Males do atraso: Paternalismo, Corrupção e Alienação Política

O que acontece com nosso país tão rico e ao mesmo tempo tão espoliado? Como explicar vícios seculares que têm prejudicado nosso desenvolvimento social e econômico? Qual a relação entre a cultura comportamental da sociedade e as mazelas da desigualdade, da marginalidade, da exclusão e da própria violência? Neste artigo apresento uma breve abordagem sobre três características, a meu ver predominantes no que se convencionou chamar de “cultura política brasileira”. Evidencio que estas condicionantes comportamentais se retroalimentam. Mas também destaco meu reconhecimento de que a maioria dos cidadãos não se comporta da mesma maneira, embora as consequências atinjam a todos -ou quase todos.  Ou seja, o paternalismo e a corrupção, de um lado e a alienação política de outro, ainda não são práticas predominantes e concomitantes da maioria dos brasileiros. Além disso, outras condicionantes comportamentais influenciam nesta conjuntura de atraso, como o fisiologismo, o corporativismo e o autoritarismo, que não são abordados desta vez.

O Paternalismo gera a dependência, transforma o Poder Público em uma espécie de ilusório provedor das necessidades individuais e familiares. Também prejudica a Ética do Trabalho, que predomina nas civilizações que atingiram maior grau de desenvolvimento socioeconômico, como na Europa Ocidental e parte da América do Norte e da Ásia. O próprio sentido da Democracia fica distorcido pelo jogo cíclico eleitoral de “comprar” consciências com favores considerados como benevolências dos governantes e não como direitos dos cidadãos. Aliás, a essência da cidadania é esvaziada de seu significado de liberdade de escolha e de orientação política para o bem comum. Dependência e individualismo grassam com força, desagregando ou enfraquecendo lideranças e processos comunitários legítimos, os não cooptados pelos instrumentos meramente eleitoreiros. O pior de tudo é fomentar a noção de que é preciso ser amigo de políticos para poder obter vantagens em detrimento do trabalho honesto. Felizmente nem todos caem nessa “arapuca”, mas lamentavelmente parece que cada vez mais cidadãos sucumbem à tentação de depender de “favores políticos”.

A corrupção é um processo maléfico, combatido com relativa eficácia em muitos países ocidentais e alguns orientais. Ocorre que em grande parte do Brasil torna-se sistêmica e se incorpora ao comportamento social de muitos brasileiros, como se fosse algo aceitável. Ou seja, o ilícito parece se tornar normal. A regra de honestidade de propósitos é invertida e se torna exceção, quando deveria ser geral. Penso que seja importante observar que a corrupção não é um mal somente porque é moralmente errada e enriquece minorias sagazes, subtraindo recursos do Erário de suas reais finalidades. Além disso, a corrupção contribui para definir como prioridades ações que facilitem os desvios, muitas vezes em detrimento de necessidades coletivas prementes. Por exemplo, quando se deixa de desenvolver um bom programa de gestão hospitalar por conta da imposição da triste lógica de desviar os recursos da Saúde. Neste contexto, penso ser interessante observar que não faltam ao nosso país leis e tribunais destinados a combater as mazelas da corrupção, mesmo assim não possuem a efetividade desejável. Nesse sentido, perguntei uma vez a um amigo basco, a que ele atribuía o baixo nível de corrupção na sua província, se era devido às boas leis e à efetividade das penalidades. Ele me respondeu que o principal fator de prevenção e de combate à corrupção entre seus conterrâneos é o sentimento de honradez dos bascos, que temem a execração social e familiar se forem descobertos malversando recursos que não lhes pertencem. Ou seja, uma cultura moral coletiva tende a ser mais importante do que tribunais de contas, leis rígidas e penas severas.

Acrescento uma breve abordagem sobre a alienação política. Antigamente parecia que se tratava de uma característica comportamental restrita aos iletrados, aos mais pobres e vulneráveis. Mas não é bem assim. O estado de alienação política permeia, de modo mais ou menos intenso, conforme o contexto local, as diferentes camadas da sociedade. Penso que a alienação hoje em dia se coaduna muito mais com omissão, indiferença e egoísmo do que com nível de escolaridade. Nesse sentido exemplifico com os casos escabrosos de gestores públicos do interior, que enriquecem de modo ilícito à vista da população. Os desvios de recursos públicos não diminuíram com o aumento da escolaridade média destes gestores, ao reverso. Num nível macro isto é bem visível. A ampliação da formação escolar e universitária tem servido mais ao “aperfeiçoamento” do instrumental de corrupção do que ao seu enfrentamento. Nessa direção, a alienação política, seja dos pobres, da classe média ou dos ricos, contribui para que os vícios prosperem. Assim, acredito que a atitude “pilatiana” de lavar as mãos diante das mazelas políticas, contribui para que bons cidadãos se desinteressem em participar da política. E os que se propõem a este desafio de priorizar o bem comum, acabam por enfrentar uma concorrência desleal por parte de adversários inescrupulosos. Como nos ensina Martin Luther King, o silêncio –a alienação –das pessoas honradas contribui para o sucesso dos mal-intencionados.

Diz-se que a Educação é o caminho para sairmos do atraso social em que nosso  país se encontra. E eu concordo, desde que esta Educação seja verdadeiramente permeada de valores éticos e de conhecimentos úteis para a construção do bem comum. Este propósito formativo de cidadãos que se ocupam dos interesses coletivos e não apenas de seus interesses pessoais é fundamental. Precisa estar presente desde as creches até as universidades. Além disso, penso que cabe às Igrejas Cristãs –e outras instituições religiosas e filosóficas -um papel ativo de coibir os vícios acima elencados e não se beneficiar materialmente deles. À ganância desenfreada daqueles que se esqueceram da ética da fraternidade e da justiça que Jesus nos ensinou pelo Evangelho, é preciso enfrentar com o Amor Dele em nossas mentes e corações. E se tornar a regra balizadora das nossas ações não somente em nível familiar, mas também na amplitude da vida em sociedade.

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