Um professor universitário fez uma pesquisa com seus alunos, em Manaus. Entre outras perguntas havia uma: “Qual o time de futebol de sua preferência?”
Para quem vive a realidade do Amazonas nem vai ficar surpreso em saber que não houve ninguém que indicasse algum time local como sendo sua primeira paixão esportiva. Felizmente, entre os mais jovens, não encontramos muitas pessoas torcendo por escolas de samba do Rio de Janeiro. Já entre cinquentões e cinquentonas isso não é raro. Em programas de rádio, cujo alcance é imediato, apresentadores costumam falar de campeonatos de outros Estados, notadamente Rio e São Paulo, sem se dar conta que poderiam dar mais espaço aos clubes locais.
Esta constatação nos leva a reflexões em outros campos. Temos uma certa mania de valorizar o que vem “de fora”, o que atinge determinados produtos manufaturados, mas é muito notada no campo das artes. A própria imprensa costuma divulgar lançamentos de livros, dando um espaço muito grande a obras que sequer foram traduzidas para o português, enquanto autores locais ralam muito para receber uma notinha.
Se atentarmos para o noticiário local, principalmente de esportistas e artistas, esbarramos num samba de uma nota só: falta patrocínio, falta patrocínio… O caminho do reconhecimento é árduo e moroso. Por vezes exige uma persistência que somente os que praticam esporte com muito amor alcançam. Outros acabam desistindo pelo caminho, movidos principalmente pela necessidade de exercer uma atividade que lhes dê o sustento.
Contudo, não estamos cobrando dos outros uma atitude que nós mesmos não temos? Nós próprios não somos herdeiros e continuadores de uma mania que vem dos tempos da borracha? A elite amazonense construiu um teatro para ser comparado, pelo menos em prédio, com o que havia de chique em Paris, Milão, Lisboa etc. Para justificar a construção foram trazidos artistas destes locais, a custos altíssimos, cujo talento nas apresentações jamais conseguiu a atingir as camadas populares.
Temos de fazer justiça e abrir uma exceção ao Festival Folclórico de Parintins. A ação deste festival sobre a população é o que há de mais positivo para a cultura popular. O povo interiorano, tímido por natureza, está perdendo esta característica à medida que vai repetindo as toadas ufanísticas dos dois bois. O espaço que a arte parintinense está conquistando em todo o Brasil é outro fator de valorização da cultura local.
O Festival da Canção de Itacoatiara também já projetou e continua projetando compositores e intérpretes. Infelizmente, reclamam os artistas que a atração do evento não são os concorrentes, mas sim os shows contratados de fora, que acabam tirando o foco principal que é a valorização dos concorrentes. Mesmo assim, um festival só é muito pouco para um estado que tem potencialidades artísticas mal despertas. Se os prêmios fossem maiores, talvez o afluxo de artistas pretendentes ao prêmio também seria maior. Quem sabe um festival local que recebesse uma ínfima parcela da atenção que recebe o elitizado Festival de Ópera.
Valorizar a terra e sua gente através de poesias e canções sempre é um alento para quem nasceu ou para os que vivem em determinado lugar. De quebra ainda fornecem combustível para divulgação para os que por um motivo ou outro abandonaram sua região.
O estado brasileiro que mais cria músicas de valorização das raízes é o Rio Grande do Sul. Verdade que há algumas maçantes, mas se perdem no conjunto de boas canções. Acaba predominando pelo volume.
A frase, atribuída a Jesus: “Ninguém é profeta em sua própria terra”, depois abrasileirada por “santo da casa não faz milagres” não deve ser uma barreira para o incentivo cultural. O desafio é grande, mas devemos começar em algum local. Que tal começar a comparecer aos nossos estádios e torcer pelo time local?

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