Da luta árdua de ser independente na seara literária amazonense, Diego Moraes se fez sozinho e hoje é reconhecido mais em outros círculos do que em sua própria cidade, onde muitas vezes só é visto como uma figura folclórica de tiradas rápidas e sarcásticas que frequenta os bares do Centro. Pois o escritor dá um passo maior que as pernas e sem medo de cair, sai de casa mais uma vez, dessa para fazer parte de uma mesa da Flip (Festa Literária de Paraty). O reconhecimento tem um quê de ironia, ao lembrarmos de que Diego criou há alguns anos a Flipobre, a contrapartida underground, online e ‘pobre’ da famosa festa literária.
Diego estará no próximo dia 1° de julho participando da FlipZona -o braço jovem da Flip -no ciclo Páginas Anônimas na Casa de Cultura. A mesa Romance Periférico terá mediação de Marçal Aquino e Moraes dividirá a mesa com os escritores Márcio du Coqueiral (Aracaju, SE) e Jéssica Oliveira (Nova Iguaçu, RJ) que falarão sobre o protagonismo que a periferia assume em suas narrativas. Confira a entrevista com o escritor.

Jornal do Commercio: Da Flipobre a Flip e já publicado em Portugal, enquanto aqui, para muitos, tua escrita ainda é motivo de piadas: “É só aquele cara louco que frequenta os bares”. O que muda agora? Espera reconhecimento ou já desencanou disso?
Diego Moraes: Na verdade, eu já desencanei de Manaus faz muito tempo. Acho que completou uma década que não tenho nenhuma relação cultural com a cidade. Acho que a questão não é ser motivo de piadas. É saber se o manauara lê. Vivo aqui no ‘exílio’ enquanto meus poemas são pichados em banheiros de Portugal e meus contos lidos em bares da rua Augusta (em São Paulo).

JC: Como escritor você já recebeu convites para palestras, encontros e festas literárias, todas fora de Manaus. Por conta disso já ouvi aqui em Manaus que ‘Diego Moraes é um vendido’. Como você recebe essas críticas? Pelo menos considera como críticas?
DM: Esses tipos de convite sempre ‘pintam’. É resultado do meu reconhecimento como escritor. Não ligo para críticas desse tipo. Ser chamado de ‘escritor vendido’ em um país onde reinam milhões de analfabetos e jovens que não têm grana para comprar livros… Isso chega a soar como uma piada sem graça do Rafinha Bastos ou uma pegadinha do João Kléber. Vou onde houver leitores com sede de letras. A literatura salva. Sou a prova disso.

JC: O teu distanciamento da cultura regional é visível e notório. Não se vê em teus trabalhos temas como botos, cachoeiras ou encontro das águas. Ainda há espaço para esses temas?
DM: São temas cansativos, batidos. Durante muito tempo tentaram me vender a ideia de que literatura amazonense é isso, e durante décadas, foi isso mesmo. Só que Manaus não é só lenda de boto ou caboco pescando piranha no rio Negro. Manaus se tornou um Iraque. O sangue escorre pelo asfalto. Teimam em vender a cidade de forma lúdica e cheia de lendas. Balela pura. Na minha opinião essa Manaus lendária é ‘trololó’ não existe mais nem na cabeça do meu avô.

JC: Sobre o convite para a Flip, o que você vai fazer lá? É irônico ser convidado para um evento que sempre esteve em teu alvo? O que muda com isso?
DM: Acredito que com o contrato de dois livros com a editora Record e meu público aumentando cada vez mais, acho que seria apenas uma questão de tempo o criador da Flipobre ser convidado. O convite veio de uma produtora da Rede Globo (RJ), com cachê, passagem e tudo pago. Espero rever amigos e dar meu recado. É só o começo de uma longa carreira.

JC: Qual o caminho até chegar a Flip? O convite faz parte de uma nova ideia dos festivais e editoras para encontrar bons nomes fora dos circuitos “manjados”?
DM: Fui descoberto graças a internet. Quando percebi que em Manaus não tinha editora, criei um blog e assim despertei o interesse de diversas editoras do Brasil. Aí acertei com a Bartlebee, por onde publiquei dois livros. A rua é um poeta lido em voz alta. Tem muita coisa boa nas margens. Nas bordas.
Acho que o convite se deu por meu público ter crescido e pelo contrato com uma editora grande. Mas existem eventos pequenos em várias partes do país que não ligam se você é preto, branco, amarelo, pobre ou rico.

JC: Dos colegas de mesa na Flip, quais são conhecidos por você? Está pronto para o debate?
DM: Conheço o trabalho do Marçal Aquino, a escrita cinematográfica dele sempre me atraiu. “O Invasor” é um baita livro que ficou ótimo na adaptação do Beto Brant para o cinema. Cito ainda a série “Força Tarefa” que passou na Globo e “Eu receberia as piores mentiras dos seus lindos lábios”, o último de Aquino que li.

JC: Mesmo se dizendo distante da produção literária de Manaus, é possível indicar ou recomendar alguém?
DM: Susy Freitas é a melhor poeta que apareceu nos últimos tempos por essas bandas. Suzy acabou de publicar um livro pela Bartlebee intitulado “Véu sem voz”. É minha recomendação.

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