Endividamento das famílias avança no lastro do novo coronavírus

O percentual de famílias de Manaus que se dizem endividadas voltou a aumentar entre fevereiro e março, em sintonia com a média nacional. Já sob o espectro de incertezas trazido pela crise do Covid-19, a inadimplência subiu pela primeira vez em seis meses, embora a fatia de consumidores manauenses que admitem que não vão poder honrar com compromissos financeiros tenha registrado novo recuo. 

A conclusão vem dos números locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). O levantamento levou em conta a quantidade de famílias com dívidas contraídas com cheques pré-datados, cartões de crédito, carnês de lojas, empréstimo pessoal, compra de imóvel e prestações de carro e de seguros. A coleta ocorreu entre 20 de fevereiro e 5 de março, antes das medidas mais sérias de isolamento social para combate ao novo coronavírus.

Na sondagem, 86,5% das famílias manauenses ouvidas no mês passado (541.459) se dizem endividadas, patamar superior ao apresentado em fevereiro de 2020 (84,6% e 529.266) e muito acima da marca registrada em março de 2019 (78,2% e 482.780). São também os maiores números na série histórica de 13 meses fornecida pela CNC, após três retrações seguidas. Em âmbito nacional, o indicador voltou a subir em março, após o recuo mensal de fevereiro (65,1%), e pontuou 66,2% – o maior percentual desde o início da pesquisa.

O índice de inadimplência em Manaus subiu pela primeira vez, desde agosto de 2019, após seis meses seguidos de baixa. Pontuou 26,6% (166.686 famílias) contra os 26,3% (164.340) de fevereiro. O número, contudo, segue bem abaixo do registrado exatos 12 meses atrás (39,5% e 243.838). A proporção de consumidores brasileiros com dívidas ou contas em atraso subiu com mais força em todo o país e passou de 24,1%, em fevereiro, para 25,3% em março. 

A fatia correspondente às famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas ou dívidas em atraso e que permaneceriam inadimplentes, por outro lado, voltou a andar para trás em Manaus – embora tenha avançado no Brasil. Na capital amazonense, o percentual foi de 12,1% (76.066), caindo em relação a fevereiro de 2020 (12,7% e 79.683) e março de 2019 (16,9% e 104.191). No país, o indicador subiu pela segunda vez seguida e foi 9,7% para 10,2% na mesma comparação, além de ter ficado acima do patamar de 2019.

Entre as famílias manauenses ‘penduradas’ por compromissos financeiros, 50,4% se assumem “muito endividadas” – percentual bem acima do de fevereiro (47,7%). Em seguida, vêm aqueles que se dizem “mais ou menos endividados” (22,2%) e pouco endividados (13,9%). No primeiro e no terceiro grupo, predominam os consumidores com renda total de até dez salários mínimos. No segundo, os manauenses com renda superior a esse patamar lideram as pendências. 

Cartão e comprometimento

Em Manaus, o maior vilão do endividamento e da inadimplência ainda é o cartão de crédito. Em nível local, 86,6% das famílias estão nessa situação – contra 83,9%, em fevereiro. O percentual é maior entre as que ganham mais (96%). Carnês (42,5%) comparecem na segunda posição, elevado sua fatia em face do levantamento anterior (41,3%). O público preferencial, neste caso, é dos que ganham menos (45,2%). No Brasil, as pendências se concentram em cartão de crédito (78,4%), carnês (16,2%) e financiamento de veículos (10,3%).

Em média, as famílias de Manaus consomem 40,1% de sua renda para pagar dívidas – contra os 39,8% do mês anterior. A maioria (51,9%) compromete mais da metade de sua renda mensal com pagamento de dívidas, seguidas por aqueles que gastam de 11% a 50% (30,8%) e pelos que limitam os dispêndios a 10% para esse fim (7,3%). No mês anterior, essas fatias foram de 50,2%, 31,6% e 7,5%, respectivamente. 

“O endividamento do consumidor está crescendo e vai crescer muito mais, assim como o das empresas. O mesmo se pode dizer da inadimplência, porque estamos apenas na ponta do iceberg da crise. Mantidas as atuais restrições para o setor, e se o pico de contaminações se der mesmo na segunda quinzena de abril, teremos índices ainda piores e uma esteira de problemas, incluindo desemprego em massa”, alertou o presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens e Serviços do Estado do Amazonas), Aderson Frota.

Crédito e coronavírus

Em texto divulgado pela assessoria de imprensa da CNC, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, destaca que março teve o terceiro aumento mensal seguido na parcela de renda das famílias brasileiras destinada a pagar contas. “Quase um terço está comprometido com dívidas. É o maior percentual desde dezembro de 2017. Nas famílias com renda até dez salários mínimos, o comprometimento cresceu de forma mais expressiva, nos últimos três meses”, salientou.

No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, avalia que o recorde da proporção de brasileiros endividados revelaria que as famílias vinham se beneficiando de condições mais favoráveis no mercado de crédito ao consumidor. O dirigente, alerta, no entanto, que o cenário deve se reverter nos próximos meses, em função da crise do Covid-19. 

“Nesse momento de incertezas sobre a economia, a injeção de liquidez que será promovida vai de encontro ao endividamento já elevado das famílias. Nesse sentido, mostra-se muito importante viabilizar prazos mais longos para os pagamentos, ou alongamentos dessas dívidas, além de mitigar o risco de crédito”, concluiu. 

Fonte: Marco Dassori

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