50 ANOS – Caldeira, a casa dos boêmios

Um dos bares mais tradicionais da boemia manauara, o Bar do Caldeira está completando 50 anos de existência nesta segunda-feira (14).
Entrar no pequeno bar, com poucas mesas e cadeiras apertadas no espaço, que ganham as calçadas das ruas José Clemente e Lobo D’Almada nos finais de semana quando os boêmios invadem o local, é voltar no tempo, por meio das fotos em preto e branco penduradas nas paredes. Uma delas chama a atenção. A foto guarda há 39 anos a imagem de ninguém menos que o poeta Vinícius de Moares, sentado à uma das mesas do Bar, ladeado por admiradores. Jair Rodrigues e Luis Melodia também já passaram por lá.
Desde o início da década de 1970 o Caldeira reúne um grupo de seresteiros que, entre cervejas e petiscos, colocam à prova seus dotes musicais, outros de violonistas, relembrando velhas, mas sempre atuais músicas de Noel Rosa, Cartola, Orlando Silva, Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Silvio Caldas, o próprio Vinícius, entre tantas outras. A cada nova rodada de cervejas e petiscos, os seresteiros refazem suas energias e emendam do dia para a noite, até o Bar mais uma vez (como faz há quase meio século) fechar suas portas.
Cabarjal Gomes, arrendatário do Bar desde abril do ano passado, contou que o nome anterior do Bar era Nossa Senhora dos Milagres. A propriedade que pertencia aos portugueses Maria e de seu irmão, Adriano era uma mercearia típica de portugueses da primeira metade do século 19, quando passou a ser somente bar. A partir de 1970, ganhou um público cativo de boêmios, intelectuais, aposentados e tantos outros assíduos clientes.
Inácio Evangelista, 70 anos, se diz o mais antigo frequentador do Caldeira. Brinca, explicando que “nasceu dentro do Bar”. Ele frequenta o local desde a sua infância, desde os tempos antigos, até os dias de hoje, com um público renovado, que desconhece a história trágica do Caldeira, ou da ‘Caldeira’, para ser mais exato.

A EXPLOSÃO DA CALDEIRA

A nova geração, e a anterior, com certeza nem imagina o motivo do nome Caldeira ter sido dado ao Bar. Uma tragédia, que abalou Manaus naquele 14 de janeiro de 1970, conforme lembrou Lúcio Bezerra de Menezes, então adolescente, e morador das proximidades.
“Exatamente às dez horas da manhã, a primeira de uma sequência de três explosões ensurdecedoras ecoou. Gritos, pânico, desespero era o que se via e ouvia. A primeira pareceu um terremoto, a segunda lançou pedaços de dois corpos e pedras, a terceira, a mais forte, fez tremer o prédio do então Tribunal de Justiça e dezenas de casas dos arredores; chovia pedras, tijolos e madeiras, os fios elétricos quedavam-se arriados em frente à minha casa; se o inferno existe ali estava a se instalar a sua sucursal. A super pressão no interior da velha caldeira, em decorrência do entupimento da válvula de escape e o excesso de lenhas colocadas pelos foguistas foi a causa daquela explosão. Uma parte do tanque da caldeira da lavanderia da Santa Casa de Misericórdia foi parar no meio da rua, bem perto do Bar. Ao final das explosões, três vítimas fatais, dois foguistas da caldeira e uma senhora que pela rua passava”, contou.
A partir do episódio, o Bar Nossa Senhora dos Milagres virou Caldeira. Embora o nome remeta a uma trágica história, o espaço é só alegria para aqueles que gostam de boa música e reunir os amigos. “Vamos continuar aqui por mais 50 anos”, disse Cabarjal.
Entre as novidades apresentadas no cardápio do Bar repaginado: bolinhos de bacalhau, de camarão, filé, queijo bola, salame, batata frita, “e à noite sai um caldinho”, disse Cabarjal. Também estão acontecendo homenagens à grandes nomes da MPB: Vinícius de Moraes, em setembro; Gonzaguinha, em outubro; Cartola, em novembro, e na quinta-feira passada (10), o poeta da Vila, Noel Rosa lotou as dependências do Bar.

POR DENTRO – AGENDA DE EVENTOS

Quinta-feira: samba de raiz e chorinho, com Nelson Pilão, sobrinho de Luis Melodia, acompanhado do grupo Caldeira do Samba, a partir das 20 horas.

Sexta-feira: MPB, com cantores locais, a partir das 19 horas.

Sábado: pagode, com o Grupo Calçada, a partir das 16 horas.

Domingo: cantores da casa (Kátia Maria, Reinaldo Buzaglo, Celestina e mais a velha guarda), a partir das 10 horas.

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