O mundo pós-ocidental

Breno Rodrigo de Messias Leite*

Em O Mundo pós-Ocidental: potências emergentes e a nova ordem global, escrito originalmente em inglês e traduzido em 2018, o cientista político e professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel elabora uma sofisticada análise acerca do presente e do futuro da ordem global, da ascensão das novas potências e do protagonismo da China na definição da política internacional no século XXI. Longe de anunciar qualquer catastrofismo ou pessimismo analítico, Stuenkel aponta para o fato de que a emergência do mundo pós-ocidental pode ser plenamente ajustável às circunstâncias de um mundo forjado na ordem liberal internacional do pós-Segunda Mundial. Em outras palavras, a emergência das novas potências globais, sob a batuta da China, pode criar, sim, um sistema descentralizado e multipolar sem, contudo, principiar um movimento disruptivo da própria ordem. A tese não deriva de um exame otimista ou ingênuo, mas, baseado em dados robustos, farta documentação e análise rigorosa do fenômeno da política internacional.

A obra de Stuenkel é um verdadeiro ponto de virada em relação ao cânon das Relações Internacionais produzidas até aqui. Tanto a perspectiva “ocidentocêntrica” quanto a do “difusionismo ocidental” das análises internacionais excluíram uma enorme quantidades de experiências não ocidentais ou pré-ocidentais. O ocidentalismo como dogma produziu uma imagem borrada e incompreendida do mundo. Só para se ter uma ideia de como o mundo não ocidental pode ser inovador, a consolidação de um princípio hoje consagrado na ordem multilateral só se tornou possível graças aos movimentos anticoloniais do século XX. A ex-colônia inglesa, os Estados Unidos, também foi no seu devido tempo uma força disruptiva, um desvio criador e até uma ameaça à dominação eurocêntrica do sistema internacional. Ainda segundo Stuenkel, desconsiderar o peso da China, do mundo muçulmano, da Índia, dos otomanos, por exemplo, é um equívoco histórico imperdoável. Portanto, o determinismo ocidentocêntrico cria certos condicionamentos, o que leva a perceber que “a criação da ordem de hoje, suas formas e previsões sobre o futuro, são limitadas porque buscam imaginar um ‘mundo pós-ocidental’ a partir de uma perspectiva providencia.”

O Mundo pós-Ocidental de Oliver Stuenkel leva em consideração quatro camadas de argumentação.

Primeiramente, “nossa visão de mundo ocidentocêntrica nos leva a subestimar não apenas o papel que os atores não ocidentais desempenharam no passado (a história não é tão puramente ocidental quanto nós gostamos de pensar) e desempenham na política internacional contemporânea, mas também o papel construtivo que provavelmente terão no futuro.” O nascimento do ocidentocentrismo é uma construção teórica intimamente ligada à própria formação disciplinar das Relações Internacionais. O apelo à narrativa a qual a ordem global pré-ocidental foi marcado pelo signo da barbárie não se justifica. Pelo contrário, o período era “verdadeiramente multipolar” e criativo do ponto de vista da criação de autênticos regimes internacionais. Nas palavras de Stuenkel, “há muitas evidências sólidas de que elementos importantes como monopólio de autoridade política territorialmente estabelecido, regulação social da guerra e da diplomacia modernas […] surgiram em muitos lugares em todo o mundo, não apenas e tão somente na Europa.” A ascensão da Europa é o resultado de uma confluência de fatores, dentre os quais estão a desaceleração da Ásia, o fácil acesso aos recursos, a superioridade bélica e a promoção de mudanças tecnológicas.

Em segundo lugar, a ascensão do resto, notadamente a China, permitirá “um aumento de sua capacidade militar e por fim de sua influência e soft power internacionais.” A ascensão do resto pode ser entendida como uma síntese confusa, isto é, a combinação da multipolarização econômica identificada com a ascensão da China com a erosão da unipolaridade encarnada na hegemonia norte-americana. Os movimentos das duas superpotências assemelham-se aos das placas tectônicas no qual sentimos, mas não podemos dimensionar o tamanho das consequências. Nos cenários analisados por Stuenkel, a rivalidade estratégica parece não convergir para qualquer tipo de solução militar. Vale dizer, a construção de uma rivalidade administrada entre uma bipolaridade assimétrica liderada pelos EUA (poder político-militar) e pela China (poder econômico) pode render frutos positivos não só para as respectivas nações, mas – e aqui está o cerne do argumento – para as nações aliadas em parcerias estratégicas e blocos regionais.

Em terceiro lugar, “em vez de confrontar de forma direta as instituições existentes, as potências ascendentes – lideradas notadamente pela China – estão criando, sem alarde, os elementos constitutivos de uma assim chamada ‘ordem paralela’, que de início vai complementar e um dia possivelmente desafiar as instituições internacionais de hoje.” A edificação de estruturas globais paralelas não assume uma face agressiva ou uma ameaça sistêmica. De acordo com Stuenkel, “a maioria das estruturas que ela [China] implanta é complementar ou paralela às existentes, e raras vezes impõem desafios frontais – por enquanto.” Os países do Sul Global ganham mais espaço geopolítico e geoeconômico com este esquema de ordem paralela, pois agora são capazes de impulsionar as políticas de desenvolvimento sem a interferência dos organismos multilaterais criados pelos EUA no imediato pós-Segunda Guerra.

Em quarto e último lugar, “como parte de uma estratégia de salvaguarda, potências emergentes vão continuar a investir nas instituições existentes, reconhecendo o poder na ordem de hoje. Potências emergentes acatam a maior parte dos elementos da ‘ordem hierárquica liberal’ de hoje, mas vão buscar mudar a hierarquia no sistema para obter privilégios hegemônicos (como o direito de agir sem pedir autorização), até o presente desfrutados apenas pelos Estados Unidos.” A ascensão pacífica da China, do ponto de vista da competição política, vincula a agenda de segurança, expansão da infraestrutura e diplomacia multilateral. A presença chinesa em todos os continentes, sobretudo nos países do Sul Global tem transformado e impulsionado o sistema de comércio internacional. O foco chinês é fundamentalmente econômico, mas dependente de aliados (diplomacia) e de parceiros comerciais (infraestrutura). A nova Rota da Seda pode construir uma globalização pautada no multilateralismo competitivo e na inclusividade para atores historicamente excluídos dos grandes acordos globais.

Como demonstrado nos parágrafos anteriores, a tese de Oliver Stuenkel não é revolucionária. Na verdade, é plenamente condizente com as atuais mudanças globais. É certo que o autor não contava alguns acontecimentos recentes, como a pandemia de covid-19, a Guerra na Ucrânia e recondução de Xi Jinping para um terceiro mandato na China. Em alguma medida, houve, sim, um acirramento das rivalidades entre os EUA e a China, mas nada que se aproxime, até o momento, de um confronto militar direto no campo de batalha entre as duas superpotências e seus aliados.  

*é cientista político e professor de política internacional do Diplô Manaus

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