. 15 de julho de 2002. A ativação do Centro de Controle de Área do ainda Serviço Regional de Proteção ao Voo de Manaus trouxe a presença do então Presidente Fernando Henrique Cardoso, que em poucas palavras, o declarou ativado.

O tempo passou célere e, aos 23 dias do mês de novembro de 2005, o pedaço de floresta transformado em gigante de corpo e alma abriu os olhos, levantou e, de pé, caminhou sua primeira passada, sofreu sua derradeira mutação e se fez diferenciado no contexto da nossa Aeronáutica. Diferenciado, tão somente. Nem melhor, nem pior. Na tecnologia de informática de ponta, na manutenção dos radares de última geração, nos equipamentos do Centro de Controle do Espaço Aéreo, nas Informações Aeronáuticas, na Meteorologia, nas Comunicações e nos projetos de energia solar em Surucucu e Tiriós, dentre tantos outros já desenvolvidos.

Seria preciso dizer tudo isto e, perdoem-me, caros leitores.  Em tão diminuto espaço temporal, eu não conseguiria.

Abraçado à incapacidade para expressar meus pensamentos sobre o papel das Forças Armadas na Amazônia, neste caso específico representada pela Força Aérea Brasileira, repouso, impotente, a caneta sobre a mesa, e desisto de enaltecer o CINDACTA IV, magnífico gigante a ocupar mais de sessenta por cento do território nacional, com competência reconhecida no Brasil e no mundo pela qualidade do trabalho, desempenhado 24 horas por dia, mês a mês, ano a ano, onde pulsa trabalho, dedicação e se respira vida, no promover tranquilidade ao usuário da aviação transitando pelos céus do Brasil, na certeza de que, à sua retaguarda, atuam profissionais comprometidos, a proteger, com maestria de regente sinfônico, a imensidão do espaço aéreo amazônico.

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