27 de junho de 2022

Ambientes virtuais de aprendizagem

Os ambientes virtuais de aprendizagem (AVA) têm se multiplicado na última década. E esse crescimento tem exponencialmente multiplicado nos últimos anos. Esses ambientes já são, de longe, muito mais numerosos do que os ambientes físicos de aprendizagem (AFA). E quanto mais aumentam as possibilidades de aplicações tecnológicas para o ensino e para a aprendizagem, mais também crescem os aplicativos e inúmeros outros meios virtuais para suportá-los. Dessa forma, é provável que, em pouco tempo, haja uma revolução sem precedentes na aprendizagem, com desdobramentos ainda imprevisíveis em todos os setores da vida humana associada. Neste sentido, este artigo tem como objetivo explicar a natureza dos AVA.

Para que se um AVA possa ser compreendido, é necessário, antes, que se compreenda a dinâmica educacional. A ciência educacional, com reforços de inúmeras áreas do conhecimento exteriores à educação, tem avançado enormemente nos últimos tempos ao concentrar sua atenção no processo de ensino e nos mecanismos de aprendizagem. A concentração nessa dinâmica transformou, por exemplo, países atrasados como a Coréia, Singapura e Taiwan em verdadeiros paraísos educacionais, traduzidos em sistemas altamente eficazes (alcançam os objetivos pretendidos) e eficientes (produzem muito mais resultados promissores com o uso cada vez menor de recursos).

Os AVA permitem que a dinâmica educacional se torne plena: de um lado, docentes e equipes profissionalizadas planejam e executam esquemas altamente efetivos de ensino, enquanto, do outro lado, a aprendizagem se torna plena porque as barreiras, conhecidas pela ciência da educacional reforçada pelos conhecimentos de outras áreas, são quase todas removidas, no que se tornou conhecido como dificuldades de aprendizagem. Os AVA são planejados e feitos funcionar, portanto, por especialistas em educação trabalhando conjuntamente com profissionais de virtualização.

Daí advém a primeira consequência da natureza dos AVA: são sistemas que suportam a aprendizagem e práticas de ensino. Isso significa que não são fins em si, são meios. E estão voltados para o ensino, o que implica em compreender que não são os recursos tecnológicos que ensinam, eles apenas ampliam as possibilidades comunicacionais e demonstrativas dos atores envolvidos na dinâmica educacional: profissionais de ensino e indivíduos demandantes de aprendizagem. Os AVA permitem esse encontro não-físico, permanentemente em quase todos os casos, entre todos ou quase todos esses atores. Por isso o ambiente é considerado virtual, entendida a virtualidade como contraponto ao físico. A segunda constatação é a consequência óbvia: os AVA são mídias. Uma mídia contém duas dimensões analíticas: primeiro, envolve o uso da comunicação; segundo, utiliza recursos audiovisuais. A comunicação é utilizada porque a finalidade é sempre a aprendizagem, de maneira que aprender é receber informações e dados externos, dialogar com essas entradas, transformá-las em esquemas compreensíveis, significativos e, muitas vezes, retornar em formas de feedbacks ou retroalimentações. Apesar de sons e imagens ainda serem elementos físicos de que se utilizam as mídias para processar as comunicações, estão ausentes os elementos tácteis, que configura basicamente a natureza física dos outros ambientes de aprendizagem. Essa dinâmica é produzida como resultantes do planejamento dos AVA pelos profissionais da educação.
E a terceira, mas não menos importante, é a necessidade de interação entre os atores, mediada pela mídia, pelo AVA. A ciência contemporânea tem constatado que a interação é elemento essencial e condicionante da aprendizagem nos ambientes físicos e virtuais. Alunos, por exemplo, que não trabalham suas falhas e dificuldades de aprendizagem com os profissionais de educação tendem a obter rendimentos extremamente inferiores aos que o fazem. Os planejadores da aprendizagem e dos AVA precisam encontrar alguma forma de se certificar se a aprendizagem pretendida foi efetivamente realizada, da mesma forma que os aprendizes precisam se certificar de que aquilo que supõem terem conhecido era realmente o que foi pretendido pelos planejadores do aprendizado. É isso o que os AVA fazem: permitem a intermediação da aprendizagem.

AVA são meios, portanto, que utilizam os espaços virtuais, chamados de ciberespaço, que utilizam redes digitais espalhadas pelo mundo, interconectadas. Essas interconexões são feitas a partir de diferentes recursos, tais como celulares, tabletes, computadores, rádios, dentre inúmeros outros. Através das interconexões os conteúdos são veiculados de uma ponta à outra do esquema relacional, cujo desafio é criar e manter um ambiente o mais propício possível à aprendizagem. Da mesma forma que elementos ambientais interferem na aprendizagem feita fisicamente (tais como calor, luminosidade, ruídos etc.), também há elementos extra-físicos que interferem na aprendizagem virtual, como é o caso das cores, quantidade de informações, dinâmica visuais etc. Se os ambientes virtuais eliminam as barreiras à aprendizagem típica dos ambientes físicos não significa que não surjam outras.

Ao que tudo indica, as aprendizagens do futuro próximo serão realizadas, majoritariamente, em ambientes virtuais. A quantidade e a variedade de ambientes atualmente disponíveis apenas para o conhecimento dos sons, para quem está começando a aprender a ler, por exemplo, ultrapassa a barreira de mil apenas no Play Store de um simples Smartphone! E apenas para aprender a ler! Para aprender os números, outro quantitativo similar pode ser encontrado. Essas constatações mostram que se tem, hoje, à disposição uma amplitude fenomenal de ambientes virtuais de aprendizagem.

Mas, se seguido à risca o que se mostrou até aqui, apenas uns poucos podem ser considerados efetivamente AVA, uma vez que a maioria só permite comunicação de via única, do planejador para o usuário. O planejador não sabe se o usuário efetivamente aprendeu.

E nem tem como saber. Pode, no máximo, suspeitar do sucesso do AVA a partir da mensuração da satisfação dos usuários. Mas estar satisfeito não é o mesmo que efetividade (eficácia + eficiência) de aprendizagem. E sem aprendizagem não tem AVA.

*é PhD, professor e pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) – [email protected]

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