Rondonópolis aposta na agricultura familiar

Na região onde estão concentrados os negócios dos dois maiores produtores individuais de soja do mundo –Iraí Maggi e o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi–, a agricultura familiar, alicerçada na pequena propriedade, pode ser a alternativa para superar rapidamente as crises que, a exemplo da atual, insistem em atacar o setor rural. A avaliação é de Valdir Correia, secretário de Agricultura de Rondonópolis, município com o segundo maior PIB (Produto Interno Bruto) do estado, baseado principalmente no agronegócio.
Nos últimos meses, a cidade assistiu à fuga dos investimentos das tradings, responsáveis por 70% do financiamento de sua safra agrícola. O vírus da crise imobiliária ocorrida nos Estados Unidos que contaminou num primeiro momento o setor financeiro e a indústria automobilística logo alcançou a agricultura de Rondonópolis, que hoje busca opções para continuar ostentando a condição de um dos principais celeiros agrícolas do Brasil.
O investimento na agricultura familiar, argumentou Correia, leva mais pessoas a produzir. Com isso, destacou o secretário, mais dinheiro circula na economia, irrigando não só o setor agrícola, mas também outros segmentos. A crise, avaliou ele, é temporária, mas pode piorar sem investimento no campo.
“Essa crise é passageira, mas se não ficarmos atentos à agricultura, que há muito tempo vem sendo o carro-chefe do controle da inflação e também valorizando o homem do campo, os efeitos podem ser maiores. A expansão de postos de trabalho no campo diminui o desemprego na cidade e aumenta as chances de enfrentar a crise”, comentou o secretário de Agricultura de Rondonópolis.
De acordo com pesquisa realizada em novembro de 2007, incluída no Dossiê Rondonópolis 2008, documento que serve de base para ações públicas da prefeitura, o desemprego no município era de quase 15,9%, enquanto a média nacional, à época, alcançava 9,3%. Os 6.329 estabelecimentos agropecuários da microrregião de Rondonópolis, que conta com mais sete municípios menores, empregavam 21.832 pessoas.
Correia diz que a região – berço político do segundo maior produtor individual de soja do mundo e atual governador do estado, Blairo Maggi (PR) – sempre deu prioridade à monocultura e aos grandes proprietários de terras. A partir de agora, enfatiza o secretário, o foco da Secretaria de Agricultura, assumida por ele no início do ano, após a vitória do atual prefeito Zé Carlos do Pátio (PMBD) sobre o grupo do governador, passa a ser a pequena propriedade rural.
O secretário pretende usar a agricultura familiar para reduzir a taxa de desemprego da cidade. “Viemos para a secretaria para trabalhar os projetos que possam beneficiar os pequenos agricultores do nosso município. Anteriormente, Rondonópolis pensava apenas em grandes negócios, mas esquecia que aqui há muitos pequenos agricultores que precisam ser ouvidos. O investimento na agricultura familiar, estimulando também a produção em grande escala, como a de hortifrutigranjeiros, que tem mercado na cidade e na região, é um investimento com retorno rápido e responde rápido à crise”.
De acordo com Correia, há cerca de 5.000 famílias ligadas à pequena agricultura em torno do município. Algumas delas são proprietárias, outras arrendaram as terras e algumas ainda são meeiras, ou seja, plantam e repartem a produção com o dono da terra. Para que essas famílias não dependam da cidade, a prefeitura sabe que é preciso investir em infra-estrutura no campo. “Nossa prioridade hoje é levar escolas e postos de saúde para a zona rural, melhorar as estradas, fazer um projeto para água encanada e para melhorar as moradias das comunidades rurais”.
O objetivo, revelou Correia à Agência Brasil, é fazer com que as pessoas voltem ao campo. “Queremos que cada vez mais pessoas saiam da cidade para o campo, porque lá eles vão se auto-sustentar. E é muito mais fácil gerar um emprego no campo do que na área urbana, é muito mais barato”. Com passado ligado ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), o secretário quer que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) crie mais assentamentos na região, que hoje tem dez.
Entre os projetos focados no pequeno agricultor, Correia informou já estão em andamento alguns em parceria com os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário, como aquisição de tratores para uso das comunidades rurais e o melhoramento genético para gado de leite. Duas áreas de posse do estado de Mato Grosso também estão sendo pedidas pela prefeitura para a criação de dois cinturões verdes para o cultivo de hortifrutigranjeiros.

Escassez de crédito preocupa produtores locais

Os produtores de Rondonópolis, um dos principais pólos do agronegócio brasileiro, esperam ter custos menores na safra 2009/2010 do que na atual, principalmente em razão da queda dos preços dos fertilizantes, hoje até 50% mais baixos. Apesar disso, eles não conseguem dimensionar, neste momento, os investimentos de custeio e comercialização para a próxima temporada agrícola.
Os agricultores têm, entretanto, uma certeza: não dá para deixar de produzir. “Ficar parado é para quem pode. Se parar, o banco vem e tritura o produtor”, disse o vice-presidente da Ampa (Associação dos Produtores de Algodão de Mato Grosso), Carlos Augustin.
A situação na área rural de Rondonópolis é crítica e resta pouco fôlego para os agricultores, alertou Augustin. De acordo com ele, os produtores gastaram boa parte do dinheiro no último plantio. Soma-se a isso o fato de as tradings, que financiavam um grande volume da produção agrícola do município mato-grossense, terem entrado num processo de hibernação, que pode durar até que passem os efeitos da crise financeira internacional.
“Sozinho ninguém agüenta. Por isso, a gente se reúne aqui toda segunda-feira para se atualizar”, comentou o presidente da Ampa, durante uma reunião no Sindicato Rural dos Produtores de Rondonópolis. “O BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] solta uma circular a cada 15 dias com novas regras. Só temos mais dois anos. Ou resolvemos nossa situação antes da eleição ou logo depois”, completou Augustin.
Segundo a produtora Maria Gambri, proprietária de lavouras de soja e milho na região, os agricultores rolam suas dívidas, mesmo sabendo, às vezes, que não terão condições de pagar os juros cobrados, porque sabem que sair do negócio pode ser um caminho sem volta. “Estamos tentando nos manter no mercado porque se [o produtor] sair não volta mais”.
Ela e outro produtor foram beneficiados pelo FRA (Fundo de Recebíveis do Agronegócio), criado em 2007. O FRA previa a contratação de financiamento para saldar dívidas entre agricultores e fornecedores referentes às safras 2003/2004 e 2005/2006. Os recursos viriam das exigibilidades bancárias aplicadas em crédito rural.
O vice-presidente de Agronegócio Banco do Brasil, Luís Carlos Guedes Pinto, explicou que a baixa adesão ao FRA – apenas 46 em todo o país – tornou o programa inviável. Como o banco não pagará aos fornecedores a parte que lhe cabia, a empresa credora já entrou em contato para cobrar Maria Gambri.

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