Súbitos outros da história (02)

O artigo imediatamente anterior (01) desta narrativa encerrou-se dissertando-se que antecipar um marco histórico acarreta poder tal como o personagem da charge disposta no caso. A isso se acrescenta o prazer de desafiar a monotonia do tempo. Todo dia é a mesma coisa: amanhece, entardece, anoitece. Vai-se ao trabalho, à noite vê-se televisão, dorme-se. Mas espera aí que vem uma bomba! Nada será como antes! No curso de uma década, esta é a segunda vez que assistimos uma chuva de profecias de uma nova era. 

A anterior foi no 11 de setembro de 2001. Nada também seria como antes. O que certamente mudou foi que em Nova York não existem mais dois vistosos prédios. A guerra que se seguiu, contra o Iraque, foi uma prova de que tudo continuou tão igual que os Estados Unidos foram capazes de cometer o mesmo erro do Vietnã, envolvendo-se num conflito sem sentido e sem saída. Presentemente temos a pandemia, alterando o guarda-roupa de todos obrigados a trajar nova indumentária: as máscaras faciais!  

Sucede, o problema é que a história é tão exasperadamente lenta em se manifestar que só se percebem seus movimentos décadas ou séculos depois. Na vida real, é bem mais aceitável o transeunte da Rua Saint-Antoine ter comentado com sua mulher que aquele 14 de julho não teve nada de mais, só um incidente, na rua Saint-Antoine apenas narrado de passagem no aludido artigo anterior, embora tenha significado a demolição da Bastilha, ora, ora, o que obriga trazer aqui as minudências da Revolução Francesa, matéria que já foi lecionada por este redator quando no magistério e ora se presta para abordagem jornalística. Sabe-se, querer flagrar a história no mesmo instante em que está dando o pinote é vão. Aliás, não existem pinotes. O que existem são convenções futuras em que se ficam os marcos das ocorridas transições. Profetizar o fim de um era é avançar com os mesmos precários instrumentos dos operadores doidivanas de Wall Street, cabe considerar de passagem.                               

Ali, ensaiamos abordar a Revolução Francesa. Contudo, antes, convém nos debruçarmos sobre a Guerra Mundial que culminou na independência das treze colônias americanas que se mantinham cada uma como um estado soberano segundo os Artigos da Confederação, até que conflitos de toda ordem levaram as treze antigas colônias britânicas tornarem-se um Estado nacional, genuíno, com um governo central que era soberano internamente e em suas relações com o resto de mundo,

Agora, como esperado, vamos tratar da Revolução Francesa. Assim, de todos os levantes que sacudiram a civilização ocidental na era moderna, mostra-se a Revolução Francesa como dos mais dramáticos, complexos e insólitos. É que durante uma geração ela transformou a vida não só dos franceses mas, virtualmente, de todos os europeus. Seus efeitos foram dramaticamente sentidos na sociedade ocidental, desde então. Sua importância imediata foi assinalar o triunfo político e social da burguesia. Mas, no final, teve também significado de dar oportunidade à entrada, na principal corrente da história, da massa do povo comum, cujo papel histórico havia sido até aí amplamente passivo

A Revolução Francesa enraizou-se tanto nas condições sociais e políticas da França do Século XVIII quanto nas ideias predominantes em toda a Europa na Era das Luzes. Muito estudiosos tem discutido sobre qual dos dois fatores foi o mais importante. Alguns sustentam que o papel das ideias foi apenas secundário, pois os abusos do Velho Regime eram tão graves e a monarquia estava tão decadente que a revolução era inevitável. Outros creem que (Continua). 

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