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Seca derruba logística para o Amazonas e afeta insumos para o PIM

A seca recorde deste ano suspendeu a vinda dos navios que trazem insumos para o PIM e mercadorias para o comércio amazonense. Operadoras de transporte de cargas pelo modal marítimo, como a CMA CGM, já avisaram que vão deixar as remessas temporariamente em cidades do Nordeste e só voltarão a aportar em Manaus, quando os rios da região voltarem a oferecer condições para o calado dos navios. Outras empresas, notadamente as de cabotagem, propõem concentrar esforços no modal rodo-fluvial e trazer as remessas por balsas.

Nesta segunda (16), diante do impacto das mudanças climáticas e dos efeitos do El Niño, a estiagem de 2023 bateu recorde no Amazonas. O Rio Negro registrou vazante de 13,59 metros, o nível mais baixo desde 1902, quando as medições começaram a ser realizadas. Diante dos impactos logísticos da seca na reta final para as festas de fim de ano, lideranças da indústria e do comércio se mobilizam junto aos governos e transportadoras, para reduzir prejuízos e afastar o risco de desabastecimento no varejo e paralisação da indústria. Mas, já dão como certo que terão prejuízos, justamente no período em que deveriam vender e lucrar mais.

Às contingências sazonais, somam-se os problemas estruturais da logística amazonense. Lideranças dos dois setores informam que apenas três empresas atendem atualmente pela navegação de cabotagem. A Aliança Navegação e Logística é a líder no segmento de cabotagem do país, com participação de 58,48%, segundo artigo da Revista de Direito e Negócios Internacionais Maritime Law Academy. Das empresas outorgadas a operar navegação de cabotagem, somente a Aliança, Log-In e Mercosul Line possuem embarcações contêineres, sendo que a Aliança detém metade da frota: oito embarcações.

Conforme a Comissão de logística do Cieam, os contratempos elevaram entre 25% e 50% o custo de frete na região. As balsas conseguem passar por trechos com profundidade inferior a 2 metros, enquanto os navios precisam de pelo menos 8 metros. Mas, transportam menos carga e não conseguem desenvolver muita velocidade, em razão das restrições atuais de navegabilidade, o que eleva o tempo do percurso e também implicam custo maior de transporte, dadas as despesas adicionais com a armazenagem dos materiais por mais tempo nos portos e as transferências imprevistas de contêineres. 

Alimentos e remédios

O presidente da CDL-Manaus, Ralph Assayag, garante que nenhum navio está mais vindo a Manaus. Conforme o dirigente, somente na semana passada, quatro navios que estavam em Itacoatiara voltaram com 2.400 contêineres de mercadorias para o comércio e para a indústria do Amazonas. O comerciante ressalta que o setor não tem um plano B e, em face da inevitabilidade do desabastecimento, pede que a prioridade de envios seja para alimentos e remédios. 

“Alguns navios estão deixando as cargas em Pernambuco, outros no Ceará, ou onde for mais cômodo ter a guarda dos contêineres. Não temos como trazer essas mercadorias em balsas, que saem apenas de Belém [PA]. Então, vamos ficar com esses produtos retidos. E o volume de balsas não cresce na mesma proporção, porque precisam de um monte de requisitos para trazer cargas. E apenas 30% da mercadoria que viria por Porto Velho [RO] está chegando, porque as balsas têm de vir mais leves, para não encalhar”, desabafou.

Os impactos da estiagem foram foco de reunião da Fecomercio-AM, realizada nesta segunda (16). O presidente em exercício, Aderson Frota, salientou à reportagem do Jornal do Commercio que, como os rios Negro, Madeira e Amazonas estão com baixo calado, o setor ficou reduzido a duas alternativas, para suas próximas remessas. Uma delas seria trazer as mercadorias por balsas saindo de Santarém [PA], o que está sendo utilizado pela maioria das empresas, “apesar de a escala ser muito menor”. A outra opção, que exigiria uma quantidade consideravelmente maior de contêineres, seria via cabotagem, embarcando de Pecem (CE). O dirigente avalia que esta seria uma “operação muito complicada e não bem definida”.

“A hidrovia do Rio Madeira está totalmente intransitável. Estamos fazendo um pleito junto ao Dnit e as informações que chegaram é que o órgão tem um projeto de fazer a desobstrução. Mas, isso não será tão rápido. Vamos ter um aumento de frete muito expressivo, em um momento em que enfrentamos um cenário de consumidor inadimplente e juros altíssimos. Com certeza, teremos um Natal com muitas mercadorias em falta. Nosso objetivo também é pleitear, junto ao governo estadual, uma dilatação do prazo de recolhimento de ICMS, considerando essas dificuldades. Estamos reunindo forças também para levar ao governo federal que a BR-319 é uma questão de necessidade”, avaliou. 

“O comércio continua com dificuldades de receber mercadorias e se ressente de um movimento mais dinâmico. E agora, com o final do ano, a situação se agrava. A indústria trabalha em cima do laço e sem estoques e o comércio está na mesma situação. Temos a Black Friday chegando em novembro e, logo depois, o Natal. Deve vir muita coisa pelo modal aéreo, que aumenta muito o frete”, emendou o vice-presidente da ACA, Paulo Couto, 

Férias coletivas

O presidente da Fieam, Antonio Silva, disse que o atual nó logístico diante da “seca mais severa da história” é um problema que independe dos esforços e articulações do setor. De acordo com o dirigente, algumas indústrias do polo eletroeletrônico do PIM já consideram a possibilidade de conceder férias coletivas antecipadas, justamente no momento em que a produção voltada para o atacado do Centro-Sul brasileiro deveria estar decolando.

“Uma opção é utilizar a combinação rodo-fluvial-navio, entre Vila do Conde [PA] e Manaus. As embarcações maiores iriam até lá, de onde a carga seria transferida para uma balsa com destino à capital amazonense, para a subsequente entrega via caminhões. Caso as indústrias optem por não paralisar as atividades, terão de buscar modais alternativos combinados a fim de possibilitar o transbordo para embarcações menores. Até o presente momento, o planejamento do setor para o período funcionou de forma positiva, com o contínuo agravo da estiagem. Entretanto, nossa preocupação é de que o setor precisará buscar novas soluções”, alertou.

O presidente da Aficam, Roberto Moreno, explicou que não é possível avaliar a situação dos estoques do PIM, porque as empresas não externam dados operacionais. “Cada empresa faz a contratação individualmente, e os percentuais que cada um recorrerá de qualquer alternativa viável, será analisado e decidido também individualmente. As indústrias estão acompanhando a situação de perto e com bastante atenção. Situação bem critica, esperamos superar logo essa fase”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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