20 de abril de 2021

Exposição ‘Faltos’ mostra realidade ambiental

Quando dona Maria Isabel estava fazendo seu artesanato com objetos reciclados não imaginava que o neto observava tudo, atento aos trabalhos dela. Até hoje dona Maria Isabel continua com seus trabalhos, dando aulas, ensinando o que sabe, e ganhando um ‘extra’ ornamentando eventos, enquanto o neto resolveu transformar em arte o artesanato que aprendeu com ela.

Apesar da pouca idade, 24 anos, Wald Caldas já está em sua terceira exposição, ‘Faltos’, aberta ontem para visitação, no Cervantes Bar, no Largo de São Sebastião.

Wald Caldas já está em sua terceira exposição

“Minha ‘vó’ foi a grande inspiração para eu me tornar um artista plástico. Eu a via fazendo aquelas peças com material reciclado, e achava bacana. Aprendi com ela a construir esculturas com jornal, e ainda criança comecei a desenhar e pintar”, lembrou.

Wald nasceu e se criou no Centro, próximo à favela que existia sobre as águas do Igarapé de Manaus. A imagem da pobreza, levada ao limite, e das pessoas humildes que habitavam as águas podres, marcaram a imaginação do menino.

“Eu morava do outro lado da rua, mas cresci andando e brincando nas ruelas de madeira que existiam entre as casas da favela, então, não tive só uma visão distante daquele local, mas eu vivi nele, dentro dele, presenciando a situação das pessoas que ali moravam. Aquilo ficou gravado na minha mente até hoje e é o que eu coloco nos meus quadros”, disse.

Há algum tempo, ainda procurando um rumo, Wald começou desenhando as roupas para o espetáculo teatral de amigos e eles foram os primeiros a dizer que seu trabalho era bom e que tinha talento para as artes. Inspirado na avó e com a ‘força’ dada pelos amigos, em 2018, Wald expôs pela primeira vez.

A bela praça não inspira

“Lancei a coleção ‘Humanóides’, na Galeria Tupi, com nove pinturas feitas em papelão e mais uma escultura, em tamanho natural, construída com jornal, como aprendera com minha ‘vó’. Também fiz a capa do álbum ‘Convites da carne’, do rapper Mayer. O clip do Mayer foi filmado na minha exposição”, lembrou.

Capa do álbum ‘Convites da Carne’

Dos artesanatos para a primeira exposição, com pinturas em papelão, Wald continuou querendo cada vez mais se profissionalizar. No começo deste ano ele já tinha quadros para uma nova exposição, agora pintados em tela.

“Continuei rebuscando no meu imaginário as imagens do passado, da favela do Igarapé de Manaus. De alguma forma quero expressar meus sentimentos nos quadros que pinto. Foi assim com ‘Humanóides’, e também com esta segunda exposição ‘Extintos’, que passou por dois espaços: Centro de Convivência da Família Magdalena Arce Daou e Palácio Rio Negro. Como o nome da exposição já diz, queria mostrar o que se acaba, o que se extingue”, explicou.

Ainda hoje Wald mora no mesmo lugar, do outro lado da rua onde começava a favela do Igarapé de Manaus, mas o amontoado de casebres não existe mais lá desde 2010 quando foi inaugurado o Prosamim. O local, desde então, virou uma bela praça, porém, o artista nunca esqueceu dos amigos e das pessoas que conheceu morando nos casebres. Hoje essas pessoas moram nos apartamentos do Prosamim e sempre que pode, ele as visita.

“Certamente que só existem as lembranças daquela época e este bonito lugar, ao menos até agora, não conseguiu me inspirar. Por isso busco na minha mente, no meu inconsciente, as imagens de mais de dez anos atrás. A simplicidade das coisas e das pessoas daquela época me ajudaram a ser o artista que sou hoje”, revelou.

Wald pinta seus quadros na solidão de seu quarto, ou na varanda da casa, cujo visual é o do atual Prosamim.

Melhor do que Van Gogh

‘Faltos, falto, falta, faltou’. Assim começa a apresentação na nova exposição de Wald Caldas, ‘Faltos’, no Cervantes Bar.

“Ausência de alguma coisa, privação de algo, sentir falta, agonia, estremecer, é o querer ter de volta, mas saber que não vai ter. É isso mesmo. Diria que é tudo que o ser humano precisa e lhe falta”, explicou.

‘Faltos’ tem nove óleos sobre tela, com a marca registrada de Wald, as cores fortes e imagens expressionistas, hora coloridas, hora nem tanto. E os casebres da favela do Igarapé de Manaus estão lá.

“Me inspiro em Van Gogh, Picasso, Salvador Dali, Frida Kahlo, e Tarsila do Amaral. Um dos quadros da exposição é uma releitura de ‘Abaporu’, da Tarsila e, humildemente, tento os traços fortes utilizados por Van Gogh em suas obras”, declarou.

Releitura de ‘Abaporu’ 

Junto com os quadros de ‘Faltos’, alguns desenhos que foram expostos em ‘Humanóides’ e ‘Extintos’ também poderão ser vistos no Cervantes Bar. A exposição permanecerá no espaço até o dia 19 e pode ser visitada das 17h às 22h.

“Estou muito satisfeito com a carreira que estou construindo como artista plástico. Tenho vendido meus quadros só com divulgação nas redes sociais. Novamente, com humildade, diria que estou melhor do que Van Gogh, pois durante toda a sua vida ele só vendeu um quadro”, riu.

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