Análise bibliométrica sobre Veículos Elétricos (VE)

O barulho dos motores, o fedor do combustível e a poluição atmosférica fazem parte de nossa cultura há mais de um século. Porém, os VE prometem mudar a forma como nos locomovemos. Com seu torque instantâneo e operação silenciosa, eles oferecem uma experiência única. Além disso, não emitem gases poluentes, contribuindo para cidades mais limpas e qualidade de vida. Tendo em vista a sua importância, este artigo faz uma análise bibliométrica sobre os VE. Então aperte os cintos e embarque nessa viagem rumo ao que pode ser o futuro da mobilidade.

Segundo a ABVE (Associação Brasileira de Veículo Elétrico), em 2023, no Brasil, foram emplacados 93.927 veículos leves eletrificados <http://tinyurl.com/cfy9mh42>, um aumento de 91% em relação com 2022. Destacaram-se os Estados de SP (32.787 unidades; 34,9%), RJ (6.901; 7,3%), MG (6.413; 6,8%), DF (6.401; 6,8%) e SC (6.314; 6,7%). Quanto aos fabricantes, chama a atenção que os quatro principais são asiáticos: a japonesa Toyota (21.042 unidades) e as chinesas BYD (17.943), Cherry (11.835) e Great Wall Motos (GWM) com 11473 veículos vendidos, totalizando cerca de 62.293 unidades, o que representa cerca de 66,32% do total das vendas.

Apesar do grande atraso e de poucos terem acesso aos VE no Brasil, com o crescente interesse em adotar estes veículos, torna-se fundamental realizar estudos sobre essa tecnologia emergente. Assim, uma análise bibliométrica permitirá mapear de forma abrangente a produção científica existente sobre os VE, identificando os países, as instituições e os autores que mais têm contribuído para o avanço desse campo. Além disso, a análise bibliométrica poderá revelar quais são as áreas de estudo, os jornais e as tecnologias promissoras a serem exploradas. 

Para começar, é preciso escolher uma base de dados científica que seja gratuita, acessível a qualquer cidadão, atualizada, contendo vários tipos de publicações e com capacidade de fornecer relatórios e estatísticas em tempo real.  Entre os bancos existentes, o melhor com esse perfil chama-se lens.org, uma base de dados que opera com as mais modernas tecnologias disruptivas, tais como Big Data e IA. Para se ter ideia, atualmente, essa base contém 268.089.561 publicações científicas, 153.661.598 registros de patentes e 34,5 milhões de autores, dos quais 4,2 milhões podem ser encontrados pelo seu número de ORCID. Além disso, essas publicações representam pelo menos 95 jurisdições e 193 países com bases afiliadas.

Para começar, a análise será dividida em duas partes, a primeira por publicações científicas e a segunda por patentes que será abordada no próximo artigo. Como o autor já tem conta nesta plataforma, será disponibilizado os dois relatórios digitais ao longo dos artigos. 

A plataforma Lens.org possui 145.129 publicações com as palavras-chave “Electric Vehicle”. No entanto, para tornar a busca mais específica, foram aplicados filtros de título e resumo contendo os termos, resultando em 43.175 publicações sobre o tema central. Depois, foi refinada a seleção para tipos de documentos científicos e técnicos como artigos de periódicos, artigos de anais de conferências, livros, capítulos de livros, dissertações, padrões e relatórios. Dessa forma, obteve-se um conjunto de publicações focadas em VE para análise. Depois, foi definido o período de busca entre 1800 e 2024 e gerados gráficos para produzir este relatório <https://link.lens.org/bvXQTQI5Fp>, no qual é possível interagir e observar os seguintes resultados:

1.1 São cerca de 39.046 publicações contendo título e resumo com as palavras “Electric Vehicle”. No geral, a maioria dessas publicações está relacionada com artigos publicados em jornal científico (23486; 60,15%) ou artigos publicados em anais de conferência (12440; 31,85%), o que representa 92% dos trabalhos científicos;

1.2 A publicação mais antiga sobre VE foi feita em 6/02/1926 na revista Nature por Charles W. Marshall, com o título “Electric Vehicle”. Neste artigo, o autor comparou no Reino Unido os custos dos VE, a gasolina e a vapor, demonstrando que o VE era mais barato para operar, desde que a capacidade de carga estivesse entre 2 e 5 toneladas. Para cargas menores que 2 toneladas, o veículo à gasolina seria mais econômico. Porém, os VE eram preferíveis aos movidos a cavalos;

1.3 O artigo mais citado foi publicado na IEEE Transactions on Power System, por Clement-Nyns et al. (2010) com DOI 10.1109/TPWRS.2009.2036481. O tema é “The Impact of Charging Plug-In Hybrid Electric Vehicles on a Residential Distribution Grid” e ele já foi citado 2135 vezes em Papers e sete em patentes. Em grande síntese, o texto discute o impacto da carga dos VE plug-in híbridos na rede de distribuição de energia. Analisa perdas de potência e desvios de voltagem causados pela carga não coordenada desses veículos;

1.4 Os 10 países mais ativos em número total de publicações são a China (8968 publicações), os EUA (4765), a Índia (1854), o Reino Unido (1622), a Alemanha (1370), o Canadá (1220), a Coreia do Sul (1067), a Itália (837), a Austrália (832) e o Japão (825). O Brasil aparece no 24º lugar com 243 publicações;

1.5 As 10 instituições que mais publicaram foram o Beijing Institute of Technology (713 publicações), a Tsinghua University (568), a Chongqing University (397), a Jilin University (384), a Tongji University (343), o Electric Power Research Institute (341), a Shanghai Jiao Tong University (329), a Southeast University (323), a University of Michigan (312) e o Harbin Institute of Technology (283). Este resultado evidencia a predominância de universidades chinesas na lista, com 8 instituições, enquanto apenas o Electric Power Research Institute e a University of Michigan representam os EUA. Outro dado relevante é que, das cem instituições que mais publicaram, nenhuma é brasileira, destacando o tamanho do atraso intelectual e científico do Brasil nesse campo que é considerado estratégico e prioritário em vários países;

1.6 Os 10 principais autores, em termos de número total de publicações, são: o indiano Bhim Singh (110 publicações), o chinês K.T. Chau (85), o chinês Hongwen He (84), o japonês Hiroshi Fujimoto (80), o chinês Zhenpo Wang (76), o iraniano Ali Emadi (70), o belga Joeri Van Mierlo (67), o chinês Minggao Ouyang (64), a chinesa Hong Chen (55) e o francês Alain Bouscayrol (54). Observa-se a predominância de autores oriundos da China, com 5 pesquisadores na lista. Não há autor brasileiro entre os cem melhores;

1.7. As dez áreas de estudos envolvendo os VE são a Engenharia (21970 publicações), a Ciência da Computação (20101), a Engenharia Automotiva (18781), Potência Elétrica (12059), Engenharia Elétrica (10961), Física (10038), Mecânica Quântica (9048), Bateria (Eletricidade; 8408), Voltagem (4809) e Teoria do Controle (4558). Assim, algumas das tecnologias promissoras poderiam ser baterias de alta capacidade e baixo custo, sistemas de recarga rápida, células de combustível à hidrogênio, sistemas de gestão térmica e desenvolvimento de materiais mais leves;

1.8 Os cinco principais jornais são: Energies (1177 publicações), World Electric Vehicle Journal (530), Energy (510), Applied Energy (499) e IEEE Access (467).

Com base na análise bibliométrica realizada sobre VE, destaca-se o notável crescimento nas publicações científicas, passando de 124 em 2005 para 3673 em 2023. A China lidera como o país mais prolífico, seguida pelos EUA e Índia, com universidades chinesas liderando em número de publicações, refletindo possivelmente os investimentos expressivos em P&D&I. O Brasil enfrenta um atraso significativo nesse campo estratégico, sem presença entre as 100 principais instituições e entre os cem autores. A conclusão enfatiza que, apesar dos desafios, os VE representam o futuro da indústria automotiva. Para evitar o status de “lata velha”, a mentalidade da elite brasileira precisa mudar, implementar políticas e investimentos em P&D&I e Educação para acelerar a transição energética na mobilidade urbana.

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