Empresário investe em pirarucu de cativeiro

O sonho de criar pirarucu em cativeiro começa a ser concretizado na piscicultora Só Peixes da Amazônia, no município de Pimenta Bueno, em Roraima, de propriedade do advogado-piscicultor Elthon Lago. Essa história teve início em 2004, quando ele decidiu comprar a propriedade para realizar o que planejava há muito tempo.
O local, que estava desativado, foi todo adaptado para a criação do peixe. Na época, a propriedade tinha apenas cinco hectares de tanques abandonados e não tinha luz elétrica. Com investimento, a propriedade conta hoje com 65 tanques, equivalente a 40 hectares. Lá também funciona um pesque e pague e um restaurante.
O primeiro passo para a criação do pirarucu em cativeiro é a aquisição de matrizes para a reprodução, o que representa um grande investimento. Em 2005, Elthon comprou 85 peixes, entre machos e fêmeas, em idade de reprodução. Pagou de R$ 1.000 a R$ 2.600 por peixe. Na comparação, ele diz que a aquisição de matrizes de gado é mais simples que as do pirarucu. “A genética do peixe ainda não está dominada. Há dificuldade de se identificar a fêmea, por exemplo”, contou.
Outro trabalho é a formação de casais de pirarucu. Não é possível intervir aplicando hormônios para que o peixe desove, como é feito com outras espécies. Nesse desafio, de produzir pirarucu em cativeiro, o empresário passou a contar com o apoio do projeto do Sebrae e a colaborar com a pesquisa. “Enquanto o pacote tecnológico não fica totalmente pronto, vou criando outras espécies. Mas a intenção é trabalhar apenas com o pirarucu”, diz. Na propriedade Só Peixes da Amazônia, há também tambaqui, pintado, jatuarana e patinga, uma mistura de pacu com pirapitinga.
Paranaense, que mora no Norte do país desde os dez anos de idade, Elthon vibra com o que faz. A satisfação não está apenas na credibilidade que dá ao projeto, mas também porque diz se sentir menino de novo ao ter mais contato com o meio rural. “É bem diferente do mundo dos processos judiciais”, destaca. É a formação de técnico agrícola e a aptidão de família falando mais alto. O avô dele era cafeicultor. Mas Elthon ainda advoga e é dessa atividade que vem a maior parte da renda investida na piscicultura.

Espécies nativas

Atualmente, na Só Peixes há 200 matrizes adultas e 300 matrizes jovens de pirarucu, além de mil peixes de 20 espécies nativas da Região Amazônica. Elthon conta que a maior dificuldade é a formação de casais de pirarucu. Hoje ele tem dez casais formados em fase de reprodução e que geram os alevinos que são vendidos para diversos estados do Nordeste, além de serem comercializados para o Mato Grosso do Sul, Pará, Tocantins, Goiás, Minas Gerais, Distrito Federal, Amapá e para outros municípios de Rondônia.
Em setembro de 2007, Elthon ganhou um pirarucu que demonstra bem a dificuldade de lidar com esse peixe, além de provar que nem sempre é possível lidar como cupido. O empresário passou três dias tentando capturar o animal na propriedade de um amigo. Esse pirarucu, que tem 100 quilos e já está na empresa de Elthon, até posou para fotos dessa reportagem, mas não quer saber de encontrar o seu par. Fica sozinho em um tanque e briga quando é colocado com outros peixes.
Por sorte os outros casais têm cumprido direitinho a tarefa de reprodução. E recebem ajuda para isso. No tanque escavado são instalados ninhos artificiais. É uma forma de ganhar tempo porque o peixe não precisa construir o ninho e vai logo para a etapa da reprodução. “Esse foi o pontapé inicial para acelerar a desova”, conta. Após cinco dias da desova o peixe, em estado de larva, sai do ovo. Dias depois, entra no estado pós-larva, quando começa a se alimentar. Após cerca de 15 a 20 dias é formado o alevino, que já tem toda a aparência do peixe adulto.

Como é feita a retirada dos espécimes

A retirada dos alevinos do tanque é feita quando eles têm de três a quatro centímetros. A partir daí, eles são levados para um laboratório. Mas não pensem em um laboratório convencional com pessoas vestidas de branco, rigor na assepsia do local ou em vários tubos de ensaios. Trata-se de um local bem simples com tanques de concreto, mas é funcional e produtivo. Lá é feito um trabalho muito importante para a qualidade dos alevinos.
Os técnicos chamam esse processo de treinamento. Da alimentação natural feita com microorganismos presentes na água, os peixinhos vão aos poucos recebendo ração. Eles chegam com três centímetros no laboratório e no final do treinamento alimentar, que dura em média 30 dias, já estão com 12 centímetros. É também no laboratório, que tem 22 tanques e capacidade para até 150 mil peixes, que há a classificação dos peixes por espécie e tamanho.
A venda dos alevinos ocorre quando eles atingem de dez a 20 centímetros. O preço de venda é por centímetro e custa R$ 0,60 o centímetro. Em 2007, a Só Peixes produziu 300 alevinos. Em 2008 esse número subiu para 20 mil e neste ano alcançou 40 mil. “Se o mercado tivesse acompanhado o nosso ritmo poderíamos chegar aos 100 mil alevinos”, destacou Elthon.
Um dos gargalos que a pesquisa ainda tenta solucionar é a questão da ração tanto para os alevinos quanto para os peixes maiores. O pirarucu consome rações, existentes no mercado, para peixes carnívoros. Mas elas são, em sua maioria, importadas e têm custo alto. Ainda não se encontrou uma ração que conciliasse qualidade e baixo custo.
“Sabia que a caminhada ia ser árdua. O investimento no peixe foi pelo desafio de apostar naquilo em que outras pessoas já tinham desistido. Anseio que apareçam outros loucos como eu para investir na indústria de ração, na engorda, em frigoríficos especiais para abate e corte. A hora que a gente conseguir amarrar todas essas pontas a criação do pirarucu vai chegar a um estágio de profissionalismo como vejo em outras culturas. Aí, o negócio vai ser lucrativo para todos”, aposta Elthon.

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