Agenda ESG na Amazônia: premissas e ações compartilhadas no polo industrial de Manaus – Parte I 

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“Durante a pandemia as entidades da indústria se uniram em movimentos de efetiva solidariedade mas não escaparam das insinuações de assistencialismo, sugerindo que ajudar segmentos vulneráveis significaria adoção de ações pontuais de caráter social desvinculadas de uma estratégia sustentável de longo prazo.” 

Por Alfredo Lopes    Coluna Follow-up 

Empreender na Amazônia remete sempre às potencialidades e fragilidades deste bioma, o maior da biodiversidade tropical do planeta, seus enigmas, desafios e contribuições à questão climática. Palco de intensos debates acerca da preservação ambiental versus desenvolvimento econômico, a presença da indústria da Zona Franca de Manaus (ZFM) simboliza um emblema dessa intersecção entre economia e ecologia. Destacada no cenário global do Acordo de Paris, referência emergencial da crise climática, a Amazônia responde por citações, obrigações e responsabilidade impostas pelo compromisso dos países em 2015. Ou seja, não é exagero dizer que a Amazônia pautou parte significativa dos debates e decisões do Acordo do Clima. E foi desse contexto que evoluiu a expansão da Agenda ESG, a nova governança corporativa e inclusiva do parâmetro social e ambiental.  Por isso, ainda hoje, é essencial assegurar a distinção entre empresas que verdadeiramente adotam uma agenda ESG (Environmental, Social, and Governance) e aquelas que se valem do greenwashing e de assistencialismo para esconder a inconsistência de suas práticas ambientais e sociais.

A iniciativa de adoção da agenda ESG no âmbito das empresas, sob a direção do Conselho Superior do CIEAM, traduz o compromisso das associadas em adotar, efetivamente, práticas que sejam sustentáveis do ponto de vista ambiental, social e de governança. No contexto amazônico, isso significa, por exemplo, adotar processos produtivos que minimizem o impacto ambiental, promover o desenvolvimento social das comunidades locais e adotar práticas de governança transparentes e éticas. Nesse momento, precisamente na decretação da pandemia, as empresas se mobilizaram para atender ao drama sanitário e social que se instalou e ao imperativo de manter a base econômica de suporte social.

O desafio do momento imediatamente anterior, expresso pelo Acordo de Paris, e que estabeleceu metas claras de redução das emissões de gases de efeito estufa, já havia chegado perto de muitas empresas da região, que viram a necessidade (ou a oportunidade) de alinhar suas operações a essas diretrizes. O propósito que foi tomando dimensões entusiasmantes foi sempre  buscar uma imagem mais “verde” e responsável. A jornada, portanto, tem sido de muita incerteza, desafios e discernimentos inadiáveis. Além de avanços, é claro. 

Muitos dos atores locais foram prudentes ou céticos nas mudanças que se afirmaram muito rapidamente. Outros proclamaram  seu compromisso ambiental e social genuínos em suas intenções. Algumas empresas adotaram numa ótica enviezada estratégias de greenwashing, isto é, uma maquiagem verde, onde a imagem de sustentabilidade é mais proeminente do que ações efetivas. No Brasil, algumas empresas da área de cosméticos se manifestam através de campanhas publicitárias que exaltam a “conexão” da empresa com a floresta, enquanto suas práticas reais não são alinhadas com a conservação.

Durante a pandemia as entidades da indústria se uniram em movimentos de efetiva solidariedade mas não escaparam das insinuações de assistencialismo, sugerindo que ajudar segmentos vulneráveis significaria adoção de ações pontuais de caráter social desvinculadas de uma estratégia sustentável de longo prazo. As empresas foram estigmatizadas por doar recursos para comunidades locais, mas sem integrá-las de fato na cadeia produtiva ou sem oferecer capacitação e desenvolvimento.

Para responder a essas insinuações, o CIEAM decidiu pela consolidação de uma agenda ESG na Zona Franca de Manaus, inciativa fundamental que consolidou convicções por parte das empresas no reconhecimento e valorização das especificidades da região amazônica. A premissa era de que a adoção de práticas sustentáveis deve ser genuína e integrada, e não apenas um verniz para agradar stakeholders. E isso tem-espalhado como as boas notícias de paz iminente em tempo de guerra. Faz toda a diferença ver jardins com árvores da flora preciosa da Amazônia plantadas por gestores e colaboradores, ou hortas e herbários de iniciativas que só fazem crescer. Organizar movimentos comunitários, celebrações com jovens e crianças, compartilhar a preciosa noção e convicção de pertencimento… 

Historicamente, a fiscalização por parte do governo, e mais recentemente a pressão de consumidores e investidores conscientes e o trabalho de organizações não governamentais foram ferramentas inspiradoras que puderam ajudar a diferenciar as empresas verdadeiramente comprometidas daquelas que apenas simulam uma postura responsável. No CIEAM, a Comissão ESG da entidade é aquela mais procurada pelas empresas com o propósito mutualista, o mesmo que caracteriza as espécies da biodiversidade amazônica para fazer frente aos agentes da depredação. 

E nessa emergência da Agenda ESG, qual foi o Papel dos Stakeholders no contexto da ZFM?  Essa é uma questão a detalhar: a ascensão da agenda ESG (Environmental, Social, and Governance) nos negócios contemporâneos reflete uma série de fatores locais interconectados que levam ao reconhecimento crescente da necessidade de uma abordagem empresarial mais responsável e sustentável. Os stakeholders desempenham um papel fundamental nesse movimento, influenciando e moldando a forma como as empresas percebem e respondem às preocupações ESG. 

E que fatores podem ser considerados como desencadeadores  da Agenda ESG? 

Podemos anotar inicialmente a Mudança Climática e Desastres Ambientais. A crescente evidência da mudança climática e seus impactos catastróficos tem levado a um maior reconhecimento da necessidade de práticas empresariais mais sustentáveis. Desastres ambientais ligados à atividade humana também reforçaram essa percepção. O Brasil, mesmo antes de gerenciar os desafios da pandemia, começou a experimentar as tragédias do aquecimento global, com enchentes, vazantes, tempestades, furacões surpreendentes de Norte a Sul do país. 

Outro fator tem sido a pressão social dos movimentos sociais, de ativistas e organizações não governamentais que desempenham um papel fundamental na sensibilização para questões de justiça social, direitos humanos e equidade, pressionando as empresas a adotarem práticas mais éticas e justas. Nosso país se destaca pela frágil estrutura de distribuição de renda, um país que empobrece sua maioria e favorece suas elites financeiras, com reflexo impactante no capitalismo, cuja sobrevivência supõe uma diferenciada e robusta massa de consumidores.

Evolução das Expectativas dos Investidores é outro fator da movimentação rumo à Agenda ESG. Os investidores estão cada vez mais cientes dos riscos associados a práticas empresariais insustentáveis. Eles estão demandando transparência e responsabilidade, reconhecendo que as práticas ESG podem ser indicativos de uma gestão corporativa sólida e, portanto, um bom investimento. Simultaneamente, as regulamentações e e legislações dos governos ao redor do mundo têm implementado regulamentações mais rigorosas relativas a questões ambientais, sociais e de governança, incentivando empresas a adotarem padrões mais elevados. 

(*) Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras pelo Jornal do Comercio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM, Centro da Indústria do Estado do Amazonas, e coordenação editorial de Alfredo Lopes. 

Alfredo Lopes

Alfredo Lopes

Escritor, consultor do CIEAM e editor-geral do portal BrasilAmazoniaAgora

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