A volta da geopolítica

As ofensivas militares da Rússia contra o território ucraniano demonstram, mais uma vez, que os imperativos da geopolítica são determinantes na configuração e hierarquização do poder nas relações internacionais. Por geopolítica, entenda-se a doutrina da projeção de poder, isto é, calcular estrategicamente a relação entre poder e espaço no âmbito doméstico, no interior das nações, ou na arena internacional, em temas como defesa, segurança ou fronteiras. Na política internacional, a geopolítica é ao mesmo tempo uma doutrina dos Estados nacionais e um modo de agir em nome da expansão territorial ou da contenção das ameaças externas.

Desde o fim da União Soviética, a Rússia se tornou refém dos imperativos estratégicos uma vez que estava contida e incapaz de reagir à expansão da única superpotência, os EUA, e de seus parceiros estratégicos, os países da União Europeia reunidos na Otan, a maior aliança militar da história. O recuo político e econômico também teve um grande impacto no poder militar russo, afinal o colapso soviético comprometeu os aparatos de defesa e os recursos bélicos –recursos fundamentais para a manutenção da soberania de um país, especificamente de uma superpotência em declínio relativo, sobretudo quando o país em questão detém o maior espaço territorial do mundo, abundância em reservas naturais e as fronteiras mais extensas da eurásia.

O reaparecimento da Rússia no cenário global tem um responsável direito: Vladimir Putin. Foi sob sua liderança que a Rússia retornou ao jogo da política internacional. O forte crescimento econômico, a expansão dos gasodutos na Europa e a aproximação estratégica com a China (antiga rival no mundo socialista), entre outros fatores, foram pontos decisivos para a volta ao jogo das grandes potências.

A Ucrânia é o estado-tampão entre os interesses russos e a ambição integracionista da União Europeia. O determinismo geográfico ucraniano fez com que aquele território se tornasse fatalmente o palco preferencial das batalhas geopolíticas das potências ao longo de todo século 20. Em termos militares, a Ucrânia já experimentou intervenções estrangeiras, guerras de anexação, revoluções coloridas, ameaças híbridas entre outras formas de ação contra a sua soberania. Sejamos realistas: Ucrânia é uma zona de influência da Rússia e tal condição é um determinismo geopolítico absoluto.

O antigo corredor polonês que dividia soviéticos e nazistas recuou para o leste e agora, em outra configuração histórica, espreme a Ucrânia e compromete decisivamente a sua soberania e os seus interesses nacionais. A tensão não foi criada pela Ucrânia, mas a Ucrânia certamente pagará a conta por ter o seu território violado por uma potência estrangeira. Afinal, a lógica da guerra é a escalada dos extremos.

Breno Rodrigo de Messias Leite é cientista político (UFPA) e professor de política internacional do diplô MANAUS, curso preparatório para Concurso de Admissão à Carreira de Diplomatas (CACD)

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